Coluna semanal do historiador Leandro Karnal, com crônicas e textos sobre ética, religião, comportamento e atualidades

Coluna semanal do historiador Leandro Karnal, com crônicas e textos sobre ética, religião, comportamento e atualidades

O coach, o estudante, o religioso, o político e o homem no chão

Algumas pessoas amam a humanidade, mas têm dificuldade em ver o próximo à sua frente

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Foto do autor Leandro Karnal

Um homem descia a Avenida Paulista. De repente, caiu nas mãos de três assaltantes. Os meliantes roubaram tudo o que ele tinha, agrediram-no a pauladas e fugiram, deixando-o quase morto. Na esquina com a Consolação, ele gemia e sangrava.

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Por acaso, passava por ali um famoso palestrante motivacional. Tinha acabado de encantar um público numeroso em um auditório. Viu o rapaz e perguntou: “Você teve a mente estratégica e fez curso de defesa pessoal? Mudou seu mindset para pensar positivo em caminhos seguros? Conseguiu trabalhar enquanto os outros dormiam? Vendeu lenços durante o choro alheio? Você é senhor do seu destino e protagonista. O que aconteceu é sua responsabilidade. Faça do erro uma alavanca para melhorar e torne-se um vencedor. Onde você quer estar daqui a cinco anos, meu amigo?” O palestrante seguiu adiante, tendo o cuidado de entregar o QR Code para acesso aos cursos online que vendia.

Pouco depois, um estudante de História e membro de diversos coletivos sobre identidade e gênero passou ao lado do assaltado e disse: “Nossa, mais uma vítima da nossa violência estrutural de uma sociedade de exclusões! Nada disto é culpa sua, companheiro. Não internalize o ódio que pertence aos outros. Meu irmão, qual o seu pronome? Você tem algum gênero definido ou prefere uma identidade oscilante sem direcionamento heteronormativo? Liberte-se das suas amarras preconceituosas e siga para um real pensamento crítico. Nós podemos construir um mundo sem violências, no qual a igualdade e o respeito imperem!” O jovem, emocionado com a aurora iminente de uma nova ordem de paz, deixou panfletos sobre reuniões onde a questão da violência seria debatida. Fotografou a cena para suas mídias sociais e publicou tudo, denunciando a barbárie do capitalismo. Seguiu adiante, consciente de que a luta continuava.

O homem permanecia gemendo. Uma pessoa de muita fé chegou perto dele. Vendo o drama humano à sua frente, solidária, a mulher se ajoelhou com rapidez e começou preces sinceras e compungidas. Havia emoção na voz dela, genuína. A mulher invocou a força dos bons anjos protetores e o poder da cura de Deus. Impôs as mãos sobre o corpo que arfava e recitou salmo 23 e 91. Sorriu para a vítima e sentiu-se inteiramente aliviada por ter levado a palavra viva do Senhor a alguém necessitado. Mais tarde, no seu grupo de orações, narraria com lágrimas como o Criador colocou um ser humano carente no seu trajeto, e ela não o tinha ignorado. Foi aplaudida com gritos de amém e aleluia. Era um livramento poderoso encontrar uma serva de Jesus no momento tenebroso de percorrer o vale da sombra e da morte.

Surgiu outra pessoa. Era um político. Ele se aproximou rápido. Abraçou o assaltado enquanto os assistentes faziam fotos para as redes sociais. Gravou um vídeo, manchado de sangue pelo contato com o homem, e exclamou com emoção: “Se eu for eleito, isso nunca mais ocorrerá. Aqui está uma vítima da falha de segurança do meu adversário que se importa mais com direitos humanos e quase nada com o cidadão de bem”. Dito isso, abraçou de novo aquele corpo alquebrado e fez fotos de ângulos distintos. Teve o cuidado de pedir para girarem os celulares: queria trechos na horizontal e na vertical. Verificou tudo, pediu para corrigirem a luz e seguiu satisfeito. Ele realmente se importava com o eleitor!

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Vista aérea mostra região da Avenida Paulista em São Paulo em 2020. Foto: Leo Souza/Estadão

A vítima, então, perdeu as esperanças. Algumas pessoas que haviam passado amavam a humanidade, porém tinham muita dificuldade em ver o próximo concreto à sua frente. Sentia-se machucado fisicamente e aumentava seu medo de encontrar mais gente dada a retóricas que soavam como o bronze.

Uma mulher, assistente de enfermagem, notou a vítima. Tinha um estojo de primeiros socorros, por força da profissão. Com habilidade, limpou e envolveu as feridas em compressas de gaze. Nada falou. Apenas agiu. Imobilizou a perna quebrada com uma tala. Chamou a ambulância e foram para o Hospital Samaritano de Higienópolis, em São Paulo. Ajudou a dar entrada no paciente e viu que os médicos da emergência aprovaram seus cuidados iniciais. Vendo que tudo estava correto, desapareceu rápido.

O homem se recuperou graças à intervenção da auxiliar de enfermagem e do atendimento no hospital. Semanas depois, estando na missa, ele ouviu a parábola narrada em Lucas 10, 30-37: O Bom Samaritano. Chorou com intensidade. Agradecido pela caridade anônima e legítima, fortaleceu sua crença de que havia gente boa no mundo, rezou pela auxiliar de enfermagem, sua boa moça no Samaritano. Era uma esperança vestida de branco: “Então Jesus lhe disse: Vai e faze o mesmo”. O encerramento do texto foi uma ordem para o jovem rapaz. Sua vida tinha esperança, de novo. Agir mais e falar menos, fazer em silêncio sem publicidade, ser sensível à dor e não à retórica. Eram novas lições sobre o Evangelho do médico Lucas.

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Opinião por Leandro Karnal

É historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, colunista do Estadão desde 2016 e autor de 'A Coragem da Esperança', entre outros

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