A cineasta e fotógrafa belga Agnès Varda fez de sua longa carreira uma ode à criatividade. Inquieta e inovadora, pioneira do movimento de cinema nouvelle vague, da luta feminista e de causas sociais, colocou em filmes e imagens sua grande paixão pelas pessoas comuns.
Sua infinita capacidade de reinventar-se e ousar é reverenciada na exposição Fotografia Agnès Varda Cinema – que tem curadoria de fotos de João Fernandes e Rosalie Varda, filha de Agnès – e em mostra com três de seus filmes de curta-metragem, ambas no Instituto Moreira Salles (IMS). Os filmes exibidos pertencem ao acervo do instituto. A exposição começa neste sábado, 29. A sessão de abertura dos filmes será no dia seguinte, domingo, 30.
Agnès Varda tinha quase 90 anos quando recebeu sua Palma especial de carreira, no Festival de Cannes de 2015. Dois anos mais tarde estava de volta a Cannes para mostrar, fora de concurso, sua parceria com o fotógrafo JR, Visages, Villages. O filme foi um grande êxito, e Varda teve até homenagem no Oscar. Saíram JR e ela pela França, num caminhão montado para ser estúdio e laboratório fotográfico. Deixando para trás os grandes centros urbanos, foram a pequenas cidades e regiões distantes para fotografar... gente!

As fotos, transformadas em pôsteres gigantescos, eram projetadas e coladas em paredes de casas e até monumentos, integrando personagens e comunidades. Antes até que o cinema, a fotografia foi a primeira paixão de Agnès Varda. Como fotógrafa, ela esteve, nos anos 1950 e 1960, na China de Mao, na Cuba de Fidel Castro e até nos EUA, participando de uma manifestação dos Panteras Negras. Tudo isso Varda fotografou e, eventualmente, transformou em filmes.
Varda nasceu em 30 de maio de 1928. Morreu, nonagenária, a poucos meses de completar 91 anos, em 28 de março de 2019. Numa entrevista coletiva, em Cannes, revelou o segredo da sua longevidade. Foi na China de Mao, fotografando pessoas, como gostava de fazer, que adquiriu delas um hábito – todo dia, pela manhã, em jejum, tomava um copo de água quente. “Tudo funciona”, dizia. “É saudável e não custa nada.” Madame Varda tinha humor, mas não era mulher de brincadeiras. Baixinha – tinha 1,52 m –, era irascível. Podia irritar-se com facilidade, mas os filmes transbordavam humanismo. Não era a menor de suas contradições.
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Foi a única mulher no grupo fundador da nouvelle vague, o movimento de renovação do cinema francês nos anos 1950 e que, depois, como o neorrealismo italiano, se expandiu para todo o mundo. Abriu todo um campo, mostrando que as mulheres diretoras podem acrescentar e, no caso dela, efetivamente, acrescentam novos ângulos às histórias que contam.
Na revista de novembro com a programação do IMS, Kleber Mendonça Filho, o grande diretor de O Agente Secreto, paga tributo a Varda. “No longo processo de pesquisa para Retratos Fantasmas me ocorreu revisitar Daguerreótipos, que havia visto muitos anos antes. Eu tinha amado esse filme na época, mas foi a redescoberta que me caiu como um presente, pois filmar uma rua e as pessoas – e o amor pelo registro, e pelo rosto das pessoas – era algo que eu estava tentando passar no meu filme”, conta o cineasta.

Daguerreótipos é de 1975. Tem já 50 anos e é um dos filmes que a revista Sight and Sound (S&S), na sua edição do Summer 2025 cita como tendo sido fundamental para as mudanças ocorridas no cinema nas últimas décadas. Jeanne Dielman, de Chantal Akerman; Barry Lyndon, de Stanley Kubrick; Um Estranho no Ninho, de Milos Forman; Nashville, de Robert Altman; Tubarão, de Steven Spielberg, todos são de 1975, o ano que, segundo a S&S, mudou o cinema para sempre. Agnès Varda foi uma das artífices dessa mudança.
Na verdade, não foi só com Daguerreótipos. Como integrante da nova onda, ela já vinha operando mudanças desde seu longa de estreia, La Pointe Courte, de 1955. O casal que viaja para uma comunidade de pescadores na tentativa de resolver a crise de seu casamento. É, ao mesmo tempo, um filme sobre o casal e a comunidade. Seus rostos, seus hábitos. Sinaliza para uma das marcas inconfundíveis da autora, que sempre filmou seu país – e algumas vezes a América –, enxergando, olhem o que diz Kleber, “na geografia a poesia histórica e a imagem do cinema”.
Seguiu-se Cléo das 5 às 7, de 1962, que concorreu em Cannes com O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, sobre duas horas na vida de uma mulher que espera o resultado do exame que vai dizer se ela tem câncer. Mais três anos e a autora em que muitos críticos – e, principalmente, críticas – colaram a etiqueta de feminista, adotou o ponto de vista masculino em Le Bonheur/As Duas Faces da Felicidade.
O homem, um trabalhador, encontra a plenitude numa vida dupla, com a mulher e os filhos e a amante, mas a mulher não aceita dividi-lo e sobrevém a tragédia. Le Bonheur, com sua luminosa fotografia impressionista em cores, é um dos filmes mais belos que existem. Uma explosão de luz, bem diferente do tom soturno de Sans Toit ni Loi/Os Desajustados, de 1985. O retrato de uma garota, interpretada com intensidade por Sandrine Bonnaire, à deriva. Na rua, na estrada, colhendo as mais variadas reações, ela vai se degradando até o último e inevitável ato. O filme sombrio foi recompensado com o Leão de Ouro em Veneza.

