Milton Hatoum é eleito imortal da Academia Brasileira de Letras; relembre a trajetória

Escritor amazonense, autor de livros como ‘Relato de um Certo Oriente’ e ‘Dois Irmãos’, ocupa a cadeira nº6, que pertencia a Cícero Sandroni. ‘A literatura precisa ter um lugar cativo na ABL’, disse ao ‘Estadão’ após a eleição

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Foto do autor Julia Queiroz
Atualização:

O escritor Milton Hatoum, de 72 anos, foi eleito imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL). A eleição ocorreu na tarde desta quinta, 14, na sede da organização, no Rio de Janeiro. O autor amazonense agora ocupa a cadeira nº6, que pertencia a Cícero Sandroni, morto em 17 de junho.

Hatoum recebeu 33 votos, contra um ao poeta pernambucano Antônio Campos. Também concorriam Eduardo Baccarin-Costa, Cezar Augusto da Silva, Paulo Renato Ceratti e Angelos D’Arachosia.

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Milton Hatoum foi eleito imortal da Academia Brasileira de Letras. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

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Considerado um dos grandes nomes vivos da literatura brasileira, Hatoum é autor de nove livros de ficção, entre romances e contos, além de tradutor, professor e arquiteto. Ele foi colunista do Estadão entre 2008 e 2022, publicando crônicas sobre literatura e cidades.

Na sede da Companhia das Letras, na Cinelândia, Centro do Rio, Hatoum recebeu os cumprimentos do editor Luiz Schwarcz, agradecendo pelo apoio na conquista “inesperada”.

“Eu nunca fui crítico à academia ou aos meus colegas. Apenas achava que meu perfil não era um perfil assim, ‘acadêmico’”, disse ao Estadão. Ele contou que foi persuadido e incentivado por colegas como Ana Maria Machado, Antônio Carlos Secchin e Rosiska Darcy, em um processo iniciado há mais de uma década.

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“A Academia Brasileira de Letras tem mudado bastante, está mais aberta. E hoje promove atividades muito interessantes, palestras, ciclos de conferências... É importante que a ABL, assim como outras instituições brasileiras ligadas à cultura e às artes, museus, universidades se articulem nesse momento, porque se os tempos obscuros voltarem, correm um risco grande. O governo anterior foi muito destrutivo”, disse.

Saudado como um “escritor escritor” em uma instituição cada vez mais aberta a artistas, jornalistas e profissionais de outras atividades, o novo imortal elogiou a diversidade, mas lembrou algo que faz parte da natureza da ABL:

“É uma Academia Brasileira de Letras, a casa de Machado de Assis, o maior escritor da América Latina. Não necessariamente é preciso privilegiar a literatura, mas ela precisa ter um lugar cativo. O meu esforço, e o que venho fazendo desde que publiquei meu primeiro romance, é falar sobre literatura (romance, poesia, crônica, teatro), tentar formar leitores.”

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Trajetória de Milton Hatoum

Hatoum nasceu em 19 de agosto de 1952, em Manaus, no Amazonas. Aos 19 anos, ingressou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), onde fez parte do movimento estudantil e chegou a ser perseguido pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), da ditadura militar.

No início da década de 1980, ele morou na Espanha e na França. Publicou seu primeiro livro, Relato de um Certo Oriente, em 1989. A obra é centrada em uma família de origem libanesa - como a de Hatoum - vivendo em Manaus, e trata de temas como identidade, imigração e o choque cultural entre o Oriente e a Amazônia.

Milton Hatoum comemora 25 anos de literatura

Em entrevista de 2014, escritor e ex-cronista do 'Estadão', ele fala sobre 'Relato de um Certo Oriente', o novo romance, o tempo da escrita e black blocs. Crédito: TV Estadão | 30.05.2014

Pelo livro, venceu seu primeiro Prêmio Jabuti, na categoria de melhor romance. Ele ganhou o prêmio novamente em 2001, por Dois Irmãos, e em 2006, por Cinzas do Norte. Ambos os livros também são ambientados em Manaus e ampliam a exploração de Hatoum sobre família, memória, desigualdade e política, entre outros temas que circulam sua obra.

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Em outubro de 2025, o autor publicará o último livro da trilogia O Lugar Mais Sombrio, um drama familiar entrelaçado à história da ditadura militar em Brasília, nos anos 1960. A série é composta pelos livros A Noite da Espera (2017), Pontos de Fuga (2019) e Dança dos Enganos (2025).

O trabalho de Hatoum é celebrado internacionalmente: segundo a Companhia das Letras, que publicou a maior parte da obra do autor no Brasil, ele já vendeu mais de 500 mil exemplares em 17 países, entre França, Reino Unido, Alemanha, Itália, Espanha e México.

Em 2018, ele recebeu o prêmio Roger Caillois (Maison de l’Amérique Latine/Pen Club-França). No ano anterior, foi nomeado Officier de l’Ordre des Arts et des Lettres pelo Ministério da Cultura e da Comunicação da República Francesa.

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"O fim que se aproxima", por Milton Hatoum

Poeta, que é do Amazonas, fala sobre as queimadas na floresta. Crédito: Everton Oliveira / Estadão

Suas histórias também renderam adaptações para a TV e o cinema. Dois Irmãos deu origem à minissérie homônima da TV Globo, de 2017. Retrato de um Certo Oriente virou um filme lançado em 2024, Órfãos do Eldorado, de 2008, originou o longa de 2015, e O Adeus do Comandante, conto do livro A Cidade Ilhada (2009), inspirou O Rio do Desejo, de 2022.

Hatoum lecionou na Universidade de Taubaté e na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), onde, em 2023, recebeu o título de Doutor Honoris Causa. Também já foi professor visitante na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e em Sorbonne, na França.

Milton Hatoum fala sobre os 150 anos do ‘Estadão’

Novos imortais

Em abril, a jornalista e escritora Míriam Leitão foi eleita para a cadeira que pertenceu ao cineasta Cacá Diegues. No mês seguinte, a ABL elegeu o crítico literário e professor Paulo Henriques Britto à vaga deixada pela acadêmica e escritora Heloisa Teixeira, e o advogado e escritor José Roberto de Castro Neves à vaga de Marcos Vilaça.

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Já no início de julho, Ana Maria Gonçalves fez história e foi eleita a primeira mulher negra na ABL. A autora do romance Um Defeito de Cor ocupa a vaga deixada pelo filólogo Evanildo Bechara.

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