Itamar Vieira Jr. levou um ‘caminhão’ de livros da Bahia ao Rio: conheça biblioteca pessoal do autor

Escritor relembra livro que comprou com seu primeiro salário, faz reverência a nomes como Jorge Amado e Toni Morrison, e comenta seu novo livro ‘Coração sem Medo’, que encerra trilogia iniciada com ‘Torto Arado’

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Foto do autor João Abel
Atualização:

A coleção de livros que Itamar Vieira Junior levou da Bahia para o Rio de Janeiro

Fizemos um tour pela biblioteca do autor; veja. Crédito: Imagens: Júlia Pereira | Edição: João Abel

Ao trocar Salvador pelo Rio de Janeiro, Itamar Vieira Junior encheu um caminhão de mudança só com seus livros: “Eu precisava trazer todos, para conseguir trabalhar e me sentir em casa. Foi uma mão de obra para transportar e depois para organizá-los.”

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O escritor soteropolitano agora vive em rua tranquila no bairro do Flamengo, na zona sul carioca. Na nova casa, ele finalizou seu novo romance, Coração sem Medo, que encerra a trilogia iniciada com Torto Arado e seguida por Salvar o Fogo. Os dois primeiros levaram o Prêmio Jabuti em 2020 e 2024, respectivamente.

A biblioteca pessoal do autor, visitada pela reportagem do Estadão, tem um lugar especial na estante para os dois pequenos ‘jabutis’. “Nem fui eu que coloquei eles aí, foi o meu companheiro. Ele é mais exibido do que eu”, brinca Itamar.

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“Eu acho que, a cada livro, os autores ficam mais exigentes com si mesmos. Torto Arado foi uma história que amadureceu por muito tempo comigo e eu escrevi com a liberdade de não me preocupar com como ele seria recebido. Mas depois dele, tudo muda”, avalia Itamar.

Itamar Vieira Junior, escritor baiano e vencedor do Prêmio Jabuti, abre sua biblioteca ao Estadão Foto: Júlia Pereira/Estadão

Durante a conversa, o escritor também falou da influência de autores como Gabriel García Márquez, Jorge Amado e Toni Morrison em sua escrita, além de destacar suas melhores leituras recentes. Assista ao vídeo acima e confira trechos da entrevista a seguir.

Você foi um leitor precoce? Como iniciou sua relação com a leitura?

Minha casa não tinha muitos livros. Mas eu lembro que tinha uma coleção de enciclopédias da Editora Abril, que me abria a mente sobre várias coisas. E eu me tornei leitor de uma maneira meio surpreendente. Fui tateando obras de autores brasileiros. E como não tinha dinheiro para comprar os livros, eu era um leitor de biblioteca. Frequentava duas bibliotecas públicas em Salvador.

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Lembra o primeiro que você efetivamente comprou?

Com meu primeiro salário, quando eu tinha 17 anos, fui a uma livraria e comprei dois livros: O Paciente Inglês, do Michael Ondaatje, e Dona Guidinha do Poço [romance de Manuel de Oliveira Paiva]. Eu tenho o exemplar de O Paciente Inglês até hoje. Foi comprado em 1997 e custou acho que R$ 18. Era caro naquela época. E esse é um livro importante para mim, tanto que eu já li umas quatro vezes. A última na pandemia.

Você costuma reler muitos livros? É, de certa forma, um exercício de ‘segundo olhar’ sobre as obras?

Eu acho que essa coisa de reler o livro é muito importante para quem escreve. A segunda leitura é sempre mais técnica, mais analítica. É como aquela criança que ganha um brinquedo e depois de um tempo ela quer desmontar o brinquedo para entender como ele funciona.

Se você começar um livro novo que não lhe arrebate, deixe ele de lado e volte para um que te arrebatou. É certeza de prazer renovado.

Itamar Vieira Junior

‘Torto Arado’ tornou-se um clássico da literatura brasileira ao abordar temas fundamentais para compreensão do País: a questão da terra, da desigualdade e do sincretismo religioso, por exemplo. Na sua formação, quais autores e obras te ajudaram a entender o Brasil e compor seu repertório de escrita?

Inúmeros. Eu tenho uma parte aqui da biblioteca só de literatura brasileira, com a obra completa de Machado de Assis, Clarice Lispector... Mas uma grande influência, sem dúvidas foi Jorge Amado.

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Jorge foi desses escritores que me disseram que qualquer vida pode dar um grande romance, porque os personagens dele são essas figuras que estão à nossa volta: a baiana do Acarajé, a mulher que carrega a lata de mingau na cabeça... eram as pessoas que viviam ao meu redor. Isso me deu um sentimento de representação muito forte. Foi quando eu entendi que qualquer um, não apenas aqueles que têm erudição, dão grandes personagens.

