Alice Cooper: ‘Tenho um medo enorme da depressão. É algo muito sombrio’; veja vídeo

Lenda do rock fala sobre seu personagem, cobras, Frank Sinatra e lembra o primeiro grande show internacional realizado no Brasil, em 1974, para 158 mil pessoas; cantor volta a São Paulo como atração do festival Best Of Blues & Rock

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Foto do autor Gabriel Zorzetto
Atualização:

Alice Cooper fala ao ‘Estadão’ sobre show histórico no Brasil para 158 mil pessoas: ‘Insano’

Lendário cantor de 77 anos volta ao País para show único no dia 14 de junho em São Paulo.

Foto: Fabio Motta/Estadão
Entrevista comAlice CooperCantor

Alice Cooper, o pai dos pesadelos, também tem seus medos. Depressão, ambientes fechados e agulhas são os principais pavores do lendário roqueiro norte-americano, de 77 anos, conforme ele revela nesta entrevista feita por videoconferência.

Desde o final dos anos 60, Cooper e sua banda homônima criaram um estilo que combinava horror, teatralidade e rock n’ roll. Guilhotinas decapitando cabeças, sangue falso, monstros e cobras reais são marcas registradas de seu espetáculo. Tais truques influenciaram a estética e as apresentações de vários artistas que vieram depois.

No âmago de toda a parafernália visual, Vincent Furnier (seu nome de batismo) detectou em seu alter ego a capacidade de provocar o público ao explorar a linha tênue entre o bem e o mal, investigando a fragilidade e a hipocrisia da condição humana.

Dono de clássicos do gênero como School’s Out e Poison, o astro volta ao Brasil pela 7ª vez para um concerto único no festival Best Of Blues & Rock, no dia 14 de junho, no Parque Ibirapuera, mais de 50 anos depois da noite memorável de 30 de março de 1974, no Salão de Exposições do Anhembi, naquele que foi o primeiro grande show internacional da história do País, para uma multidão de 158 mil pessoas.

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Nesta conversa, Cooper lembrou da visita histórica e não negou que Rita Lee (1947-2023) possa ter furtado suas jiboias durante aquela excursão. A cantora, indignada com o manuseio das serpentes pelo músico, confessou em sua autobiografia (publicada em 2016) ter afanado os animais após entrar escondida no camarim.

Sendo uma personalidade famosa há décadas, presente também em muitos filmes e programas de TV (Os Muppets, Sombras da Noite, Quanto Mais Idiota Melhor, entre outros), Cooper esteve próximo dos maiores mitos da indústria do entretenimento. Foi amigo de Salvador Dalí, Groucho Marx, David Bowie e dos Beatles, apenas para citar alguns. Além disso, teve encontros notáveis com Elvis Presley e Frank Sinatra – este último chegou até a interpretar a balada You And Me em sua homenagem.

Por fim, o cantor ainda comentou sobre a reunião de sua banda original, separada desde os anos 70. Recentemente, ele se juntou ao guitarrista Michael Bruce, o baixista Dennis Dunaway e o baterista Neal Smith para gravar o álbum de inéditas The Revenge Of Alice Cooper, com lançamento previsto para 25 de julho. O grupo veterano, porém, não pretende sair em turnê, já que Alice Cooper hoje se apresenta ao lado de músicos bem mais jovens.

Sr. Cooper, sobre o show de 1974, o que passou pela sua cabeça quando recebeu o convite para vir ao Brasil, um País que não tinha nenhum histórico de shows ou turnês?

Eu nem acho que sabíamos que era o primeiro show aí. Estamos tão acostumados com turnês que basicamente temos que ter um papel na nossa frente pela manhã dizendo onde estamos. Mas é claro que nós percebemos o quão grande era. 158 mil pessoas dentro de um local. Insano. O engraçado foi que, com a maquiagem, a cobra e tudo mais, um jornal, no dia seguinte, disse que era ‘macumba’. Deveria ter dito ‘batista’. Posso ver por que o nosso show teria se parecido com isso, essa coisa meio vodu. Mas, na verdade, não era nada disso. O personagem é muito assustador, mas não tinha nada de sombrio sobre isso. Sempre pensei que o nosso show era muito mais divertido do que sombrio. Mas sim, falamos sobre aquele show o tempo todo. Porque eu acho que foi o maior público interno da história, segundo o Guinness Book.

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Sempre pensei que o nosso show era muito mais divertido do que sombrio"

Alice Cooper

Rita Lee, a renomada cantora brasileira, afirmou em sua autobiografia que ela roubou duas de suas cobras naquela noite. Isso é verdade?

