Após quase cinquenta anos, o corpo do pianista brasileiro Francisco Tenório Cerqueira Júnior foi identificado pela Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF). O músico desapareceu em 18 de março de 1976, após sair do Hotel Normandie, região central de Buenos Aires. Ele acompanhava Toquinho e Vinicius de Moraes em uma turnê.
Segundo a EAAF, o pianista foi identificado por meio da comparação de impressões digitais. Embora seu corpo não tenha sido recuperado, sabe-se que ele foi enterrado sem identidade no cemitério de Benavídez, na província de Buenos Aires.

Carioca do bairro de Laranjeiras, na zona sul da capital do Rio de Janeiro, Tenório Jr. nasceu em julho de 1940. Iniciou sua carreira artística aos 15 anos, quando estudava acordeão e violão. Posteriormente dedicou-se ao piano, instrumento com o qual fez fama no universo musical. Entre suas admirações estavam João Donato, Moacyr Santos, Johnny Alf e, fora do Brasil, o pianista americano Bill Evans, que chegou a conhecer.
Tenorinho, como era conhecido, participou de vários festivais e realizou turnês no Brasil e no exterior, ao lado de consagrados nomes da música brasileira. Chegou a gravar com artistas como Wanda Sá, Lô Borges, Milton Nascimento, Edu Lobo, Egberto Gismonti, Sidney Miller, Nana Caymmi e Gal Costa.
O pianista vítima da ditadura militar argentina teve um LP autoral, Embalo, produzido em 1964, com composições do artistas e de outros autores, como Consolação, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, em arranjos e acompanhamento de músicos do naipe de Raul de Souza e Edson Maciel nos trombones, J.T Meirelles no sax e Milton Banana na bateria.
O assassinato de Tenório Jr. aconteceu quando sua mulher, Carmen Magalhães Tenório Cerqueira, estava grávida do quinto filho — Leonardo nasceu no mês seguinte ao do desaparecimento. Eles haviam se casado em 1967.
Os dois filhos mais novos, João Paulo e Leonardo, já faleceram. Elisa, a mais velha, tem hoje 57 anos, Francisco tem 56 e Margarida, 54.
Aos 33 anos, Carmen, que antes do casamento era professora de inglês, viu-se obrigada a criar sozinha cinco filhos. Faleceu em 2019, com 75 anos, sem ter respostas sobre a morte do marido.
Homenagens ao músico
“Sei que agora estás só. Não ouço nada
Do som do teu piano.
Sei que estás só, apenas respirando
O branco pó da madrugada
E infinitamente caminhando
Caminhando sem fim por uma estrada
Ninguém sabe por quê, como nem quando.”
Vinicius de Moraes
O artista já recebeu homenagens no cinema e na poesia. No ano de seu desaparecimento, Vinicius de Moraes escreveu o poema Desaparição de Tenório Jr., segundo registro no acervo digital do artista.
O desaparecimento do artista também foi retratado na música Lembranças, de Toquinho, nos versos “Tenório saiu sozinho na noite / Sumiu, ninguém soube explicar”.
No cinema, a história do pianista foi contada no filme Atiraram no Pianista, de Fernando Trueba e Javier Mariscal, indicados ao Oscar por Chico e Rita. A produção abriu o Festival do Rio 2023, marcando a primeira vez, em 25 anos de evento, que uma animação foi escolhida para a sessão de gala.
A história narra a investigação do personagem ficcional Jeff, um jornalista que está escrevendo um livro sobre a bossa-nova, mas descobre a história de Tenório Jr. e se envolve com ela. O documentário utiliza depoimentos reais sobre o artista, numa mistura de “música, história, política e memória”, nas palavras de Trueba.
Atiraram no pianista
Rio de Janeiro, Nova York e Buenos Aires são os principais cenários do filme, que traz entrevistas com gigantes da música brasileira que conheceram Tenorinho, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Toquinho.
O desaparecimento
Na noite de seu desaparecimento, Tenório Júnior saiu do hotel onde estava hospedado, a poucos metros da avenida Corrientes, e nunca mais voltou. Segundo relatos publicados na época, o artista teria deixado um bilhete aos colegas dizendo que sairia para comer um sanduíche, comprar um remédio e que voltaria logo.
A mobilização para tentar encontrá-lo nos dias seguintes incluiu incursões de Vinicius de Moraes nos meios diplomáticos, além de rondas dos músicos e outros integrantes da turnê por delegacias, hospitais e necrotérios. Quando o Estadão noticiava que o golpe na Argentina era iminente, uma nota na mesma página reportava o desaparecimento de Tenório.

Em 20 de março de 1976, o corpo de um homem foi encontrado em um terreno baldio na rua Belgrano com a Rodovia Panamericana, na cidade de Tigre, localizada próxima a Buenos Aires. Na ocasião, foi aberto um inquérito, colhidas as impressões digitais e realizada uma autópsia, que determinou que ele havia morrido por disparos de arma de fogo.
O inquérito foi posteriormente recuperado pela Procuradoria de Crimes contra a Humanidade, entidade argentina que apura casos ocorridos no período da ditadura e arquivados sem identificação das vítimas.
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Que fim levou Tenório?
A partir desse processo e do trabalho de investigação da EAAF, por ordem da Câmara Federal de Apelações Criminal e Correcional da Capital Federal, foram comparadas as impressões digitais do inquérito de 1976 com as de Tenório Júnior arquivadas no Brasil, confirmando-se a identidade do pianista.
Sua família já foi notificada no Brasil pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) e pelo procurador Ivan Marx, conselheiro da Comissão.
O assassinato de Tenório Jr. aconteceu quando sua mulher, Carmen Magalhães Tenório Cerqueira, estava grávida do quinto filho – Leonardo nasceu no mês seguinte ao do desaparecimento. Eles haviam se casado em 1967.
Os dois filhos mais novos, João Paulo e Leonardo, já faleceram. Elisa, a mais velha, tem hoje 57 anos, Francisco tem 56 e Margarida, 54.
Aos 33 anos, Carmen, que antes do casamento era professora de inglês, viu-se obrigada a criar sozinha cinco filhos. Faleceu em 2019, com 75 anos, sem ter respostas sobre a morte do marido.






