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Cafés especiais, um mercado para todos

Pequenos produtores se esmeram na produção para exportar, associados a cooperativas ou a grandes empresas

Por Niza Souza
Atualização:

Produzir cafés especiais exige mais que investimento em equipamentos. A qualidade depende, e muito, do manejo pós-colheita. No Brasil, dizem especialistas, embora quase toda a produção seja negociada como commodity ou no mercado interno, há muito café bom, que poderia ser vendido como especial. Para encaixar o café nesse nicho, o desafio é manter a qualidade no pós-colheita.   Veja também: Produtor é orientado Apenas 2% da safra é 'especial' Na Zona da Mata mineira, onde o "Rio Zona" já foi sinônimo de café ruim, os cafeicultores passaram a adotar práticas simples, que, sem aumentar custos, melhoram bastante a qualidade. O resultado tem sido tão bom que este ano cinco produtores ficaram entre os dez primeiros colocados do Prêmio Brasil de Qualidade do Café para "Espresso", promovido por uma torrefadora italiana. Falta de informação "Éramos conhecidos como produtores de café ruim, mas o maior problema era falta de informação", diz o produtor Élcio Evangelista Pereira, de Manhuaçu (MG), na Zona da Mata, oitavo colocado no concurso. O preço pago pela saca de café especial é um incentivo. Uma saca com nota acima de 80 pontos pode valer até R$ 100 a mais do que o café convencional. "O preço me incentivou a melhorar. Valeu a pena." Para melhorar a qualidade, o principal investimento foi na compra do descascador, para produzir o cereja descascado. O restante das mudanças foi no manejo. "A região é muito úmida e antes não me preocupava com a secagem. Hoje sei que é preciso secar bem o grão, senão ele fermenta." Agora, diz Pereira, o café é colhido, descascado e no mesmo dia já está no terreiro, onde é mexido mais de 20 vezes por dia, para não fermentar. Das cerca de mil sacas/ano que produz, em apenas 22 hectares, Pereira consegue até 50% de grãos especiais, vendidos por R$ 350 a saca. O restante vende internamente, como bebida dura e recebe R$ 230 por saca. Os pequenos e médios produtores da região contam com o apoio da Universidade de Viçosa e das associações de produtores, na difusão de informações e na venda dos lotes especiais. "Há quase dez anos começamos a investir na melhoria da qualidade do café aqui da região. Mas foi a introdução do cereja descascado que permitiu essa mudança", diz o presidente da Associação Regional de Cafeicultores (Arca), Marcelo de Freitas Ribeiro, de Viçosa. "Nosso café sempre foi bom, mas perdia qualidade por causa da umidade e da falta de cuidado no pós-colheita." Unidade processadora O potencial da região chamou a atenção da torrefadora Illy, que financiou, em parceria com a universidade e a prefeitura de Viçosa, a construção de uma unidade de processamento de café para que pequenos cafeicultores possam produzir café de qualidade. A unidade começou a funcionar este ano e já beneficiou 2 mil sacas. Destas, um terço deve ser vendido como especial. "Mandamos analisar cerca de 700 sacas de cereja descascado e todas tiveram nota acima de 80", diz Ribeiro. "Os pequenos produtores não têm dinheiro para investir, nem volume para negociar. Por isso é importante esse trabalho com as associações." O manejo do café pós-colheita também mudou muito de cinco anos para cá no Sítio Água Limpa, em Cajuri, Zona da Mata, desde que o cafeicultor José Geraldo do Carmo associou-se à Arca. "Antes, do jeito que o café vinha da lavoura a gente jogava no terreiro. Hoje, nós lavamos, tiramos a sujeira, e separamos grãos cerejas, verdes e bóias", diz. Os cerejas vão direto para a unidade de processamento, em Viçosa. Com a pequena produção, de 100 sacas, agregar valor é fundamental. "Se o pequeno não produzir café de qualidade, nem compensa produzir."

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