Gerando resumo
A Fúria faz jus ao nome. É o desfecho forte de uma trilogia iniciada nos anos 1960, continuada em meados dos 1970 e com final no Brasil de Jair Bolsonaro. São mais de 50 anos de história comprimida do Brasil, um país em transe praticamente permanente, sem pontos significativos de repouso. Seu autor é Ruy Guerra, moçambicano que adotou o Brasil e aqui produziu algumas obras-primas do nosso cinema.
Uma delas é justamente o primeiro filme que abre a trilogia, Os Fuzis, premiado no Festival de Berlim de 1964 e considerado um dos maiores já feitos no País. Ao lado de duas outras obras-primas, produzidas quase simultaneamente - Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Gláuber Rocha, e Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos - compõe o chamado trio de ouro do Cinema Novo. A “Santíssima Trindade” do cinema político e de invenção. Com seu ápice nos anos 1960, o Cinema Novo via o País impiedosamente tal como era e, inovando na narrativa, radicalizando-a ao máximo, apresentava esse retrato ao mundo, sendo reconhecido pela crítica, público e festivais internacionais.
Em Os Fuzis temos um grupo de soldados destacados para defender armazéns de alimento da ameaça de saque pela população faminta, atingida pela seca. Foi feito na aurora do regime militar, que iria banir a democracia do país por 21 anos. Foi filmado em Milagres, no sertão baiano.
Num salto para a década de 1970, A Queda (1978) traz de volta muitos dos personagens do primeiro filme, deslocando-se do sertão para a cidade. Agora temos o processo de urbanização acelerado, típico do “milagre brasileiro”, que era como os militares chamavam o processo de concentração do capital que passava por progresso. Um operário da construção civil morre por falta de material de segurança. A empresa, com a cumplicidade de vários participantes da trama, transforma essa morte em banal acidente de trânsito para não ser obrigada a pagar indenização à família do trabalhador. Todos concordam com a trama golpista proposta pelos patrões. Todos, menos um, Mário, que se opõe e paga um alto preço.

Matrizes da construção do Brasil
O conjunto de filmes aborda as matrizes de construção do Brasil contemporâneo. Em Os Fuzis, a miséria no campo, empurrando as pessoas para cidades cada vez mais inchadas, com problemas de moradia e emprego. Em A Queda, a concentração acelerada do capital, o crescimento a qualquer custo. Por fim, em A Fúria, a democracia novamente ameaçada, em um ambiente de religiosidade tosca, pela presença militar intervencionista, capitalistas corruptos e oportunistas de plantão, prontos para se servir da fragilidade social e tomar o poder.
Mário (Nelson Xavier nos dois primeiros filmes e Ricardo Blat no terceiro) é o personagem que dá liga à trilogia. Em A Fúria ele ressurge do mundo das sombras e volta para se vingar do sogro, Salatiel (Lima Duarte), pequeno construtor em A Queda e agora transformado em poderoso empresário. Com seu dinheiro, Salatiel manipula políticos e generais - interpretados por Daniel Filho e Roberto Frota.
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A trajetória de Mário é resumida em cartelas colocadas no início de A Fúria: “Mário era um jovem orgulhoso de ser soldado. No início dos anos 60 é mandado para uma missão no Nordeste. Vive o primeiro fracasso do seu idealismo. Anos depois, no Rio de Janeiro, Mário trabalha na construção civil para seu sogro, Salatiel. Nessa nova experiência ele inicia uma luta pelos direitos de um trabalhador. É levado a combater o golpe de 64.”
Como linha narrativa está tudo aí, nesse resumo. A trilogia, ao lado de mostrar a trajetória errática do país, resume a tomada de consciência de um cidadão. Em Os Fuzis, Mário não compreende direito porque usa a força das armas para garantir a injustiça contra uma população que morre de fome. Em A Queda, é conivente com os patrões porque também deseja subir na escala social. Mas isso só vai até quando percebe que o amigo morreu na obra por não ter um equipamento de segurança básico e, além de tudo, querem lesar a viúva para não pagar o que lhe é devido como indenização. Revoltado, passa para o outro lado. Literalmente. No terceiro, é uma espécie de anjo vingador que ressurge das sombras.

