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Brasil teve quase um milhão de celulares roubados ou furtados em 2022; saiba como evitar prejuízos

Um terço dos crimes foi registrado no Estado de São Paulo, segundo dados de 2022; notificações aumentaram cerca de 70% na Bahia

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Foto do author Marcio Dolzan
Foto do author Ítalo Lo Re
Por Marcio Dolzan e Ítalo Lo Re
Atualização:

Levantamento apresentado nesta quinta-feira, 20, no Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) aponta que quase um milhão de celulares foram roubados ou furtados no Brasil no ano passado, alta de 16,6% ante 2021. Do total, mais de 1/3 dos roubos e furtos ocorreram em São Paulo, mas os maiores crescimentos em termos proporcionais foram registrados na Bahia e no Rio de Janeiro.

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Segundo o anuário, 999.223 pessoas registraram furto ou roubo de celulares ano passado, o que equivale a quase um caso por minuto. Mais populoso do País, o Estado de São Paulo teve média de quase 950 registros por dia – ao todo, 346.518 paulistas tiveram seus aparelhos levados em 2022, segundo os dados oficiais.

Em abril, o Estadão mostrou que a Avenida Paulista se tornou um dos maiores focos de criminosos na cidade. Na região central de São Paulo, gangues de ladrões de bicicletas e de ladrões que quebram vidros de carros, a exemplo “Bonde do Elevado”, também têm assustado paulistanos.

Avenida Paulista teve um aumento de roubos de celulares pós pandemia  Foto: Alex Silva/Estadão

Quando se considera a proporção de habitantes, os maiores crescimentos desses tipos de crimes foram registrados na Bahia (acréscimo de 70,5%) e Rio (58,6% a mais do que em 2021).

Por outro lado, o Fórum aponta que seis Estados tiveram queda de casos de roubo ou furto de celulares. A maior queda foi em Mato Grosso (redução de 41%). Outros cinco Estados também apontaram melhora nos números: Roraima (redução de 14,5%), Paraíba (-4,5%), Acre (-3,8%), Pará (-3,5%) e Rio Grande do Norte (-3,3%).

Considerando o total de ocorrências em relação ao tamanho da população de cada Estado, Amazonas, Distrito Federal e São Paulo registram os maiores índices desse tipo de crime. Na outra ponta, Paraíba, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul apresentaram os menores números.

Roubo e furto de celulares

Maiores taxas por 100 mil habitantes

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  1. Amazonas - 1.015,1
  2. Distrito Federal - 1.008,3
  3. São Paulo - 780,1
  4. Espírito Santo - 669,9
  5. Piauí - 624,4

Menores taxas por 100 mil habitantes

  1. Paraíba - 115,8
  2. Rio Grande do Sul - 160,1
  3. Mato Grosso do Sul - 165,3
  4. Minas Gerais - 261,1
  5. Santa Catarina - 287,3

Confira a lista completa:

Porta para outros crimes

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Para Rafael Alcadipani, que integra o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, roubos e furtos de celulares aumentaram pela atratividade desse tipo de crime. “O celular passou a ser o grande produto para os criminosos. Antigamente era o toca-fitas dos carros, até mesmo a calota do carro. A questão é que no celular, hoje, toda a vida da pessoa está lá, incluindo dados bancários. E isso sem falar no valor que o desmonte do celular gera para os criminosos. É um produto de fácil furto e roubo”, sustenta.

Na avaliação de Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do fórum, é preciso conectar o debate sobre furtos e roubos de celular com o de estelionatos. “Os furtos e roubos de celulares, se a gente comparar com 2021, parece que cresceu de forma absurda. Mas, na verdade, eles voltam ao patamar de 2019″, diz. “Só que o celular, naquela época, era roubado basicamente para servir para reposição de peças, venda no mercado clandestino e exportação para países que não têm fiscalização reforçada do Imei (identificador do aparelho).”

A partir da pandemia, ele destaca que houve migração do mundo físico para o mundo híbrido. Isso foi acelerado no Brasil pelo lançamento do Pix. “As pessoas que não estavam acostumadas a viver em um ambiente virtual migraram em velocidade muito grande. Agora, percebemos é que o crime entendeu que o crime patrimonial é mais vantajoso, e menos arriscado, se feito no ambiente virtual. Mas para isso ele precisa do equipamento – por isso os roubos e furtos de celular continuam muito presentes”, diz.

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No ano passado, o Estadão mostrou que uma célula do Primeiro Comando da Capital (PCC) comandava um grupo nos arredores da Avenida Paulista, em São Paulo, para desviar dinheiro via Pix de celulares roubados. No ano passado, a via registrou o maior número de roubos da última década, com o aparelho telefônico como alvo principal.

“É mais rentável criar, como o PCC criou, uma fábrica para receptação de celular e dar golpe do que roubar carro e correr risco de trocar tiro com a polícia”, diz Lima. Segundo ele, outros pontos que atraem criminosos é a dificuldade da investigação, uma vez que os golpes podem ter como vítimas pessoas de outros Estados, e o fato de a pena de estelionato ser mais branda que a de outros crimes.

