Lô Borges foi tudo o que podia ser

Cantor, compositor, guitarrista e coautor de um dos melhores discos da MBP, o mineiro morreu neste domingo, 2, aos 73 anos

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Foto do autor Sérgio Martins

Lô Borges dizia que Milton Nascimento só percebeu que o pequeno Salomão (seu nome de batismo) não era mais um menino quando ambos foram a um bar e Bituca pediu caipirinha para ele e guaraná para o amigo. Lô, no entanto, disse que era crescido e podia sorver do mesmo líquido alcoólico de Bituca. Ele era, enfim, um adulto.

Pensando bem, e depois de muitas entrevistas e conversas informais com Lô Borges, dá até para entender a postura de Milton diante do companheiro de papo e de música. O cantor, compositor e guitarrista mineiro, que nos deixou na noite de domingo, tinha aquela seriedade e sisudez marcante dos seus companheiros de criação. Mas bastava falar de música – seu tema preferido – para aquela carranca se dissipar e Lô abrir os olhos e o sorriso que lhe davam um ar de criança grande.

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Nos últimos tempos, ele teve muitos momentos para falar e fazer música e, acima de tudo, nos brindar com seu sorriso precioso. Nos últimos 12 anos, Lô Borges lançou dez discos de estúdio e três ao vivo e colecionou parceiros das mais diferentes gerações: de Samuel Rosa, com quem excursionou pelas capitais do `País, à poetisa Patrícia Mães (autora das letras do belo Chama Viva, de 2022), de Nelson Ângelo e do irmão Márcio Borges, acólitos de primeira hora do Clube da Esquina, ao Terno Rei, banda de rock alternativo de São Paulo.

O jorro de criatividade era acompanhado pelo reconhecimento, por vezes tardio, de determinados setores da imprensa. Em 2022, o podcast Discoteca Básica elegeu o Clube da Esquina, que ele e Milton Nascimento lançaram em 1972, como o melhor disco de música brasileira em todos os tempos. Justo o álbum que, na época de seu lançamento, recebeu vaias da crítica, que classificou Lô como “um moleque insignificante” e decretou que Milton tinha “voz de taquara rachada”.

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Lô Borges em 2002; cantor morreu aos 73 anos, em Belo Horizonte Foto: Celso Junior/Estadão

Salomão Borges Filho nasceu no dia 10 de janeiro de 1952, em Belo Horizonte. Criado em Santa Tereza, bairro boêmio da capital mineira, teve a vida mudada quando, ainda no período de calças curtas, assistiu a Os Reis do Iê-Iê-Iê, estreia dos Beatles no cinema. “Vi várias sessões do mesmo filme”, contou ele certa vez. Naquela época, a família tinha mudado de Santa Tereza para o centro da cidade. Pouco tempo depois, conheceu outro moleque para dividir o amor pelo quarteto de Liverpool – Beto Guedes, que mais tarde faria também parte do Clube da Esquina. Lô e Beto, além de Yé (irmão de Lô) e Márcio Aquino criaram The Beavers, grupo que, obviamente, fazia releituras de hits dos Beatles.

O retorno à Santa Tereza, ainda nos anos 1960, chegou acompanhado por uma produção acima da média de canções, que despertaram a atenção de outro amigo que conheceu no centro da cidade – Milton Nascimento, então um cantor e compositor em ascensão.

A dupla, ao lado de outros cantores e instrumentistas de peso (Beto, o guitarrista Toninho Horta, o pianista Wagner Tiso, o baterista Robertinho Silva, entre outros) e mestres da pena (Márcio Borges, Ronaldo Bastos e Fernando Brant), criou O Clube da Esquina, trabalho repleto de clássicos como Tudo o que Você Podia Ser, Um Girassol da Cor de Seu Cabelo, O Trem Azul, Paisagem na Janela e muitos outros. O arsenal de composições de Lô impressionou tanto a direção da EMI, gravadora de Milton Nascimento, que estes convidaram o jovem de 20 anos para lançar seu primeiro disco solo.

Lô Borges (1972), também chamado de “o disco do tênis” (por causa, óbvio, do tênis que ilustra a capa), foi feito praticamente de uma tacada só. “Tudo o que eu tinha de música foi usado no Clube da Esquina. Tinha então de criar as melodias de manhã, receber as letras do meu irmão, Márcio Borges à tarde, e depois ir gravar no estúdio”, confessou.

