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‘Atiraram no Pianista’ investiga assassinato do músico Tenório Jr. na convulsionada Argentina de 1976

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Foto do autor Luiz Zanin Oricchio
Atualização:
Cena do documentário em animação Atiraram no Pianista, sobre o músico brasileiro Tenório Jr., de Fernando Trueba com desenhos de Javier Mariscal Foto: Divulgação / BTeam

Muito emocionante a animação de Fernando Trueba, Atiraram no Pianista. O narrador é Jeff, um repórter de música apaixonado pelo Rio de Janeiro, e que prepara um livro sobre a bossa nova.

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No meio da pesquisa, depara-se com a trágica história do pianista Tenório Jr., desaparecido em 1976, em Buenos Aires, quando acompanhava Toquinho e Vinicius de Moraes numa turnê.

Desse modo, o filme tem duas partes que se complementam e dialogam entre si.

Numa, há o Rio solar, o paraíso na Terra que, durante alguns anos, produziu a melhor e mais sofisticada música do mundo. Esta, aliás, era a mais completa tradução da alegria e do savoir-vivre do carioca e, por extensão, do brasileiro.

Noutra, o terror das ditaduras que se abateram sobre a América Latina e, sob inspiração e proteção dos Estados Unidos, foram destruindo, um a um, os Estados democráticos da região. Tenório foi uma das vítimas desse terror de Estado, implantado na Argentina em 1976. O filme transforma-se então numa soturna investigação, que tenta apurar o que aconteceu com Tenório Jr.

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A hipótese mais provável: Tenório teria deixado a namorada no hotel e saído para comprar alguma coisa na rua. Sanduíches, um remédio para a dor de cabeça da moça, qualquer coisa.

Nunca mais voltou. Teria sido abordado talvez por grupos paramilitares de extrema direita, que suspeitaram de sua aparência física. Era barbudo e cabeludo, na época um logotipo de "comunista". Detiveram-no para interrogatório e sabemos como eles eram feitos. Tenório teria morrido sob tortura. Ou, ao notar que haviam pegado a pessoa errada, os carrascos resolveram limpar a área. Enfiaram uma bala na cabeça do músico e sumiram com o corpo.

Trueba realizou cerca de 150 entrevistas para montar a história. Com a mulher de Tenório e os filhos do casal, hoje adultos. Com a namorada que o acompanhava na turnê, Malena. Com a filha de Vinicius de Moraes, a cineasta Susana de Moraes. Com grandes nomes da música brasileira que o haviam conhecido, como Chico Buarque, João Donato, Edu Lobo, Milton Nascimento, etc. Preserva suas vozes, mas as figuras animadas ganham o traço inspirado de Quintanilha.

Esse recurso, que poderia parecer artificial, pelo contrário, funciona perfeitamente. Dá ao filme uma dinâmica que, de outra forma, não teria. Filme, repito, muito emocionante, banhado pela música brasileira da época, jazz e pelo piano mágico de Tenório Jr., preservado pelas gravações que deixou.

Esse filme de luz e sombras abriu o Festival do Rio e tem estreia prevista para dia 26.

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Opinião por Luiz Zanin Oricchio

É jornalista, psicanalista e crítico de cinema

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