
GRAMADO - O improvável aconteceu. Num festival marcado pelo protagonismo feminino, um filme de diretor homem e elenco quase todo masculino, levou o Kikito principal, o de melhor filme. Contra-senso? Nem tanto. Apesar de só haver o vislumbre de uma mulher em todo o longa, o filme dirigido por Erico Rassi revela-se, para quem quiser ver, um poderoso libelo anti- machista.
Houve controvérsias. Uma diretora de cinema, presente ao debate, agradeceu ao cineasta por haver feito um filme profundamente feminista sem a presença de mulheres. No que foi contestada por uma crítica de cinema que decretou a impossibilidade de um filme de homem ser feminista. Registre-se que a polêmica sobre o "lugar de fala" não prosperou, o júri compreendeu perfeitamente o teor crítico da obra e a premiou.
Foi o grande acerto do corpo de jurados. Elegeu como melhor filme do festival aquele que era mesmo o melhor filme. Com perdão da redundância, é preciso dizer que isso tem ocorrido com frequência cada vez menor nos festivais de cinema, que têm feito o sucesso de filmes medíocres, como cinema, mas que trazem boas mensagens e reafirmam pautas politicamente corretas. Em Gramado, pelo menos na premiação principal, prevaleceu o critério da qualidade, já tido como démodé.
A obra de Rassi levou ainda os Kikitos de melhor fotografia (André Carvalheira) e ator coadjuvante (Rodger Rogério). Ele faz um dos pistoleiros e, na verdade, seu papel é protagônico, não coadjuvante.
A surpresa foi a grande premiação do problemático Estômago 2, premiado em cinco categorias, roteiro (Lusa Silvestre, Marcos Jorge e Bernardo Rennó), direção de arte (Fabíola Bonofiglio e Massimo Santomarco), trilha musical (Giovanni Venosta), ator (dividido entre João Miguel e Nicola Siri), além do prêmio do Júri Popular.
Mais incompreensível ainda foi o troféu de direção para Eliane Caffé por seu Filhos do Mangue - justamente um filme cuja característica é a quase ausência de direção. Lili Caffé é, de fato, uma grande cineasta e deve ter ganho pelo conjunto da obra. Ela não foi ao Palácio dos Festivais para receber seu troféu. Quem o buscou foi o produtor, que sustentou ser aquele um filme que valia mais pelo processo que pela obra final. O caminho vale mais que a chegada, etc. Pode? Pode sim, e o público que se contente. O filme levou ainda o troféu de melhor atriz coadjuvante para Genilda, que parece ser da comunidade ribeirinha filmada por Lili Caffé. Mas ninguém sabia de fato quem era, em meio à profusão de moradores que atuaram na obra, ao lado de quatro atores profissionais.
Cidade; Campo, de Juliana Rojas deu o troféu de melhor atriz a Fernanda Vianna, a protagonista do primeiro episódio; o segundo, é vivido pelas atrizes Bruna Linzmeyer e Mirella Façanha. Era tido como um dos favoritos aos Kikitos principais por sua mescla de realismo e fantástico, abordando temas de gênero e ancestralidade de forma original. Foi provavelmente o que levou o júri da crítica a elegê-lo como o melhor do festival.
A dramédia O Clube das Mulheres de Negócios, de Anna Muylaert, que trabalha com uma corrosiva inversão de clichês de gênero, ficou com o Prêmio Especial do Júri, que no exterior é muito valorizado, mas no Brasil é tido como prêmio de consolação.
Barba Ensopada de Sangue, de Aly Muritiba, ficou com o prêmio de montagem, para a craque Karen Akerman. Merecia mais. Pasárgada, estreia na direção de Dira Paes, ganhou o Kikito de desenho de som, de Beto Ferraz. Também merecia mais.
Entre os curtas-metragens, venceu o melhor dos concorrentes - Pastrana, de Melissa Brogni e Gabriel Motta, homenagem ao skatista de alta velocidade morto numa competição. As cenas de descida a mais de 100 km por hora são de arrepiar.
A premiação dos curtas foi muito distributivista - dos 12 concorrentes, 10 foram de alguma forma contemplados. Criaram quatro (!) menções honrosas para agasalhar mais concorrentes. Coisa curiosa: dois dos melhores foram esquecidos, o impactante Castanho, de Adanilo, e o singelo Movimentos Migratórios, de Rogério Cathalá. Em todo caso, foi uma mostra de muito bom nível.
Boa qualidade também prevaleceu na Mostra de Longas Gaúchos, que teve como vencedor o favorito A Transformação de Canuto, de Ariel Ortega, um excelente exemplo do melhor cinema indígena. Também foram premiados os bons filmes Até que a Música Pare, de Cristiane Oliveira, Infinimundo, de Bruno Martins, e Memórias de um Esclerosado, de Thais Fernandes e Rafael Corrêa. Em flagrante injustiça, só não ganhou nada o ótimo Um Corpo Só, de Cacá Nazario.