Eu lembro que tive uma professora na escola, Terezinha Acioli, que foi quem me iniciou na literatura nacional e me deu gosto pela coisa e só depois, lá pelos 17, 18 anos, também comecei a ler os estrangeiros.

Itamar Vieira Junior, escritor baiano e vencedor do Prêmio Jabuti, abre sua biblioteca ao Estadão Foto: Júlia Pereira/Estadão

E quais estrangeiros te conquistaram?

Vários também. Para citar alguns, a Toni Morrison que é fundamental. Assim como o Jorge, também me apresentou histórias de pessoas da própria comunidade. Amada mesmo eu li umas três vezes, mas gosto muito de um outro livro dela, que é pouco falado e se chama Voltar Para Casa. É a história de um soldado que volta da Guerra da Coreia e de uma mulher que é submetida a experiências médicas. Ambos negros.

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Um outro livro que eu li e me arrebatou foi o Cem Anos de Solidão, do Gabriel García Marquez. Ele também se aproximou de mim porque, de alguma maneira, se conectava com a minha experiência. Eu nasci na Bahia, cresci na Bahia, e a Bahia carrega essa aura mística, né? Quando a gente não tem explicações científicas para as coisas, a gente apela para o mágico.

Você acha que as pessoas fazem essa mesma conexão quando leem ‘Torto Arado’, por exemplo?

Eu acho que fazem conexões diferentes. Depende do lugar. Quem é nordestino, que vem de uma tradição religiosa forte, seja católica, seja de outras expressões religiosas, eu acho que enfatiza com mais força esse lado místico do livro. Outros vão se identificar com a questão da terra ou a questão feminina, por exemplo.

Apesar de ter se tornado escritor e ficção, você é geógrafo de formação. A não-ficção faz parte das suas leituras no dia a dia?

Com certeza. No meu escritório estão mais os livros de ficção, mas nas estantes da sala de estar, a maior parte é de obras de história e não-ficção.

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E o que você recomendaria das últimas leituras?

Um livro que eu tenho voltado muito é o Perder a mãe, da Saidiya Hartman. É maravilhoso. Ela faz uma espécie de ‘autoetnografia’ como uma mulher negra da classe média americana. Ela é uma professora da Universidade Columbia, que resolve voltar para Gana e tentar fazer a rota dos ancestrais.

E um que eu adorei recentemente é O oráculo da noite, do Sidarta Ribeiro. Fascinante. Uma obra que fala sobre os sonhos a partir da perspectiva histórica. Desde a antiguidade até os nossos dias. Uma atributo tão humano, e acho que não-humano também, porque eu tenho certeza que meus cachorros também sonham.

Você sonha com seus livros e com os livros que está lendo?

Eu sonho. E meus sonhos adentram aquilo que eu escrevo. O próximo romance mesmo [Coração sem Medo, que chega às livrarias no dia próximo dia 13] tem um sonho meu que foi parar na vida da personagem. Eu emprestei o meu sonho para a história dela.

Sobre o novo romance: foi o livro mais difícil de escrever da trilogia?

Foi o mais difícil. Um processo árduo. Porque a gente vai ficando mais exigente. Querendo ou não, Torto Arado conquistou uma legião de leitores e cria-se uma expectativa. Se a gente não tiver cuidado, isso pode impactar a vida do autor. Eu tento me desvincular de tudo isso.

Agora o livro já está concluído e vai ser lançado, o que me traz dois sentimentos: um de missão cumprida e outro de dúvida. Daquela sensação de que todo livro, no fundo, é inacabado. O autor tem limitações. Ele imagina e projeta uma história, mas com um léxico de palavras limitado, que não dá conta de todos os sentimentos humanos. O livro agora é dos leitores.

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E voltando a ‘Torto Arado’: o livro ganhou uma adaptação em formato de musical que está rodando teatros pelo Brasil, e, em breve, também deve inspirar uma série de TV. Você se envolveu diretamente com alguma das produções?

É um desafio pra quem escreve participar de uma adaptação de algo seu. Ter que escolher o que entra e o que sai. O roteiro da série já está pronto e parece que a produção vai começar em 2026. É só o que eu sei. Não sei mais nada, eu não acompanho. Me convidam para participar do roteiro e eu digo não. Eu não gostaria de estar nesse lugar.

A mesma coisa para o espetáculo musical, que ficou muito bem acabado e já passou por São Paulo, Rio, Salvador e outras capitais. E o Torto virou até uma canção específica. Tem uma música do último álbum do Rubel com o nome do livro, que ele canta com a Luedji Luna e a Liniker.

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