Evolução de linguagem
Há uma evolução de linguagem que percorre os três filmes. Os Fuzis, em seu realismo crítico, é filmado em preto-e-branco, na deslumbrante fotografia do mestre Ricardo Aronovich. Imagens de impacto, duras, contrastadas e sem filtro, como o sol causticante do sertão, metáfora da opressão social. Em A Queda, usa-se a cor para retratar a cidade em construção acelerada, na qual personagens habitam obras mal acabadas, toscas, um ambiente ameaçador. Um segundo capítulo da distopia brasileira.
Em A Fúria, Ruy Guerra leva a filmagem para o interior do estúdio, como tem feito em seus trabalhos mais recentes como Quase Memória (2015) e Aos Pedaços (2025). Aqui, o naturalismo desaparece em favor de um expressionismo exacerbado. Refere-se a uma realidade que, porém, é reconstruída de uma maneira artificial, que não esconde o artifício do seu jogo. A filmagem em estúdio permite uma paleta de cores, imagens e transparências de teor onírico. A câmera muitas vezes se cola ao rosto dos personagens, como se quisesse escrutar sua alma.
Há aí uma estética da exasperação, que remete a algumas das obras do Cinema Novo, em particular, a meu ver, à obra-prima de Glauber Rocha, Terra em Transe (1967). Como nesta, também A Fúria é um estudo do poder, do podre poder regido por interesses econômicos, mas também pela cultura (se o termo cabe) conservadora, pelo patrimonialismo do Estado, pela impotência dos intelectuais, pelo uso desonesto da religiosidade popular.
Esta terceira parte é quase como um ponto de chegada, um diagnóstico preciso da estrutura do país, que sempre parece a ponto de ingressar na modernidade mas, antes do último passo, recua. E, nos últimos anos, parece ter recuado em direção a trevas medievais, com tentativas de golpe militar e tudo o que isso comporta.

Talvez esse desfecho da trilogia não estivesse previsto para chegar ao longo do governo de Jair Bolsonaro. Mas foi o que aconteceu. O artista não escolhe o momento em que vai conceber sua obra, fazê-la e dá-la ao público. No olho do furacão, Ruy Guerra, em parceria com Luciana Mazzotti, encomendou o roteiro a duas pessoas mais jovens e muito talentosas - Pedro Freire, diretor de Malu (2024), e o professor de cinema Leandro Saraiva. O trabalho era dar forma narrativa ao desafio que o ressurgimento da ameaça fascista representava.
Depois, esse roteiro foi retrabalhado pelo próprio Ruy e sua parceira, Luciana. Esse script, bastante imaginário, mergulha fundo na conjuntura da época. O próprio Bolsonaro, tratado simplesmente como “o presidente”, surge em cena, na interpretação de Joelson Medeiros. Essa presença, não nomeada, mas inequívoca, dá ao filme um caráter catártico, em especial em suas cenas finais.
Foi assim em sua primeira apresentação pública, no Festival de Brasília de 2024, quando Ruy Guerra recebeu uma ovação do público presente ao Cine Brasília. O mesmo público vibrou e aplaudiu o tal desfecho catártico que, por certo, dará ao filme a aura polêmica que merece. É uma obra forte, desmedida e destemida. Parece mais trabalho de um jovem diretor do que de um veterano em plena potência criativa, que completa 95 anos em agosto.
A Fúria é parte do projeto estético desse cineasta que coloca suas ideias a serviço da inovação cinematográfica, sem jamais abandonar suas convicções políticas de crítica social permanente.
Nascido em Lourenço Marques (atual Maputo), estudou cinema em Paris (no IDHEC) e chegou ao Brasil como jovem cineasta. Enturmou-se com o pessoal do Cinema e seu primeiro longa foi o já polêmico Os Cafajestes (1962), em que Norma Bengell faz o primeiro nu frontal do cinema brasileiro. Depois vieram Os Fuzis e sua consagração internacional.
Compõem sua trajetória várias adaptações de seu amigo Gabriel García Márquez, como Erêndira (1983), e o intrincado Veneno da Madrugada (2004). Ruy também é escritor, foi cronista do Estadão e letrista de gente como Chico Buarque, Edu Lobo, Francis Hime e Milton Nascimento. É um intelectual completo, avis rara no mundo do cinema. Mas intelectual engajado em seu tempo e seu país, o complexo e paradoxal Brasil, esse que explode em raiva, frustração mas também esperança nesse extraordinário A Fúria.