Não nos deixaram trazer nossas próprias cobras. Então, eles [a produção] disseram: ‘vamos conseguir para vocês duas jiboias’. Eles saíram na selva e pegaram essas jiboias que nunca tinham visto um ser humano antes. As cobras que usávamos no palco eram sempre cobras que estavam em cativeiro. Estávamos acostumados a pegá-las e fazer tudo no palco. Primeiro de tudo, elas são surdas. Elas realmente não conseguem ouvir nada. Elas não enxergam muito bem. Na opinião delas, você é tipo uma árvore. Elas não querem cair porque não têm como se proteger. Então, desde que você as segure firmemente, elas realmente não vão fazer nada. Elas entendem que você não é comida. Você é grande demais para ser comida. Mas essas que eles pegaram na selva definitivamente tinham atitude. Então tivemos que amordaçar a boca delas porque provavelmente teriam me mordido várias vezes, enquanto as que estão em cativeiro nunca morderiam. Quando eu abri a bolsa, a cobra veio pra cima de mim e eu a agarrei. Eu disse: ‘não vou poder usá-la por muito tempo porque ela provavelmente vai tentar me matar’. Então, se ela [Rita] pegou essas cobras, ela pegou um casal de cobras selvagens.

O senhor está usando uma cobra nesta turnê atual? Em 2017, na sua última vinda, não tinha cobra nenhuma.

Sim, estou, durante a música Snakebite. Provavelmente seremos capazes de trazer a nossa própria cobra desta vez. Em 1974, era uma época diferente, as leis eram diferentes.

Alice Cooper durante apresentação de sua turnê 'The Psycho-Drama Tour' em São Paulo, em 2007 Foto: JF. Diorio/Estadão

Quando percebeu que o personagem Alice Cooper tinha um apelo único que ressoava com o público para além da música?

Eu sempre tive isso, mesmo antes de ser o Alice Cooper. Quando eu era apenas o vocalista da banda, sempre havia algum tipo de teatralidade natural. No início não tínhamos acessórios de cena, mas se eu encontrasse um balde nos bastidores, um esfregão ou qualquer coisa, eu levaria isso para o palco e usaria, meio que improvisando. Então, quando começamos a ganhar dinheiro, pudemos realmente começar a construir os acessórios. Percebi que o rock queria um vilão quando fizemos um show em Toronto e alguém colocou uma galinha no palco e eu joguei a galinha na plateia. Eu honestamente pensei que ela voaria para longe. Quer dizer, eu nunca estive em uma fazenda. Eu não sei o que uma galinha faz. E ela caiu na plateia, que a despedaçou e depois jogou os pedaços de volta no palco. E todo mundo, no jornal no dia seguinte, disse que Alice Cooper matou a galinha. Frank Zappa me ligou naquela noite e disse: ‘você matou uma galinha no palco ontem à noite?’. Eu disse que não. E ele disse: ‘bem, não conte isso a ninguém. Eles adoram isso’. Isso me fez entender que a plateia queria um vilão. Tínhamos todos esses Peter Pans do rock e nenhum Capitão Gancho. Então, eu imediatamente comecei a desenhar o Alice para ser esse tipo de vilão arrogante, que sempre sente que é mais inteligente e mais bonito. Como personagem, é divertido de interpretar. O vilão, em qualquer livro, peça ou filme, precisa ser punido no final. O final do meu show é sempre o Alice sendo enforcado ou tendo sua cabeça cortada. E o que acontece no bis? Eu volto com cartola branca e fraque. Em outras palavras, eu sou indestrutível, mas também renascido. Tem uma coisa meio cristã nisso.

Tínhamos todos esses Peter Pans do rock e nenhum Capitão Gancho. Imediatamente comecei a desenhar o Alice para ser esse tipo de vilão arrogante, que sempre sente que é mais inteligente e mais bonito. Como personagem, é divertido de interpretar"

Alice Cooper

Falando agora sobre música e composição, eu detecto na sua obra essa fascinação pelo bem e o mal. Como o senhor explora essa dualidade da condição humana para provocar o público?

Em primeiro lugar, o shock rock está morto há bastante tempo. Você não pode realmente chocar um público mais. Isso já foi feito. Acho que Lady Gaga com seu vestido de carne foi chocante, claro, mas o que você pode fazer mais com a internet e IA? Você não pode chocar um público, mas pode usar imagens chocantes. E as pessoas esperam que o Alice faça isso. Agora é mais tradição do que choque. Tudo em nosso show é baseado no meu roteiro. Em outras palavras, é baseado nas letras. Quando escrevo canções, certamente algumas delas são feitas diretamente para o palco. Da mesma maneira que você escreveria uma canção para uma peça. Se você vai cantar Welcome To My Nightmare [Bem-Vindo Ao Meu Pesadelo], dê ao público o pesadelo.

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Qual é o seu maior pesadelo na sociedade atual?