Na fraca seleção de longas-documentais, sobressaiu Clarice Niskier: Teatro dos Pés à Cabeça, de Renata Paschoal, e assim levou o prêmio.
Tudo somado, e feitos os reparos a algumas inconsistências dos júris, o festival foi um sucesso. Foi, como se disse e repetiu ao longo dos nove dias do evento, o festival da reconstrução, da resistência e da força dos gaúchos frente às consequências terríveis das recentes inundações que devastaram o Estado.
No auge do caos, ninguém acreditava que o festival pudesse se realizar e a diretoria da promotora, a Gramadotur, com Rosa Helena Volk à frente, sempre insistiu que o festival aconteceria, e na data previamente marcada. Assim foi.
Outro ponto positivo, que se espera seja mantido e sirva de exemplo a outros festivais, foi a limitação no tempo dos agradecimentos, que deu agilidade às cerimônias, em especial na noite da premiação. Já houve, em tempos recentes, cerimônias massacrantes com mais de 4 horas de duração, com vencedores agradecendo pais, mães, professores, cônjuges, namorados, antigos relacionamentos, pets e colegas do ensino médio. A deste ano resolveu tudo em 2h40 e mesmo assim porque a imaginação dos jurados foi criando prêmios adicionais para contemplar seus favoritos, o que inflacionou o número de Kikitos a serem entregues.
O "herói" desta e de outras noites de premiação foi um cronômetro, painel visível no palco e na plateia, que realizava a contagem regressiva de 2 minutos ao zero e depois estampava os dizeres: "Tempo esgotado". Funcionou.
PREMIAÇÃO COMPLETA
Longas-metragens Brasileiros
Melhor filme 'Oeste Outra Vez", de Erico Rassi
Melhor direção Eliane Caffé, por "Filhos do Mangue"
Melhor ator João Miguel e Nicola Siri, por "Estômago 2: O Poderoso Chef"
Melhor atriz Fernanda Vianna, por "Cidade; Campo"
Melhor roteiro Bernardo Rennó, Lusa Silvestre e Marcos Jorge, por "Estômago 2: O Poderoso Chef"
Melhor fotografia André Carvalheira, por "Oeste Outra Vez"
Melhor montagem Karen Akerman, por "Barba Ensopada de Sangue"
Melhor ator coadjuvante Rodger Rogério, por "Oeste Outra Vez"
Melhor atriz coadjuvante Genilda Maria, por "Filhos do Mangue"
Melhor direção de arte Fabíola Bonofiglio e Massimo Santomarco, por "Estômago 2: O Poderoso Chef"
Melhor trilha musical Giovanni Venosta, por "Estômago 2: O Poderoso Chef"
Melhor desenho de som Beto Ferraz, por "Pasárgada"
Prêmio especial do júri "O Clube das Mulheres de Negócios", de Anna Muylaert
Júri popular "Estômago 2: O Poderoso Chef", de Marcos Jorge
Curtas-metragens Brasileiros
Melhor filme "Pastrana", de Melissa Brogni e Gabriel Motta
Melhor direção Lucas Abrahão, por "Maputo"
Melhor roteiro Adriel Nizer, por "A Casa Amarela"
Melhor ator Wilson Rabelo, por "Ponto e Vírgula"
Melhor atriz Edvana Carvalho, por "Fenda"
Melhor trilha musical Liniker, por "Ponto e Vírgula"
Melhor fotografia Livia Pasqual, por "Pastrana"
Melhor montagem Bruno Carboni, por "Pastrana"
Melhor direção de arte Coh Amaral , por "Maputo"
Melhor desenho de som Felippe Mussel, por "A Menina e o Pote"
Prêmio especial do júri "Ponto e Vírgula", de Thiago Kistenmacher
Júri popular "Ana Cecília", de Julia Regis
Prêmio Canal Brasil de Curtas "Maputo", de Lucas Abrahão
Menção honrosa "Ressaca", de Pedro Estrada "Via Sacra", de João Campos "Navio", de Alice Carvalho, Larinha R. Dantas e Vitória Real "Maputo", de Lucas Abrahão
Júri da crítica
Melhor filme de Curta-Metragem Brasileiro "Fenda", de Lis Paim
Melhor filme de Longa-Metragem Brasileiro "Cidade; Campo", de Juliana Rojas
Longas-metragens Documentais
Melhor filme "Clarice Niskier: Teatro dos pés à Cabeça", de Renata Paschoal
VII Mostra de Filmes Universitários
Prêmio Edina Fujii - Cia Rio "A Falta que Me Traz", de Laura Zimmer Helfer e Luís Alexandre, da Universidade de Santa Cruz do Sul