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A produção, ainda que corrida, rendeu um dos melhores discos de MPB daquele período, onde se notam influências de psicodelia (o Jimi Hendrix que grita na faixa de abertura, Você Fica Bem Melhor Assim), dos Beatles (os vocais de Canção Postal e Não Foi Nada) e até dos rock alternativo (Aos Barões, que Alex Turner, guitarrista e vocalista do grupo inglês Arctic Monkeys, confessou ter escutado durante as gravações de Tranquility Base Hotel & Casino, disco de 2018). “Eu não faço música, eu recebo música”, comentou certa vez ao falar do processo de composição.

Lô Borges por pouco não se tornou um Arthur Rimbaud (1854-1891) da música mineira. A exemplo do poeta francês, que largou a poesia aos 20 anos de idade, Borges sumiu dos holofotes depois do lançamento do “disco do tênis”. Deu cano nas entrevistas e nos shows. “Só queria saber do abraço da minha mãe”, confessou. O músico foi viver, como ele mesmo disse, “a vida hippie”. Morou uns tempos em Porto Alegre, onde presenteava os malucos locais com seu LP de estreia. Em Arembepe, reduto do riponguismo brasileiro dos anos 1970, se deu ao direito de fazer experimentos com maconha e LSD.

O cantor retomou o prumo da carreira em O Clube da Esquina 2, de 1978, onde mais uma vez se uniu a Milton e uma leva de novos talentos, e A Via-Láctea, disco solo lançado no ano seguinte. Este traz uma das mais belas canções do seu repertório e da MPB: Clube da Esquina nº 2, música dele e de Milton com letra do irmão Márcio Borges.

“Chamo ela de canção itinerante porque eu e Bituca fizemos a primeira parte instrumental e íamos tocando de cidade em cidade.” Clube foi gravada sem letra no disco homônimo até que os Borges ganharam um ultimato de Nana Caymmi (1941-2025). “Ela disse: ‘Arruma uma letra porque quero gravar essa música. Danem-se que vocês não fizeram a letra ainda”, divertia-se o compositor.

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Avesso aos holofotes

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Melodista de alta patente, Lô sempre foi avesso aos holofotes. Nos primeiros shows do Clube da Esquina, ele e Beto Guedes faziam questão de tocar de costas para a plateia. Este comportamento atípico, aliado à sede das gravadoras pelo sucesso da vez, o afastaram cada vez mais dos estúdios de gravação – chegou a ficar 12 anos sem lançar discos.

Os primeiros passos para o retorno de Lô Borges foram dados com Meu Filme, de 1996, onde trazia uma cover de Te Ver, do Skank. Pouco depois, iniciaria uma parceria com Samuel Rosa, cantor e guitarrista do grupo. A dupla criou Dois Rios ao lado de Nando Reis (e que entrou em Cosmotron, disco do Skank de 2003), saiu em turnê e lançou um trabalho ao vivo em 2016 onde soltou as inéditas – Lampejo e Dupla Chama.

No mesmo ano, ele revisitou o “disco do tênis” (cujo repertório passou décadas sem tocar) em apresentações que renderam outro trabalho ao vivo.

Novos discos

Certa feita, Lô Borges olhou para sua discografia e viu que era composta por poucos discos. Passou, então, a compor e gravar em desabalada carreira. De 2019 a 2025, soltou um disco por ano – em agosto chegou às plataformas de streaming Céu de Giz, ao lado de Zeca Baleiro.

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Em cada um deles trazia as influências que fizeram a sua cabeça: o rock progressivo do Yes, o folk rock de Crosby, Stills, Nash & Young, o pop dos Beatles e o jazz e a MPB com o qual apimentou o Clube da Esquina.

E nas entrevistas, sempre revelou o lado menino que fez com que Bituca encomendasse um guaraná para o parceiro. Como quando falava da adoração das pessoas pelo Clube da Esquina, num almoço que tive com ele e Marcelo Pianetti, seu empresário, numa cantina de São Paulo em 2018. “De vez em quando desce uma van com uns 15 japoneses tirar foto da casa em que eu morava”, divertia-se.

A minha predileta é de quando a mãe do compositor avisou da visita de um músico americano. “Era um tal de Pat. Depois fui saber que era o Pat Metheny”, relembra, falando de um dos maiores nomes do jazz moderno e fã confesso dos mineiros. O menino Lô vai deixar saudades.

Análise por Sérgio Martins

Jornalista e crítico musical