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Que tipo de ar respiravam Maomé e Colombo? Uma biblioteca de gelo guarda a atmosfera do passado

Blocos de neve comprimida armazenados na Dinamarca são as fontes diretas para conhecer o estado da atmosfera no passado, antes da poluição provocada pelo homem

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Por Redação

Que ar respiravam César, Maomé, ou Cristóvão Colombo? A resposta está em uma biblioteca refrigerada gigante em Copenhague, onde se armazenam amostras de gelo milenar que escondem os segredos da atmosfera de outras épocas.

“O que temos nestes arquivos são as alterações climáticas desde a pré-história. Temos uma lista de atividades humanas nos últimos 10.000 anos”, diz à agência AFP Jørgen Peder Steffensen, acadêmico da Universidade de Copenhague.

Amostras mais antigas foram trazidas nos anos 1960 de Camp Century, uma base militar secreta dos Estados Unidos na Groenlândia Foto: James Brooks/AFP

Os blocos de gelo são sua paixão há quatro décadas. Ele conheceu sua esposa, Dorthe Dahl-Jensen, também uma autoridade em paleoclimatologia, perfurando a banquisa da Groenlândia.

Um congelador gigante na Universidade de Copenhague armazena blocos de gelo com histórias atmosféricas de milhares de anos; o Ice Core Archive abriga material recolhido principalmente na Groenlândia Foto: James Brooks/AFP

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Desde 1991, Steffensen administra esta biblioteca de 25 quilômetros de amostras, a maioria procedente da Groenlândia, que ajudam os cientistas a entenderem as mudanças no clima. Esses fragmentos são excepcionais, porque não são água congelada, mas neve comprimida.

“O ar entre os flocos de neve está preso na forma de bolhas, e esse ar tem a mesma antiguidade que o gelo”, explica.

Na antessala, ou sala de leitura, a temperatura é de -18°C, uma temperatura quase amena em comparação com os -30°C da sala principal, onde cerca de 40.000 blocos estão armazenados em caixas.

É neste espaço que os pesquisadores estudam as amostras ao microscópio, mas não por muito tempo para evitar a mudança de temperatura.

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Steffensen tira, de uma caixa, uma amostra especial, cujas bolhas de ar podem ser vistas a olho nu: é a neve do ano zero. “Temos a neve de Natal, a autêntica neve de Natal”, diz ele, sorrindo.

Professor Joergen Peder Steffensen exibe parte de uma amostra de núcleo de gelo; material está ajudando cientistas a compreender as mudanças no clima Foto: James Brooks/AFP

Rocha mãe

Nesta biblioteca incomum, as amostras mais antigas foram trazidas nos anos 1960 de Camp Century, uma base militar secreta dos Estados Unidos na Groenlândia. As mais recentes chegaram neste verão boreal (inverno no Brasil), depois que os cientistas alcançaram a rocha mãe no leste da ilha, a mais de 2,6 km de profundidade.

Estas últimas amostras incluem extratos de mais de 120.000 anos atrás, durante o último período interglacial, época em que a temperatura atmosférica na Groenlândia era 5°C mais alta do que hoje.

Estas amostras de gelo são as únicas fontes diretas para conhecer o estado da atmosfera no passado, antes da poluição provocada pelo homem. “Graças às ‘testemunhas de gelo’, conseguimos determinar como os gases de efeito estufa, o dióxido de carbono e o metano, mudam ao longo do tempo. Também podemos observar o impacto dos combustíveis fósseis na época moderna”, explica Steffensen.

Lago formado em geleira na Groenlândia. Primeiras amostras da pesquisa foram coletada em base militar da região  Foto: Odd Andersen/AFP

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Este projeto é diferente do da Fundação Ice Memory, que tenta coletar amostras de gelo em 20 lugares do mundo para preservá-las na estação franco-italiana Concórdia, na Antártida, para futuros pesquisadores, antes que esses recursos desapareçam com a mudança climática. “Armazenar a memória glacial da Groenlândia é muito bom”, comenta o presidente da fundação, Jérôme Chappellaz.

Ele se preocupa, no entanto, com os riscos do uso de um freezer industrial, que vão desde problemas técnicos, dificuldades financeiras, ou possibilidade de ataque, ou de uma guerra.

Em 2017, uma avaria no congelador expôs a uma temperatura alta demais 13% das amostras de gelo milenares preservadas na Universidade de Alberta, no Canadá.

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Na base da Concórdia, bem distante da atividade humana, a temperatura média anual é de -55°C. “Eles têm um tesouro”, diz Chappellaz sobre os cientistas dinamarqueses. “Este tesouro deve ser protegido e, na medida do possível, adicionado ao patrimônio mundial da humanidade”, completou. / AFP

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