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Vírus ‘zumbis’ estão descongelando na Sibéria. Devemos entrar em pânico?

Cientistas descobriram um vírus que ficou preso sob um lago há mais de 48.500 anos. Entenda como os especialistas avaliam esse tipo de risco

Por Michael Birnbaum e Ellen Francis

THE WASHINGTON POST - O degelo do permafrost devido à mudança climática pode expor um vasto estoque de vírus antigos, de acordo com uma equipe de pesquisadores europeus, que dizem ter encontrado 13 patógenos anteriormente desconhecidos que estavam presos no solo anteriormente congelado da vasta região siberiana da Rússia.

Os cientistas descobriram um vírus que eles estimam ter ficado preso sob um lago há mais de 48.500 anos, eles disseram, destacando um novo perigo potencial de um planeta em aquecimento: o que eles chamam de vírus “zumbis”.

O aquecimento do permafrost já foi responsabilizado por surtos de doenças infecciosas antes  Foto: REUTERS/Maxim Shemetov

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A mesma equipe de pesquisadores franceses, russos e alemães isolou anteriormente vírus antigos do permafrost e publicou suas descobertas em 2015. Essa concentração de vírus frescos sugere que esses patógenos são provavelmente mais comuns na tundra do que se acreditava anteriormente, eles sugerem em um estudo pré-publicado que apareceu no mês passado no site BioRxiv, um portal onde muitos cientistas circulam suas pesquisas antes de serem aceitas em uma revista científica.

“Cada vez que olharmos, encontraremos um vírus”, disse Jean-Michel Claverie, coautor do estudo e professor emérito de virologia da Aix-Marseille Université, na França, em entrevista por telefone. “É um negócio fechado. Sabemos que toda vez que vamos procurar vírus, vírus infecciosos no permafrost, vamos encontrar alguns.”

Embora os que eles estudaram fossem infecciosos apenas para amebas, os pesquisadores disseram que havia o risco de que outros vírus presos no permafrost por milênios pudessem se espalhar para humanos e outros animais.

Virologistas que não estiveram envolvidos na pesquisa disseram que o espectro de futuras pandemias desencadeadas a partir da estepe siberiana está no final da lista de ameaças atuais à saúde pública. A maioria dos vírus novos - ou antigos - não são perigosos, e os que sobrevivem ao congelamento profundo por milhares de anos tendem a não estar na categoria de coronavírus e outros vírus altamente infecciosos que levam a pandemias, eles disseram.

As descobertas da equipe europeia ainda não foram revisadas por pares. Mas virologistas independentes disseram que suas descobertas pareciam plausíveis e confiaram nas mesmas técnicas que produziram outros resultados examinados.

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Vale a pena monitorar os riscos de vírus reprimidos no Ártico, disseram vários cientistas. A varíola, por exemplo, tem uma estrutura genética que pode resistir ao congelamento prolongado e, se as pessoas se depararem com os cadáveres descongelados das vítimas da varíola, há uma chance de que sejam infectadas novamente. Outras categorias de vírus – como os coronavírus que causam a covid-19 – são mais frágeis e menos propensas a sobreviver ao congelamento.

“Na natureza, temos um grande congelador natural, que é o permafrost siberiano”, disse Paulo Verardi, virologista que chefia o Departamento de Patobiologia e Ciências Veterinárias da Universidade de Connecticut. “E isso pode ser um pouco preocupante”, especialmente se os patógenos estiverem congelados dentro de animais ou pessoas, ele disse.

Mas, ele disse, “se você fizer a avaliação de risco, ele é muito baixo”, acrescentou. “Temos muito mais coisas com que nos preocupar agora.”

Para a pesquisa mais recente, a equipe europeia coletou amostras de vários locais na Sibéria ao longo de uma série de anos, começando em 2015. Os vírus que encontraram - de um tipo extraordinariamente grande que infecta amebas – estavam ativos há milhares e, em alguns casos, dezenas de milhares de anos atrás. Algumas das amostras estavam no solo ou em rios, embora um dos vírus direcionados à ameba tenha sido encontrado nos restos intestinais congelados de um lobo siberiano de pelo menos 27.000 anos atrás, disse a equipe.

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Os pesquisadores usaram amebas como “iscas de vírus”, eles disseram, porque pensaram que seria uma boa maneira de procurar vírus sem propagar aqueles que poderiam se espalhar para animais ou humanos. Mas eles disseram que isso não significava que esses vírus não existiam na tundra congelada.

A Sibéria está aquecendo em uma das taxas mais rápidas da Terra, cerca de quatro vezes a média global. Por muitos verões recentes, tem sido assolada por incêndios florestais e temperaturas chegando a 100 graus Fahrenheit. E seu permafrost - solo tão frio que permanece congelado mesmo durante o verão - está derretendo rapidamente. Isso significa que organismos que estiveram presos por milhares de anos agora estão sendo expostos, pois períodos mais longos de degelo na superfície do solo permitem que objetos que estavam presos abaixo subam.

Pesquisadores dizem que a chance de humanos tropeçarem em carcaças de humanos ou animais está aumentando, especialmente na Rússia, cujo extremo norte é mais densamente povoado do que as regiões árticas de outros países. A equipe reuniu algumas de suas amostras em Yakutsk, uma capital regional e uma das cidades de crescimento mais rápido da Rússia devido ao boom da mineração.

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O aquecimento do permafrost já foi responsabilizado por surtos de doenças infecciosas antes. Um surto de antraz em 2016 atingiu uma aldeia remota da Sibéria e estava ligado a uma carcaça de rena de 75 anos que emergiu do solo congelado. Mas o antraz, que não é um vírus, não é exclusivo da Sibéria e é improvável que cause pandemias generalizadas.

Muitos virologistas dizem que estão mais preocupados com os vírus que circulam atualmente entre os humanos do que com o risco de vírus incomuns do permafrost.

Novos micróbios surgem ou ressurgem o tempo todo, disse Anthony S. Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, ao The Washington Post em 2015, quando as primeiras descobertas dos pesquisadores sobre o permafrost foram divulgadas.

“Este é um fato do nosso planeta e da nossa existência”, ele disse. “A descoberta de novos vírus no permafrost não é muito diferente de tudo isso. Sua relevância dependerá de uma sequência de eventos improváveis: o vírus do permafrost deve ser capaz de infectar humanos, deve então [causar doenças] e ser capaz de se espalhar eficientemente de humano para humano. Isso pode acontecer, mas é muito improvável.”

Mais problemáticos, dizem muitos virologistas, são os vírus modernos que infectam pessoas e levam a doenças às vezes difíceis de controlar, como Ebola, cólera, dengue e até mesmo a gripe comum. É improvável que os vírus que causam doenças em humanos sobrevivam ao ciclo repetido de degelo e congelamento que ocorre no nível da superfície do permafrost. E a disseminação em mosquitos e carrapatos que tem sido associada ao aquecimento global tem maior probabilidade de infectar humanos com patógenos, dizem alguns especialistas.

Um vírus extinto “parece um risco baixo em comparação com o grande número de vírus que circulam entre os vertebrados em todo o mundo, e que provaram ser ameaças reais no passado, e onde eventos semelhantes podem acontecer no futuro, como ainda falta uma estrutura para reconhecê-los com antecedência”, disse Colin Parrish, virologista da Universidade de Cornell, que também é presidente da Sociedade Americana de Virologia. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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