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Djamila Ribeiro mostra biblioteca, relembra encontro com Chimamanda e indica autoras pretas; assista

Filósofa abriu espaço público de leitura em SP com obras de escritoras como bell hooks, Conceição Evaristo e Toni Morrison. Biblioteca leva o nome da primeira negra a ganhar Nobel de Literatura; conheça

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Foto do autor João Abel
Atualização:

Conceição Evaristo. bell hooks. Alice Walker. Audre Lorde. Carolina Maria de Jesus. Simone de Beauvoir. Chimamanda Adichie. Sueli Carneiro. Fazer reverência a todas as mulheres que abriram caminho na cena literária, seja de ficção ou pensamento crítico, é um ato fundamental para a filósofa Djamila Ribeiro.

São obras destas e de outras escritoras que compõem a biblioteca que Djamila fundou em seu instituto, o Espaço Feminismos Plurais, na zona sul de São Paulo. “É aberta ao público. As pessoas podem vir aqui consultar os livros, passar o dia estudando, lendo”, ela explica. O local foi batizado com o nome da primeira negra a vencer o Nobel de Literatura, a norte-americana Toni Morrison.

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Djamila Ribeiro na biblioteca Toni Morrison, que fundou em SP Foto: Leo Souza/Estad

Antes de se mudar para os Estados Unidos, onde vai dar aulas no Massachusetts Institute of Technology (MIT), Djamila abriu as portas do local ao Estadão, em mais um episódio da série Coleção de Livros. (Assista a todos os episódios aqui.)

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A filósofa comemora o espaço conquistado não só na academia, mas no mercado editorial americano. “É uma vitória ser uma autora de não ficção lançada nos EUA, um país que só traduz 3% de livros ao ano. Geralmente, as pessoas não estão muito interessadas em pensamento crítico feito no Brasil. A ideia que eles têm daqui ainda é muito estereotipada.”

No ano passado, Djamila lançou a versão em inglês de Lugar de fala, obra que publicou originalmente em 2017. A edição traduzida como Where we stand ganhou um prefácio de Chimamanda Adichie. “Foi um encontro abençoado”, relembra Djamila sobre o início da amizade com a escritora nigeriana.

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'Where We Stand', de Djamila Ribeiro Foto: Yale University Press/Divulgação

As duas se aproximaram em 2022, durante o Salão do Livro Carioca, quando participaram juntas de uma das mesas do evento. “A gente teve a oportunidade de jantar, trocamos telefone e ela disse que queria ajudar a publicação do meu livro em inglês”, conta a filósofa. “Acho que essa generosidade mostra o quanto ela é grande.”

Lugar de fala também deve ganhar uma edição ampliada em breve, revela Djamila. “Revisitei muitas das discussões que aconteceram ao longo desse tempo, porque foi um conceito que se popularizou. E com muitos equívocos em relação à sua interpretação. Foi importante tentar entender por que houve essa reação.”

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A coleção de livros de Djamila Ribeiro Foto: Leo Souza/Estadão

Durante a conversa com o Estadão, a escritora destacou sete obras e autoras que considera essenciais na sua trajetória:

‘Quarto de despejo’, de Carolina Maria de Jesus

“É uma autora que descobri no final da minha adolescência. Eu trabalhava em uma organização chamada Casa de Cultura da Mulher Negra, em Santos. E por mais que eu já viesse desse meio de militância, porque meu pai era militante, eu não conhecia a Carolina. Só fui conhecer justamente porque nessa organização tinha uma biblioteca e o nome da biblioteca era Carolina Maria de Jesus.”

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A escritora mineira, que morreu há mais de cinco décadas, só tem agora o devido reconhecimento do público, acredita Djamila. “Ela ficou apagada durante muito tempo porque diziam que escrevia errado e não poderia ser estudada na academia. Um preconceito linguístico.”

Agora debatida na academia, Carolina também é celebrada na cultura popular. Foi tema de escola de samba no carnaval paulistano em 2022 com a Colorado do Brás e ano que vem vai ganhar a Sapucaí, no Rio, com a Unidos da Tijuca.

‘O olho mais azul’, de Toni Morrison

“É uma das minhas escritoras preferidas. Eu tinha uns 19 ou 20 anos quando eu li e eu fiquei absolutamente impactada. Em 2019, fui convidada pela TAG [clube de assinatura de livros] para ser curadora e indiquei esse livro”, relembra a filósofa.

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Djamila escreveu o prefácio da edição. “Meses antes da morte dela, foi autorizado que eu escrevesse e isso foi uma das maiores conquistas da minha vida, porque é o meu livro favorito.”

Livros de Toni Morrison foram publicados no Brasil pela editora Companhia das Letras Foto:

Alice Walker (box com três obras)

A autora do clássico A cor púrpura ganhou um box da editora José Olympio, selo do grupo editorial Record. Além de sua obra principal, a coleção com três volumes, também traz edições de O templo dos meus familiares e O segredo da alegria.

“É uma autora que sempre releio e que teve um cuidado de pensar nas escritoras que vieram antes dela. O resgate que ela fez da Zora Hurston, que escreveu Seus Olhos Viam Deus, é muito bonito", diz Djamila. Walker foi responsável por recuperar as obras esquecidas de Zora, autora dos anos 1940, após sua morte, fazendo com que fossem reeditadas.

‘E eu não sou uma mulher?’, de bell hooks

“Foi o primeiro livro escrito pela bell hooks, publicado na década de 1980. Um marco no feminismo negro, porque recupera logo no título um discurso da Sojourner Truth, que foi uma abolicionista norte-americana do século 19, na Convenção das Mulheres de Ohio.”

‘As belas imagens’, de Simone de Beauvoir

“Eu estudei Beauvoir no meu mestrado em filosofia. E esse é um livro dela que as pessoas raramente falam, mas eu acho incrível. Todo mundo tinha que ler. Uma ficção fenomenal”, diz.

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A filósofa também destaca a obra clássica de Beauvoir, O Segundo Sexo. “Foi para o índex da Igreja Católica, atacado por muitos filósofos da época”, lembra Djamila.

Para ela, no entanto, é impossível estudar o pensamento da francesa sem ler suas obras de ficção. “Porque são livros que trazem muito do olhar dela sobre o que é ser mulher. Esse ser complexo. E o incômodo que ela tinha de ver as mulheres sempre representadas da mesma maneira. Como se tivessem uma essência única.”

A escritora Djamila Ribeiro Foto: Leo Souza/Estadão

‘Olhos d’água’, de Conceição Evaristo

“Um livro muito sensível”, define Djamila, sobre a obra que venceu o Prêmio Jabuti na categoria Contos e Crônicas em 2015. “Ela consegue falar de um lugar muito específico da mulher negra, sem perder a sensibilidade na hora de contar a história. É descritiva, mas sem deixar de ser extremamente poética ao detalhar a realidade.”

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‘Sou sua irmã’, de Audre Lorde

“É uma autora superimportante e eu organizei esse livro, que reúne alguns escritos e não tinha sido publicado no Brasil. Os textos dela também são muito poéticos. Ela abre mão do que se espera da escrita de uma acadêmica e adota um estilo que se conecta com as pessoas, sem medo de fazer isso.”

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