Drones com bombas no Rio repetem cena de guerra da Ucrânia e mostram que Brasil naturaliza o absurdo

Situação é resultado de décadas de omissão e fragmentação das políticas públicas, hoje expostas pelo domínio do Comando Vermelho nas comunidades

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Por Rafael Alcadipani
Atualização:

Contenção: megaoperação no Rio com 2,5 mil policiais mira traficantes do Comando Vermelho

2,5 mil policiais civis e militares estão envolvidos na operação realizada nesta terça-feira, 28, nos complexos do Alemão e da Penha. Crédito: Governo do RJ

Os resultados da megaoperação da polícia do Rio de Janeiro escancaram o quanto o Brasil naturalizou o absurdo. As imagens de drones operados por criminosos atacando as forças do Estado são compatíveis com cenários de guerra, como a da Ucrânia.

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Mas aqui não se trata de um conflito internacional: é uma batalha travada dentro de uma nação soberana, contra grupos que exercem, na prática, um poder paralelo - o principal deles o Comando Vermelho.

Não é admissível que porções inteiras do território brasileiro estejam sob domínio do crime organizado. A complexidade logística e o nível de articulação desses grupos obrigam o Estado a mobilizar operações que se assemelham a ações de tropas especiais das Forças Armadas para cumprir o que deveria ser rotina: prender criminosos que representam ameaça pública.

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O saldo, mais uma vez, foi de mortos, destruição e medo: marcas comuns de zonas de conflito que viraram comuns no Rio de Janeiro.

O Comando Vermelho lançou bombas por meio de drones em retaliação à megaoperação contra a facção no Rio de Janeiro Foto: Reprodução/TV Globo

A situação atual não surgiu hoje. Ela é resultado de décadas de omissão e fragmentação das políticas públicas. O problema não se resolverá apenas com operações de choque que agem sobre os efeitos e não sobre as causas. O coração da crise está no controle territorial que milícias e facções exercem, substituindo o Estado onde ele se ausenta.

Retomar esse território exige uma estratégia consistente, permanente e integrada entre os diferentes níveis de governo. Isso inclui presença policial qualificada e contínua, reurbanização de áreas inteiras, garantia de serviços públicos dignos e alternativas econômicas reais para quem vive nesses bairros. A disputa por autoridade não se vence apenas com armas, mas com oportunidades.

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O combate à barbárie é urgente. Cada dia que passa sob o domínio do crime custa vidas, de moradores, de policiais e de futuros que poderiam ser diferentes. Quando o Estado se omite, o crime ocupa o seu lugar. É hora de reverter essa lógica, pois já está tarde demais.

Análise por Rafael Alcadipani

Professor Titular da FGV-Escola de Administração de Empresas de São Paulo