Coluna semanal do historiador Leandro Karnal, com crônicas e textos sobre ética, religião, comportamento e atualidades

Coluna semanal do historiador Leandro Karnal, com crônicas e textos sobre ética, religião, comportamento e atualidades

Me permiti revisitar a leitura escolar de Graciliano Ramos - e valeu a pena

Antes, a leitura era para provas. Hoje, posso aprender de outra forma. Foi uma aventura com mais maturidade

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Foto do autor Leandro Karnal

Eu estava na chamada oitava série, no colégio São José (São Leopoldo – RS). Dona Juraci Benta Moehlecke, minha professora de Língua Portuguesa, mandou ler Vidas Secas, de Graciliano Ramos. A obra era curta, com temática sobre a aridez do sertão nordestino, retirantes, a personagem Baleia, etc. Li e fiz a prova. Na ocasião, o enredo não me entusiasmou. Era distante do meu mundo, porque minha sensibilidade literária era ainda pouco desenvolvida.

Graciliano Ramos ao lado de José Olympio Pereira Filho repassam as páginas do livro 'São Bernardo' em foto de 1934.  Foto: Arquivo/Estadão

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Já adulto, conheci os grandes romances sobre retirantes: O Quinze (Rachel de Queiroz), A Bagaceira (José Américo de Almeida) e Os Sertões (Euclides da Cunha). Voltei ao livro de Graciliano e tive uma compreensão maior. A morte da cadela Baleia passou a ser uma das páginas mais inspiradas da Língua Portuguesa na minha memória.

Há mais de um ano, pulsava na minha biblioteca uma caixa com três romances de Graciliano: Angústia, São Bernardo e o já citado Vidas Secas. Era uma edição bonita, da editora Record, com um estudo introdutório impecável de Ivan Marques. Decidi encarar as obras. Um adendo: usei “pulsava”, porque uma edição bonita em caixa parece gritar: “Leia-me!” Ela fica na estante, desafiando: “Quando você vai me abrir?” Enfim, vivi a delícia de um bom autor em páginas bem editadas. Fui pela ordem cronológica.

São Bernardo foi uma leitura forte. Paulo Honório é um homem direto, de moral ambígua, em meio ao mundo do interior de Alagoas. Hoje, ele seria classificado como um “empreendedor”. Na pena crítica de Graciliano, o protagonista vai revelando todas as ambiguidades do mundo rural, do autoritarismo e até do machismo que exerce contra sua esposa. Imagino o impacto dessas páginas em 1934... Se a morte de Baleia tinha marcado minha leitura no passado, agora a negociação do preço da fazenda São Bernardo figura com um estudo de valor e de estratégia. Genial!

Em 1936, Graciliano Ramos publica Angústia. A obra é entregue no mesmo momento em que o autor fora preso no contexto da repressão getulista, após a chamada Intentona Comunista. Todo o texto é um fluxo de consciência de Luís da Silva:

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“Julgo que ainda não me restabeleci completamente. Das visões que me perseguiam naquelas noites compridas umas sombras permanecem, sombras que se misturam à realidade e me produzem calafrios. Há́ criaturas que não suporto. Os vagabundos, por exemplo. Parece-me que eles cresceram muito e, aproximando-se de mim, não vão gemer peditórios: vão gritar, exigir, tomar-me qualquer coisa. Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos. Passo diante de uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas, exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. É uma espécie de prostituição. Um sujeito chega, atento, encolhendo os ombros ou estirando o beiço, naqueles desconhecidos que se amontoam por detrás do vidro. Outro larga uma opinião à̀ toa. Basbaques escutam, saem. E os autores, resignados, mostram as letras e os algarismos, oferecendo-se como as mulheres da Rua da Lama”.

Um livro inteiro em primeira pessoa apresenta belezas e riscos. Assumimos a subjetividade do narrador como nossa e percebemos tudo com os olhos alheios. Aprendemos cada camada da consciência do narrador, que descobre, descobre-se e revela-nos. Parece-me dotado de um experimentalismo narrativo distinto de São Bernardo. Gostei muito.

Faltava o terceiro da trilogia “in-box”. O estudo de Ivan Marques sobre as obras ajudou de novo. Lá, aprendi que o conto Baleia surgiu em 1937. As outras partes foram surgindo depois e deveriam ter sido reunidas como O Mundo Coberto de Penas. Segundo o depoimento de Rubem Braga, colega na mesma pensão em que estava Graciliano, o texto ia saindo como pequenos contos, por causa das despesas da moradia. Pagar o lugar e comer limitavam o tempo. Não havia espaço para um romance longo. Graciliano precisava do dinheiro e ia entregando as partes. Muito ainda se poderá escrever sobre a influência da falta de dinheiro na gênese de grandes obras de um Graciliano ou de um Orwell, por exemplo. De acordo com a citação de Rubem Braga, no excelente texto de Marques: “Quase tão pobre como Fabiano, o autor fez assim uma nova técnica de romance no Brasil. O romance desmontável”. Em 1938, o livro completo veio ao público.

A linguagem parece ser influenciada pela secura do meio. As frases são diretas, curtas, não muito descritivas. Parece-me a obra mais impactante sobre as agruras da região. À paisagem falta água; à sociedade, empatia. Duros o solo e os corações das autoridades e dos proprietários de terras. Livro curto, direto e tocante. Fico feliz por ter permitido a mim revisitar uma leitura escolar. Alegrou-me perceber coisas de que jamais teria desconfiado na década de 1970. Como a obra me lê igualmente, dialoguei com Graciliano e uma geração de autores que tentavam interpretar o Brasil profundo. Foi uma aventura com mais maturidade. Agora, vou revisitar obras pelas quais flanei na escola. Tenho esperança de, num dia, ficar sábio. Antes, a leitura era para provas. Hoje, posso aprender de outra forma. E você, querida leitora e estimado leitor, reencontraria algum romance enfrentado em bancos escolares? Você é do tipo que “dá uma segunda chance”?

Opinião por Leandro Karnal

É historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, colunista do Estadão desde 2016 e autor de 'A Coragem da Esperança', entre outros