Eu estava na chamada oitava série, no colégio São José (São Leopoldo – RS). Dona Juraci Benta Moehlecke, minha professora de Língua Portuguesa, mandou ler Vidas Secas, de Graciliano Ramos. A obra era curta, com temática sobre a aridez do sertão nordestino, retirantes, a personagem Baleia, etc. Li e fiz a prova. Na ocasião, o enredo não me entusiasmou. Era distante do meu mundo, porque minha sensibilidade literária era ainda pouco desenvolvida.

Já adulto, conheci os grandes romances sobre retirantes: O Quinze (Rachel de Queiroz), A Bagaceira (José Américo de Almeida) e Os Sertões (Euclides da Cunha). Voltei ao livro de Graciliano e tive uma compreensão maior. A morte da cadela Baleia passou a ser uma das páginas mais inspiradas da Língua Portuguesa na minha memória.
Há mais de um ano, pulsava na minha biblioteca uma caixa com três romances de Graciliano: Angústia, São Bernardo e o já citado Vidas Secas. Era uma edição bonita, da editora Record, com um estudo introdutório impecável de Ivan Marques. Decidi encarar as obras. Um adendo: usei “pulsava”, porque uma edição bonita em caixa parece gritar: “Leia-me!” Ela fica na estante, desafiando: “Quando você vai me abrir?” Enfim, vivi a delícia de um bom autor em páginas bem editadas. Fui pela ordem cronológica.
São Bernardo foi uma leitura forte. Paulo Honório é um homem direto, de moral ambígua, em meio ao mundo do interior de Alagoas. Hoje, ele seria classificado como um “empreendedor”. Na pena crítica de Graciliano, o protagonista vai revelando todas as ambiguidades do mundo rural, do autoritarismo e até do machismo que exerce contra sua esposa. Imagino o impacto dessas páginas em 1934... Se a morte de Baleia tinha marcado minha leitura no passado, agora a negociação do preço da fazenda São Bernardo figura com um estudo de valor e de estratégia. Genial!
Em 1936, Graciliano Ramos publica Angústia. A obra é entregue no mesmo momento em que o autor fora preso no contexto da repressão getulista, após a chamada Intentona Comunista. Todo o texto é um fluxo de consciência de Luís da Silva:
“Julgo que ainda não me restabeleci completamente. Das visões que me perseguiam naquelas noites compridas umas sombras permanecem, sombras que se misturam à realidade e me produzem calafrios. Há́ criaturas que não suporto. Os vagabundos, por exemplo. Parece-me que eles cresceram muito e, aproximando-se de mim, não vão gemer peditórios: vão gritar, exigir, tomar-me qualquer coisa. Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos. Passo diante de uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas, exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. É uma espécie de prostituição. Um sujeito chega, atento, encolhendo os ombros ou estirando o beiço, naqueles desconhecidos que se amontoam por detrás do vidro. Outro larga uma opinião à̀ toa. Basbaques escutam, saem. E os autores, resignados, mostram as letras e os algarismos, oferecendo-se como as mulheres da Rua da Lama”.
Um livro inteiro em primeira pessoa apresenta belezas e riscos. Assumimos a subjetividade do narrador como nossa e percebemos tudo com os olhos alheios. Aprendemos cada camada da consciência do narrador, que descobre, descobre-se e revela-nos. Parece-me dotado de um experimentalismo narrativo distinto de São Bernardo. Gostei muito.
Faltava o terceiro da trilogia “in-box”. O estudo de Ivan Marques sobre as obras ajudou de novo. Lá, aprendi que o conto Baleia surgiu em 1937. As outras partes foram surgindo depois e deveriam ter sido reunidas como O Mundo Coberto de Penas. Segundo o depoimento de Rubem Braga, colega na mesma pensão em que estava Graciliano, o texto ia saindo como pequenos contos, por causa das despesas da moradia. Pagar o lugar e comer limitavam o tempo. Não havia espaço para um romance longo. Graciliano precisava do dinheiro e ia entregando as partes. Muito ainda se poderá escrever sobre a influência da falta de dinheiro na gênese de grandes obras de um Graciliano ou de um Orwell, por exemplo. De acordo com a citação de Rubem Braga, no excelente texto de Marques: “Quase tão pobre como Fabiano, o autor fez assim uma nova técnica de romance no Brasil. O romance desmontável”. Em 1938, o livro completo veio ao público.
A linguagem parece ser influenciada pela secura do meio. As frases são diretas, curtas, não muito descritivas. Parece-me a obra mais impactante sobre as agruras da região. À paisagem falta água; à sociedade, empatia. Duros o solo e os corações das autoridades e dos proprietários de terras. Livro curto, direto e tocante. Fico feliz por ter permitido a mim revisitar uma leitura escolar. Alegrou-me perceber coisas de que jamais teria desconfiado na década de 1970. Como a obra me lê igualmente, dialoguei com Graciliano e uma geração de autores que tentavam interpretar o Brasil profundo. Foi uma aventura com mais maturidade. Agora, vou revisitar obras pelas quais flanei na escola. Tenho esperança de, num dia, ficar sábio. Antes, a leitura era para provas. Hoje, posso aprender de outra forma. E você, querida leitora e estimado leitor, reencontraria algum romance enfrentado em bancos escolares? Você é do tipo que “dá uma segunda chance”?