Eu tenho um medo enorme da depressão. Embora eu possa ter tido apenas um toque dela quando era muito jovem na minha vida, lembro de que era algo muito sombrio, que eu odiava. E é por isso que me mantenho ocupado o tempo todo. Porque, para mim, o tédio cria a depressão. Também sou um pouco claustrofóbico. E outra coisa é que eu não tenho tatuagens. Eu odeio agulhas. Posso colocar minha cabeça numa guilhotina, colocar uma enorme jiboia em volta do meu pescoço, mas se tenho que fazer um exame de sangue, fico como uma criança de 5 anos. Não é a dor, é a ideia da agulha.

Alice Cooper reuniu sua banda original dos anos 70 para novo álbum de estúdio Foto: Jenny Risher/Divulgação

Devo lhe perguntar sobre alguns de seus famosos encontros. Um deles é com Frank Sinatra. É verdade que ele gostava da música ‘You And Me’?

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Foi meio que um encontro por acaso. Nós tínhamos um time de beisebol de celebridades. Eram os Carpenters, os Monkees, eu e alguns comediantes. Estávamos jogando uma partida em Las Vegas. E tinha um garoto de 7 ou 8 anos que queria entrar no jogo, não deixavam ele entrar. Então eu o coloquei no banco, dei a ele um dos nossos bonés, e ele foi nosso mascote. Naquela noite, no cassino, eu estou passando, um cara grandão se aproxima e diz: ‘Coop, o chefe quer ver você’. Eu não sabia quem era o chefe. Poderia ter sido um cara da máfia. Eu não sabia. Eu fui e lá estava o Frank. E ele diz: ‘ei, Coop’, logo de cara. E eu disse: ‘sim, Sr. Sinatra’. E ele diz: ‘me chame de Frank’. Eu disse: ‘ok, Frank’. Ele diz: ‘você me fez um favor hoje, te devo uma. Aquele garoto que você deixou entrar era o filho do meu melhor amigo. Você realmente fez o dia dele e ele foi o garoto mais feliz do mundo’. Um ano depois, consigo ingressos para ver Frank em Los Angeles, com Bernie Taupin [letrista de Elton John]. Bernie era meu melhor amigo. Então, um cara chega, toca nos nossos ombros e diz: ‘venham para os bastidores. O chefe quer ver vocês’. Eu vou e lá está o Frank. Ele diz: ‘vou cantar uma das suas músicas esta noite’. Ele cantou You And Me e depois Your Song para o Bernie. Eu disse a ele: ‘isso é tão incrível, nada é melhor do que isso’. Ele responde: ‘é, eu sei’ (risos).

O senhor reuniu sua banda original para um novo álbum. Como foi se reconectar com esses caras?

A banda se separou em 1974. Depois de Love It To Death (1971), Killer (1971), School’s Out (1972), Billion Dollar Babies (1973), todos esses grandes discos, nós simplesmente nos esgotamos. Não tínhamos realmente mais ideias. Precisávamos descansar e simplesmente não fizemos isso. A banda se separou, não se divorciou. E eu continuei para fazer Welcome To My Nightmare (1975) e outras coisas. Dennis foi trabalhar com Blue Öyster Cult. Neil e Mike trabalharam em seus próprios álbuns. Mas sempre mantivemos contato. Sempre os convidei para tocar nos meus álbuns. E então finalmente dissemos: ‘por que não escrevemos 13 ou 14 novas músicas, pegamos o Bob Ezrin [produtor], e fazemos um álbum?’. Então nós fizemos isso. Os caras ainda mandam bem. Soa como um álbum que deveria ter saído depois de Billion Dollar Babies. Tem uma pegada dos anos 70. Mas não perseguimos isso, apenas aconteceu. E Robbie Krieger, do The Doors, ainda tocou guitarra solo nele.

E, por fim, de todos os seus papéis em filmes e programas de TV, qual é o seu favorito e por quê?

Eu interpretei o Rei Herodes em Jesus Cristo Superstar [de 2018] na TV, ao vivo, com o John Legend interpretando Jesus. Não tinha como fazer duas tomadas e havia 500 milhões de pessoas assistindo. Eu não podia errar, tinha que acertar. Talvez tenha sido a única vez em que fiquei nervoso. Interpretei Herodes como um personagem muito arrogante. Foi o papel mais desafiador e gratificante que já tive.

Alice Cooper se apresenta antes do Guns N' Roses no estádio Allianz Parque, na zona oeste da capital paulista, em 2017 Foto: Werther Santana/Estadão

Alice Cooper no Best Of Blues & Rock

  • Quando: 14 de junho de 2025
  • Onde: Parque do Ibirapuera (Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº)
  • Ingressoseventim.com
  • Preços: R$ 300 a R$ 600

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