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Opinião|Reações a avanços tecnológicos podem criar "luditas do século XXI" contra a IA

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Ilustração mostra tropas inglesas e industriais protegendo sua fábrica do ataque de ludistas, no século XIX - Foto: reprodução

Todo grande avanço tecnológico provoca alterações significativas na sociedade. Um dos exemplos mais emblemáticos disso foi a Revolução Industrial, que criou a classe operária, redefinindo para sempre as relações trabalhistas. Vivemos a aurora de outra mudança como essa, com a inteligência artificial. E assim como aconteceu no século XIX, isso pode provocar reações negativas da população.

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Essa fase teve início com o lançamento do ChatGPT, há um ano e meio. Esse produto deflagrou uma corrida tecnológica para que a IA fosse adotada em sistemas dos mais diversos. Com isso, muita gente descobriu que poderia ser substituída por um robô, mesmo entre trabalhadores que antes se sentiam seguros contra a automação, por realizarem tarefas intelectuais.

Observo, entre muitas dessas pessoas, uma tentativa de impedir o avanço dessa tecnologia contra seus trabalhos, a exemplo dos luditas, um movimento social contrário à industrialização há dois séculos. Mas assim como aconteceu naquela época, essa reação pode se demonstrar desastrosa.

O ludismo aconteceu na Inglaterra entre 1811 e 1816. Ele se caracterizava por grupos de trabalhadores que invadiam fábricas e quebravam suas máquinas. Não se tratava de um movimento político, e sim de uma reação à desumana exploração dos operários.

Ao destruir os equipamentos, os luditas buscavam, de maneira um tanto inconsequente, uma vingança. Sem pautas claras de transformação social, o movimento foi duramente reprimido pelo governo, que criou leis que permitiam que seus integrantes fossem deportados para as colônias britânicas e até mortos. Com isso, ele acabou sumindo sem conseguir resultados claros.

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Os "luditas do século XXI" não se propõem a qualquer atitude violenta, mas a uma resistência ao não usar ferramentas com inteligência artificial. Suas pautas são construídas sobre tópicos como a substituição de trabalhadores por robôs e a apropriação indevida de propriedade intelectual para o treinamento das plataformas.

Ainda que considere os temas legítimos, vejo que essa resistência difusa tampouco renderá frutos. Na verdade, ela pode provocar grandes prejuízos a essas pessoas.

É verdade que a inteligência artificial eliminará empregos, e não serão poucos. Ela também já transforma como realizamos nosso trabalho, no método, em nossa produtividade e de maneiras que muita gente nem imagina.

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Por exemplo, na quinta passada, estive, durante o VTEX Day, com o futurista Zack Kass, e ele afirmou que, em breve, muitas pessoas terão emprego, mas serão impedidas de trabalharem com o que gostam ou no que foram formadas, pois essas funções serão realizadas por robôs. E isso pode provocar sentimentos muito ruins nesses indivíduos.

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Além de impedir muita gente de fazer o que gosta, a inteligência artificial pode mesmo aumentar consideravelmente o contingente de desempregados e criar uma nova categoria: os "inempregáveis", trabalhadores que não conseguirão realizar nenhuma função, pois não terão conhecimentos mínimos para qualquer tarefa disponível.

A saída para isso não passa pela simples resistência. Pelo contrário, os profissionais devem entender e se aproprias da inteligência artificial, desenvolvendo as habilidades necessárias para tirar o máximo proveito dela. E não podemos ignorar que essa tarefa pode ser complexa para muitos. Portanto, as empresas devem promover a requalificação dessas pessoas.

A inteligência artificial é uma tecnologia com enorme poder transformador, mas ela deve ser usada para melhorar a vida de todos. Em pleno século XXI, não podemos repetir os erros da Revolução Industrial, quando a tecnologia foi usada para enriquecer poucos às custas da profunda exploração de muitos.


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Opinião por Paulo Silvestre

É jornalista, consultor e palestrante de customer experience, mídia, cultura e transformação digital. É professor da Universidade Mackenzie e da PUC–SP, e articulista do Estadão. Foi executivo na AOL, Editora Abril, Estadão, Saraiva e Samsung. Mestre em Tecnologias da Inteligência e Design Digital pela PUC-SP, é LinkedIn Top Voice desde 2016.

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