‘Sonhar com Leões’, com Denise Fraga, ri da morte: ‘A comédia é forma de lutar contra a tragédia’

Com Fraga no papel principal, filme luso-brasileiro estreia nos cinemas e levanta debate sobre a eutanásia

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Foto do autor Matheus Mans

Alerta: o texto abaixo trata de temas como suicídios e transtornos mentais. Se você está passando por problemas, veja ao final dele onde buscar ajuda.

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O cinema brasileiro sempre soube transformar dor em arte. Mas poucas vezes um filme ousou rir da morte com tanta delicadeza quanto Sonhar com Leões, do diretor grego-português Paolo Marinou-Blanco.

Protagonizada por Denise Fraga em uma de suas performances mais corajosas, a produção luso-brasileira, que estreou nesta quinta-feira, 11, mergulha no universo da eutanásia com a leveza de quem entende que, às vezes, é preciso quebrar o silêncio com uma gargalhada.

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Em 'Sonhar com Leões', Denise Fraga explora novos espaços da atuação Foto: Pandora Filmes/Divulgação

A gênese do filme é profundamente pessoal. Marinou-Blanco criou Sonhar com Leões a partir da experiência traumática da morte de seu pai - um processo longo e doloroso, no qual o patriarca desejava partir antes do que a família e os médicos permitiam. “Foi a primeira vez que encontrei essa contradição entre uma pessoa querer, por causa das dores, terminar mais cedo. Quem queria mantê-lo em vida era a gente”, revela o diretor.

Da dor nasceu também o tom peculiar da obra. O pai de Paolo enfrentava a situação terminal com humor, fazendo piadas e tentando animar os familiares. “Foi um encontro muito potente com o fato de que a comédia pode ser uma forma de lutar contra a tragédia”, explica o cineasta. Essa filosofia permeia cada quadro de Sonhar com Leões, criando um filme que consegue ser hilário e comovente simultaneamente.

Gilda: A mulher em busca da morte

No centro da narrativa está Gilda, imigrante brasileira vivendo em Lisboa, interpretada com maestria por Denise Fraga. Diagnosticada com câncer terminal e com apenas um ano de vida, ela cultiva um desejo aparentemente contraditório: morrer enquanto ainda é ela mesma, com dignidade e sem dor, mas paradoxalmente demonstrando um imenso amor pela vida.

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Após tentativas fracassadas de suicídio, Gilda recorre à organização clandestina “Joy Transition International”, que promete ensinar pessoas com doenças terminais a se suicidarem sem dor. É neste ambiente absurdo e caro que ela conhece Amadeu, jovem funcionário de funerária que esconde seus próprios demônios.

A performance de Denise Fraga é o coração pulsante do filme. A atriz, que tem uma longa trajetória tratando temas delicados na comédia, encontrou em Gilda um personagem que ecoava suas próprias experiências pessoais. “Quando me chegou esse convite, eu quis fazer na hora”, conta a atriz. “Tratar com humor temas delicados é uma coisa que eu faço há muito tempo”.

Quebra da quarta parede

Uma das características mais marcantes de Sonhar com Leões é o uso estratégico da quebra da quarta parede. Gilda se dirige diretamente à câmera - e consequentemente ao público - em momentos específicos da narrativa, criando uma intimidade perturbadora e necessária.

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No entanto, o recurso é usado mais no início do filme, some na metade e volta só no final. Marinou-Blanco explica a escolha. “A partir do momento que a Gilda se liga com outro personagem terminal, ela já não precisa mais falar conosco. Essa solidão meio que fica um pouco combatida”, diz.

A técnica serve como termômetro emocional da protagonista - quando ela para de nos enxergar, é porque encontrou no rapaz, o jovem Amadeu, a companhia que buscava.

O abandono da quebra da quarta parede marca também a transição tonal do filme. Se a primeira metade flerta com a comédia mais ácida, a segunda parte mergulha em águas dramáticas mais profundas, respeitando a jornada emocional dos personagens e do público.

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Aliás, ao lado de Gilda, o personagem Amadeu (vivido pelo jovem ator João Arrais) adiciona camadas complexas à discussão sobre morte e vida. Diferentemente da protagonista, que possui uma doença terminal real, Amadeu busca a morte como escape de questões de saúde mental.

O absurdo se revela em 'Sonhar com Leões' entre a comédia e o drama Foto: Pandora Filmes/Divulgação

“Se você tem uma doença terminal que é incurável, o debate é um pouco mais linear, mais racional. Agora, em termos de saúde mental, se torna muito mais espinhosa essa questão”, reconhece o diretor. A inclusão dessa perspectiva no roteiro demonstra a coragem de abordar não apenas a eutanásia médica, mas também os dilemas em torno do suicídio por depressão e a dignidade da morte.

Conexões

Sonhar com Leões bebe na fonte de cineastas como Aki Kaurismäki, Luis Buñuel, Roy Andersson e Yorgos Lanthimos - nomes conhecidos por retratar a condição humana com acidez e humor. O filme compartilha com essas referências a capacidade de encontrar o absurdo no cotidiano e transformá-lo em reflexão.

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A direção de arte e a fotografia criam um universo ligeiramente deslocado da realidade, onde organizações como a “Joy Transition International” podem existir com toda sua burocracia mórbida e workshops de eutanásia que mais parecem cursos de autoajuda às avessas.

Para Denise Fraga, Sonhar com Leões representou mais que um papel - foi um encontro artístico raro. A atriz se envolveu profundamente com o projeto, contribuindo inclusive para ajustes no roteiro. “Quando você consegue entrar no filme sendo uma aliada da causa, além de fazer a cena para o diretor, foi muito verdadeiro”, descreve.

A experiência pessoal da atriz, cuja mãe morreu após as filmagens, criou ecos entre vida e arte. “O filme me ajudou muito a atravessar o que eu atravessei depois, com a trajetória do fim da minha mãe”, confessa Denise.

Paradoxalmente, para ela, o filme sobre morte desperta uma urgência de vida. “A gente não precisa ter final feliz. A vida não é bela. A vida é rica. É múltipla. Ainda é cheia de possibilidades”, reflete.

Onde buscar ajuda

Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, veja abaixo onde encontrar ajuda:

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Centro de Valorização da Vida (CVV)

Se estiver precisando de ajuda imediata, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço gratuito de apoio emocional que disponibiliza atendimento 24 horas por dia. O contato pode ser feito por e-mail, pelo chat no site ou pelo telefone 188.

Canal Pode Falar

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Iniciativa criada pelo Unicef para oferecer escuta para adolescentes e jovens de 13 a 24 anos. O contato pode ser feito pelo WhatsApp, de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h.

SUS

Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) voltadas para o atendimento de pacientes com transtornos mentais. Há unidades específicas para crianças e adolescentes. Na cidade de São Paulo, são 33 Caps Infantojuventis e é possível buscar os endereços das unidades nesta página.

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Mapa da Saúde Mental

O site traz mapas com unidades de saúde e iniciativas gratuitas de atendimento psicológico presencial e online. Disponibiliza ainda materiais de orientação sobre transtornos mentais.

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