Apenas cinco minutos após o início de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, filme que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta, 1º, o mundo — ou ao menos o teto da sala — desaba sobre Linda (Rose Byrne). Ela é uma mãe exausta, cuja filha enfrenta uma doença misteriosa sem sinais de melhora. Em circunstâncias normais, o impacto seria perturbador; contudo, este filme emocionalmente devastador já nos deixou tão tensos que a ruptura surge com a força de uma explosão.
Assim como o teto, Linda está desmoronando. Cuidar de uma criança que se recusa a comer e depende de uma sonda torna-se ainda mais penoso no motel barato para onde se mudaram enquanto o conserto é feito. Quase tão desgastante quanto isso é seu trabalho como terapeuta, especialmente as demandas de um paciente cujas ilusões sobre o próprio recém-nascido são profundamente inquietantes.
Para onde quer que Linda olhe, há alguém irritado com ela e ninguém capaz de ajudar: nem seu marido, Charles, capitão de um cruzeiro em viagem de meses (Christian Slater, presente apenas como uma voz exasperada ao telefone); nem a médica vagamente hostil da filha (interpretada pela roteirista e diretora Mary Bronstein), que questiona sua competência; e muito menos o próprio terapeuta de Linda (um Conan O’Brien maliciosamente ríspido), que só falta revirar os olhos diante de seu sofrimento.

“Por que você não gosta de mim?”, desabafa Linda em uma sessão. É um mérito notável da atuação de Byrne que a pergunta não soe como um lamento, mas como um sopro de honestidade brutal. À medida que os reveses se acumulam e as escolhas de Linda se tornam mais terríveis e irresponsáveis, Byrne — sob o olhar constante da câmera agressiva de Christopher Messina — transforma seu rosto em um verdadeiro campo de batalha. Quando a vemos berrando contra um travesseiro, estamos mergulhados na mesma angústia.
Dilacerante e por vezes sufocante, o longa é um grito de desespero materno pontuado por um humor ácido. Uma cena no carro com um hamster feroz serve de alívio cômico — provando que nem os animais gostam de Linda —, assim como sua eventual aparição em uma terapia de grupo, onde surge em frangalhos em meio a um banquete de sofredores impecavelmente arrumados.
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Ainda assim, a natureza implacável do filme pode exaurir alguns espectadores, enquanto outros o acharão dolorosamente familiar. Bronstein (que revela nas notas de produção ter escrito o roteiro a partir de suas próprias dificuldades na maternidade) esperou 17 anos para dar sequência ao seu elogiado longa de estreia, Yeast.

Ela faz escolhas inteligentes, aliviando a pressão sobre Byrne com coadjuvantes que dão fôlego ao ritmo febril da trama. A maravilhosa Danielle Macdonald é dolorosamente convincente como a jovem mãe que teme ferir o bebê. Mas são as interações espinhosas entre Linda e James (A$AP Rocky), o zelador do motel, que dão textura à fúria contida da protagonista. Com um espírito gentil e relaxado, James se vê intrigado por essa mulher ríspida que rejeita suas ofertas de ajuda. A conexão entre eles — nem romântica, nem totalmente amigável — é efêmera, mas o estilo sutil de Rocky permite vislumbrar o estrago causado pela autossuficiência defensiva de Linda.

Em certo ponto, bem antes de surgir um clipe da infanticida Andrea Yates, percebi que estava assistindo a um filme de horror. Assim como em Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011) ou O Babadook (2014), o roteiro de Bronstein transmuta a ansiedade materna em uma força quase sobrenatural. Ao retornar repetidamente ao apartamento destruído, Linda encara o buraco no teto como um vazio mutável que a suga — um portal para uma realidade mais acolhedora que a sua. Essas cenas dependem muito do design de som inquietante de Filipe Messeder e Ruy García, que fundem o rugido do vácuo ao bipe insistente dos aparelhos médicos e ao caos de vozes que clamam pela atenção de Linda.
Entre essas vozes está a da criança (Delaney Quinn), cujo rosto permanece oculto até o fim, mas cujas necessidades ditam o ritmo implacável do filme. E, mesmo quando a obra flerta com o grotesco ao mostrar a determinação aterrorizante de Linda em livrar a filha da sonda, fica claro que ela está tão presa ao equipamento quanto a menina. É uma coleira tão inescapável quanto o próprio cordão umbilical.
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