
Ao viver no teatro o círculo vicioso da dependência alcoólica a partir do relato da jornalista e escritora Bárbara Gancia, a atriz Marisa Orth joga luz sobre um problema de que doentes e familiares se envergonham e costumam tentar esconder. O espetáculo Bárbara, em cartaz no Teatro Renaissance, em São Paulo, fez Marisa revisitar seus próprios desassossegos: "Eu nunca bebi a ponto de adoecer, mas já fumei muito cigarro, e consegui me libertar", disse à repórter Paula Bonelli por telefone, após tomar um café. Ela chegou a cursar a faculdade de Psicologia - mas há 40 anos vive de fazer teatro, musicais, cinema, novela, de cantar em banda e estrelar programas clássicos como Sai de Baixo e Toma Lá, Da Cá.
Nessa eleição, reconhece que teve relações com amigos estremecidas - e comenta a divisão política na cultura e o episódio da Cássia Kiss (que deu declarações homofóbicas em uma conversa com a jornalista Leda Nagle). Marisa se encanta com o humor na internet, onde considera haver solo mais fértil para o gênero do que a TV.
Por que fazer essa peça? Eu tinha lido o livro da Bárbara Gancia, A Saideira, e achei uma prosa muito boa. Bárbara é uma jornalista leve, divertida. Foi generoso da parte dela contar, quando no Brasil todo mundo é muito envergonhado com as próprias mazelas, sempre esconde uma doença, uma dependência. Então, o diretor Bruno Guida propôs fazer dramaturgia em cima do livro. A Bárbara dá palestras motivacionais que são parte do processo de sobriedade dela. A peça vai além disso.
Já foi Bárbara na vida? Bárbara é um elogio no Brasil e ao mesmo tempo lembra as invasões bárbaras... vikings. E tem a Bárbara que lutou contra um profundo grau de alcoolismo. Eu nunca bebi a ponto de adoecer, porque o alcoolismo é uma doença, mas já fumei muito cigarro, consegui me libertar, foi difícil pra casseta. Eu aprendi que não se fala vício porque impõe um julgamento de valor.
A peça é pesada? Não tem como falar desse assunto superficialmente, mas o álcool e as substâncias entorpecentes têm a diversão, a festa. Não sou careta, mas é ali que pode virar uma tragédia. A peça tem final feliz porque a dependência da Bárbara está controlada há 14 anos.
O álcool deveria ser tratado como droga? O álcool é uma droga, com poder lesivo muito grande. Fazendo essa peça percebemos que os americanos têm uma atitude muito saudável. Quando há uma celebridade com dependência química, ela vai a público, conta, faz uma instituição, pede donativo. Aqui, nós falamos baixo e fingimos normalidade.
Perdeu amizade por causa de política este ano? Perdi, sim, infelizmente, não sei se está na geladeira... É muito sofrido o que a gente está vivendo.
E a divisão política com a história da Cássia Kiss? Ela é minha amiga, admiro imensamente a Cássia como atriz, mas eu não entendo...
O que achou da Lúcia Veríssimo que postou um beijo delas? Esse é um exemplo de coisas que eu dou risada na internet.
E a comédia na TV hoje? A internet trouxe um volume de coisas engraçadas maravilhosas. O humor democratizou, explodiu e está difícil para a televisão achar um formato que bata essa suficiência da internet, é cada meme...
Magda foi o maior sucesso? Sem dúvida, foi um caso único até porque o Sai de Baixo ficou seis anos no ar. A Magda era uma burguesinha burra paulistana, submissa. Eu adoro porque a Magda virou um adjetivo. O povo fala: 'Estava saindo com uma mina, ela era mó Magda'.
Ela faria sucesso hoje com o politicamente correto? A comédia é crítica, se alguém vier dizer que com a Magda fiz propaganda de mulher burra e submissa, desculpe, não entendeu nada. No Brasil tem um monte de mulher que faz a ingênua, casada com homens que vivem na ilegalidade como Caco Antibes. Eu tenho um pouco de medo que o politicamente correto ate as mãos do humor.
Como lida com momentos de baixa na carreira? Houve momentos de baixa. Fico sempre tentando investir no que não tem erro que é aprender, fazer curso, aprender a cantar, a me maquiar, balé clássico, dança contemporânea.
Você é atacada nas redes? Sim, e nas ruas também. 'Cala a boca Magda' eu ouço cinco vezes por dia. Mas percebi que nós artistas somos importantes. Eu queria que a cultura fosse mais valorizada porque esse País tem grandes artistas em várias áreas e regiões.