Os três filmes que abrem no domingo a mostra de filmes de Agnès Varda são curtas, todos nutridos por sua experiência como fotógrafa e todos restaurados em 2K, em versões digitais estalando de novas. A Ópera-Mouffe, de 1958, tem 17 min. Durante dois meses, Varda – grávida – percorreu a parisiense Rue Mouffetard, clicando os habitantes do bairro do mercado, e o próprio mercado. Sem som sincronizado e incorporando o que o catálogo da mostra define como “diversas técnicas pouco convencionais”, o curta é uma amostra não apenas do estilo livre de Agnès Varda como da forma que cinema e fotografia interagem para ela.
Como já havia feito com a China, ela foi a Cuba quatro anos após a chegada de Fidel Castro ao poder, para documentar a Revolução de 1959. Voltou à França com um acervo de 1.800 fotos que utilizou para fazer o curta, de 29 min., Salut les Cubains. Saudações, cubanos! As imagens são variadas, de pessoas comuns, revolucionários armados com lenço no pescoço, um rei do mambo. De novo Varda manifesta sua liberdade sobrepondo às imagens uma trilha energética e uma conversa dela com o ator Michel Piccoli, na qual relata e comenta sua experiência na ilha. Mais uma vez vale recorrer ao catálogo: “As fotos são editadas de modo que parecem ganhar movimento”.
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O terceiro curta é de 1968, o ano que não termina nunca. Panteras Negras. Varda estava na Califórnia quando um dos líderes do grupo, Huey Newton, foi preso. Nas grandes cidades norte-americanas ocorreram manifestações de repúdio. Varda foi a Oakland, onde ocorreu o maior desses eventos. O concerto Free Huey transcorreu numa atmosfera festiva. Crianças brincam, mulheres dançam, mas o tom é dado pelos discursos inflamados de figuras icônicas como Stokely Carmichael, H. Rap Brown e Bobby Seale. A festa, para Varda, é do povo.
No começo dos anos 2000, já septuagenária, ela tentou uma nova forma de expressão, as instalações. Nunca abandonou a fotografia, nem o cinema. Misturava tudo, uma multiartista. Com Visages, Villages, a velha dama estava outra vez no topo. Até Hollywood – a Academia – lhe rendeu homenagem.

A feminista intransigente cuidou do marido, o grande cineasta Jacques Demy, durante a agonia dele. Soropositivo, Demy, que era bissexual, foi perdendo a visão, processo registrado por João Jardim e Walter Carvalho em seu documentário Janela da Alma. Após a morte do marido, Varda virou a guardiã do seu culto. Fez filmes como Les Demoiselles Ont Eu 25 Ans, para comemorar o jubileu de prata de Les Demoiselles de Rochefort/Duas Garotas Românticas, de 1967, e Jacquot de Nantes, sobre os verdes anos de Jacques.
Antenada, sempre à frente do seu tempo, Varda dirigiu, no fim dos anos 1980, Jane Birkin em Kung Fu Master! O filme tem tudo a ver com o game de mesmo nome e Jane aparece no próprio papel. Na sequência fizeram Jane B. por Agnès V. Charlotte Gainsbourg gosta de dizer que foi talvez o pior ano de sua vida, porque Varda e a equipe se instalaram em sua casa para filmar. Era invasão de privacidade em tempo real, e contínuo. Havia sempre uma câmera ligada.
Varda nasceu em Bruxelas, de pais franco-gregos. Estudou na Sorbonne para se tornar conservadora de museus, mas foi fisgada pela fotografia e sua vida tomou outro rumo. No Dicionário de Cinema, Jean Tulard lembra que, em 1962, no ano de Cléo das 5 às 7, a prestigiada revista Cahiers du Cinéma dedicou-lhe a primeira de uma série de extensas reportagens que iriam se repetir nos anos e décadas seguintes. A pergunta da Cahiers – “É possível amar Mao Tsé-tung e os antiquários?” Varda foi/é a prova definitiva. Sim!






