Com fitas coloridas, fachada da Bienal de São Paulo é transformada em obra de arte a céu aberto

Theresah Ankomah, de Gana utilizou fibras naturais e colaboração comunitária para criar uma obra que cobre a fachada do evento que começa neste sábado, 6; conheça e veja bastidores

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Foto do autor Julia Queiroz

Theresah Ankomah cobre a fachada da Bienal de SP com instalação artística

Artista de Gana fala sobre expor no maior evento de arte do Brasil e explica conceito da obra que ficará do lado de fora do Pavilhão da Bienal. Crédito: Julia Queiroz e Léo Souza/Estadão

Theresah Ankomah cresceu observando artistas no Centro para a Cultura Nacional da Acra, capital da Gana, onde nasceu, foi criada e segue trabalhando. A mãe era comerciante no local e, quando ela e os irmãos saíam da escola, podiam passear pelo espaço e observar o trabalho de artesãos e escultores.

“Eu fiquei atraída porque você pode pegar um barro, uma madeira, e apenas esculpir algo disso. Fiquei realmente impressionada. Quando fui para a escola secundária, eu pensava: quero ser como aquele homem que é capaz de esculpir figuras de madeira. Foi assim que entrei na arte”, diz ela ao Estadão.

Theresah Ankomah no Pavilhão da Bienal, no Parque Ibirapuera. A artista de Gana é uma das participantes do evento de arte que começa no dia 6.  Foto: Léo Souza/Estadão

Aos 36 anos, Theresah integra a lista de 120 artistas da 36ª Bienal de São Paulo, que ocorre a partir de 6 de setembro, sábado, até 11 de janeiro de 2026 no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque do Ibirapuera. “É o meu maior palco e um dos maiores trabalhos que fiz na minha prática artística. Então, isso é como a Copa do Mundo para mim. Eu estou realmente grata pela oportunidade”, afirma ela.

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O trabalho da ganense passa por instalações, esculturas, pinturas, tecelagem e gravuras. Mas vai ser fácil achar o projeto que ela produziu especialmente para a Bienal - a obra está do lado de fora, e não dentro do pavilhão. Theresah vai expor uma instalação que cobre uma fachada inteira do prédio. Será a primeira coisa que o visitante (e quem quer passe por ali nos meses da exposição) verá.

A obra de Theresah cobre uma fachada inteira do prédio da Bienal de São Paulo. Bastidores da montagem em 27 de agosto.  Foto: Léo Souza/Estad

“A ideia toda gira em torno do trabalho artesanal e da linguagem comunitária, porque minha prática de fato observa a atividade artesanal e as maneiras em que poderíamos ampliá-la. Eu acredito que ela não é estática, é dinâmica. Em cada geração, temos tantas coisas que surgem dessas práticas. Em que ponto se torna arte, e em que ponto continua sendo um artesanato?“, explica Theresah.

O fato da criação ser comunitária é uma das principais características da arte de Theresah: em Acra, ela trabalha com comunidades de tecelões, que ajudaram a produzir a obra que ela idealizou. “A comunidade é muito central para a minha prática. De onde eu venho, acreditamos que uma pessoa não é uma ilha. Nós todos, de certa forma, somos conectados.”

Não é apenas sobre mim, é sobre nós. Como nós nos unimos, como nós nos nutrimos, como nos apoiamos, como celebramos uns aos outros. E então, não sou eu aqui agora. É uma comunidade inteira que está representada na Bienal deste ano comigo

Theresah Ankomah

Em sua produção com a tecelagem, a artista utiliza fibras naturais, como juta, kenaf e rafia. No caso da obra exposta no pavilhão da Bienal, o principal material é folha de palmeiras. Ela explica que a árvore existe em abundância na comunidade que a ajudou a produzir o trabalho. “É a disponibilidade do material na localidade que os ajuda a fazer seus objetos”, diz.

Theresah Ankomah utiliza fibras naturais para compor suas esculturas e instalações. Foto: Léo Souza/Estad

Cada uma das “fitas” da instalação tem cerca de 12 metros. O Estadão visitou o Pavilhão da Bienal durante a montagem da obra, quando apenas metade da fachada estava coberta e funcionários usavam um veículo com uma plataforma móvel para “anexar” a instalação ao prédio.

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Antes de falar com a reportagem, Theresah fez questão de conferir como estava o processo. Ela explica que, desde o convite, tem tido uma troca muito grande com a produção da Bienal e com a curadoria do evento - o camaronês Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, radicado em Berlim, é o principal curador. Já a equipe de cocuradores inclui a marroquina Alya Sebti, a suíça Anna Roberta Goetz e os brasileiros Thiago de Paula e Keyna Eleison.

“Desde a criação do conceito até como ele poderia se encaixar na fachada, tem sido uma troca de ideias com os arquitetos e suas sugestões”, diz Theresah. Um dos grandes desafios da instalação era o fato de que o Pavilhão Ciccillo Matarazzo é tombado como patrimônio histórico. O prédio faz parte do conjunto original do Parque do Ibirapuera projetado por Oscar Niemeyer, e foi necessário conseguir autorização do Iphan para montar a instalação.

A obra de Theresah Ankomah praticamente finalizada já no dia 3 de setembro, três dias antes da abertura ao público. Foto: Felipe Rau/Estadão

“Isso também é uma coisa a considerar quando tais trabalhos estão sendo feitos. Há negociações e idas e vindas. Os arquitetos vieram, analisaram a estrutura arquitetônica e a melhor forma de colocar as obras e montá-las de forma a não prejudicar o trabalho e também não causar danos ao edifício. Portanto, tem sido um trabalho em equipe”, explica.

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É a segunda vez de Theresah no Brasil - a primeira também foi em vista da Bienal, durante esse período de conversas com a produção. Ela destaca uma visita que realizou ao Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, também dentro do Parque Ibirapuera, onde encontrou muitos artefatos advindos de Gana, Nigéria e Senegal.

Também cita um encontro com Diego Crux, artista brasileiro membro do coletivo Vilanismo - que também faz parte da 36ª Bienal. Eles se conheceram em um evento em Gana em 2019 e se encontraram novamente no ano passado, quando ele a apresentou ao trabalho do coletivo, que celebra a resistência e presença de homens negros na arte.

Theresah Ankomah nasceu e vive em Acra, em Gana.  Foto: Léo Souza/Estadão

Neste ano, o tema da Bienal é Nem Todo Viandante Anda Estradas – Da Humanidade Como Prática, é emprestado do poema Da Calma e do Silêncio, de Conceição Evaristo. Para Theresah, a frase ressoa diretamente com a arte dela: “Esta comunidade com a qual trabalho... é a vida deles. É assim que eles vivem, fazendo esses objetos e vendendo-os, e usando a receita para apoiar seus filhos na escola. Eles estão vivendo a arte.”

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É o que ela viu a própria mãe fazer durante anos para apoiá-la. “Quando eu estava começando, eu não tinha muito em termos financeiro”, explica. “Eu estou feliz que ela está aqui comigo para também ver como seus esforços e sua dedicação em apoiar minha prática deram resultados.”

36ª Bienal de São Paulo: Nem todo viandante anda estradas - Da humanidade como prática

  • Quando: 6 de setembro de 2025 a 11 de janeiro de 2026
  • Onde: Pavilhão Ciccillo Matarazzo - Portão 3 do Parque Ibirapuera, Av. Pedro Álvares Cabral, São Paulo
  • Entrada gratuita