“É uma equação que tem beneficiado a explosão dos crimes patrimoniais, o que tende a ficar até a polícia criar capacidades institucionais, em especial as Polícias Civis”, acrescenta.

“O grande desafio deste momento é como investigamos esse tipo de crime. Isso joga luz a duas coisas principais: ao volume, porque estoura a capacidade institucional de investigação; fora isso, as polícias – não só no Brasil, mas no mundo – precisam adquirir expertises que muitas vezes não dispõem, em termos tecnológicos e de formação do policial”, continua Lima.

Empresária passou por dois roubos em 2022 em SP

A empresária Carolina Mendes, de 46 anos, foi vítima de duas situações de roubo apenas em 2022. Em novembro, dois homens armados fizeram ela e o namorado de refém na porta de casa, na Vila Mariana, zona sul de São Paulo. Junto com os celulares, também levaram o carro. Os criminosos invadiram as contas bancárias da empresária, fizeram empréstimos e diversas transações financeiras. “Você fica com uma sensação de impotência”,diz.

'Sensação de impotência', diz Carolina Mendes, vítima de dois assaltos em SP Foto: Pedro Kirilos/Estadão

Menos de 2 meses após a primeira situação, em dezembro de 2022, ela teve outro celular roubado. Dessa vez enquanto esperava por um carro de aplicativo na saída de um bar, na Avenida 13 de Maio, Bela Vista, também na zona sul. “O lugar estava cheio, devia ter umas 30 pessoas, estava bem movimentado”, conta. “Mas, mesmo assim, um rapaz de bicicleta passou e arrancou o celular da minha mão. Eu saí correndo atrás dele, mas não consegui fazer nada. Ele foi embora com meu segundo celular roubado”, revela.

Hoje, depois de ter vivido as duas situações em pouco tempo, ela adotou algumas estratégias de segurança. “Passei a pedir Uber apenas dentro de portaria ou dentro dos estabelecimentos. E também redobrei minha atenção ao parar com o carro em certos lugares”, diz.

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Pedido de ajuda terminou em assalto em SP e dinheiro foi roubado de conta

Natural de São Paulo, Murilo Andretto, de 21 anos, sempre conviveu com a insegurança ao andar pelas ruas da capital. Mesmo sabendo dos perigos, em dezembro, ao tentar chegar em uma balada na República, no centro, ele se perdeu e pediu ajuda de um homem para encontrar o local. Contudo, o homem levou para uma emboscada, onde quatro outros bandidos o empurraram e roubaram carteira, celular e até o tênis.

Após esse episódio, Murilo ainda teve dificuldade em reaver o dinheiro roubado da sua conta. “Como era próximo do dia 20 de dezembro, e o banco não queria liberar o saque e nem cartão provisório, as minhas contas ficaram atrasadas”, desabafa.

Felipe Ferreira, de 27, é motorista de aplicativo desde janeiro e foi durante uma das corridas, em abril, que ele acabou sequestrado. Durante três horas, os bandidos o deixaram como refém e tentaram extorquir amigos e familiares de Felipe, quando não conseguiram levaram os dois celulares roubados, o carro - que ele alugava para fazer as corridas – e R$1,5 mil da conta bancária.

“Eles fizeram uma transferência de R$1,2 mil e o restante foram pequenos, como se tivessem pagando pequenas coisas deles mesmo, sabe? E os últimos 48 reais, eles compraram uma pizza”, contou ele. Depois do episódio, ele conseguiu reaver o dinheiro, contudo a locadora ainda cobrou uma quantia por causa do roubo do carro alugado.

O que fazer caso tenha o celular roubado ou furtado

Uma reportagem do Estadão mostrou que ter o celular roubado ou furtado pode representar uma dor de cabeça que vai muito além da perda do aparelho. Isso porque o celular frequentemente é utilizado para confirmar transações, através do envio de códigos de segurança ou links por SMS.

Assim, quando um aparelho é furtado ou roubado, além do registro de ocorrência e o pedido de bloqueio junto à operadora, é preciso tomar uma série de medidas para evitar que a vítima seja alvo de outros crimes.

  • Acione imediatamente os bancos os quais você possui conta e peça o bloqueio de aplicativos e transferências;
  • Entre em contato com sua operadora e peça o bloqueio do seu número de celular;
  • Faça um boletim de ocorrência;
  • Troque as senhas de redes sociais, e-mails e outros.

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São Paulo diz adotar medidas

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou que tem adotado medidas para melhorar esses números. “Desde o início do ano, a atual gestão da Secretaria da Segurança Pública tem intensificado as ações preventivas e ostensivas para combater a criminalidade e tentar reverter os índices de 2022 apresentados pela reportagem”, diz o texto. “Houve reforço do policiamento, aumento e integração das ações de inteligência, valorização da carreira policial, aumento da transparência - com sistemas que disponibilizam relatórios de ocorrências para a população - e tratativas com o Poder Judiciário para monitoramento e fiscalização de reincidentes - um dos maiores entraves para a segurança pública.”

/COLABORARAM GUILHERME SANTIAGO E ETHIENY KAREN, ESPECIAIS PARA O ESTADÃO

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