A primeira surpresa está no fundo do palco: um painel com sete metros de altura formado por 82 mil tampas de latas de sardinha. Visto à distância, o cenário se assemelha a escamas de peixe, primeira indicação da origem do nome da nova coreografia do Grupo Corpo, Piracema, que faz sua estreia em São Paulo na quarta-feira, 13, no Teatro Sérgio Cardoso. Inédito, o espetáculo marca a comemoração dos 50 anos de uma das mais importantes companhias de dança contemporânea do Brasil.
De origem tupi, a palavra “piracema” se refere ao fenômeno de resistência dos peixes que nadam contra a correnteza do rio até chegar ao local da desova. “Simboliza também nossa trajetória de resiliência, de enfrentamento das dificuldades para nos manter em atividade”, comenta o diretor artístico Paulo Pederneiras, que adicionou mais novidades ao balé comemorativo: pela primeira vez na trajetória do grupo, a coreografia é assinada por dois profissionais (Cassi Abranches passa a ser também coreógrafa residente ao lado de Rodrigo Pederneiras) e a trilha sonora inédita é composta por uma mulher (Clarice Assad).

E, como se tornou tradicional na apresentação de novos trabalhos, o Corpo incorpora uma coreografia de seu repertório que dialogue com facilidade com o espetáculo original. Dessa vez, será Parabelo, de 1997, peça de inspiração sertaneja com música de Tom Zé e José Miguel Wisnik. “É provavelmente o mais regional dos nossos trabalhos por falar do nordestino”, explica Paulo.
O Grupo Corpo é uma companhia essencialmente brasileira, que reflete em suas criações a pluralidade e a complexidade do País. Fundado em 1975, em Belo Horizonte, pelos seis irmãos Pederneiras (Paulo, Zé Luiz, Miriam, Rodrigo, Pedro e Marisa), o coletivo tem uma trajetória marcada por uma criatividade que, moldada com precisão e rigor, garante uma excelência técnica para mesclar o popular e o erudito.
“Grandes companhias da época, como o Stagium, faziam um balé inspirado em temas brasileiros, mas a movimentação era toda clássica, a linguagem em si não era nossa”, conta Rodrigo. “No Corpo, a gente cavava no próprio quintal e, quanto mais fundo, mais pérolas encontrávamos, ou seja, uma forma nossa de se movimentar. Havia quem criticasse dizendo que era samba de branco. No início, a receptividade na área da dança foi difícil porque havia uma relutância com os gestos mais sensuais dos bailarinos.”
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Tal movimentação, porém, logo se tornou uma das marcas do Corpo, reconhecida também no exterior. “O que me impressionou e me pareceu raro quando vi pela primeira vez foi a verticalidade do balé clássico unida ao trabalho dos quadris que bem representa a maneira como o brasileiro anda na rua e carrega toda a história do País, a mistura da África com Portugal”, observa o francês Guy Darmet, criador da Bienal de Dança de Lyon. “O Grupo Corpo carrega a própria brasilidade, com suas misturas e tradições.”
Com esse DNA já consagrado, Paulo Pederneiras optou agora por uma inovação radical na criação de Piracema ao iniciar o trabalho com a companhia dividida em dois elencos, cada um com 11 bailarinos. Cada grupo trabalharia separadamente com um dos dois coreógrafos, Rodrigo Pederneiras e Cassi Abranches, sem troca de informações e contando apenas com a trilha criada por Clarice Assad em comum. Ao final, os dois trabalhos seriam combinados para finalmente nascer a versão definitiva.

O início foi marcado por dúvidas sobre a criação. “Durante o processo, porém, percebemos que era preciso que um não se preocupasse com o que o outro estava fazendo”, conta Cassi, que iniciou carreira no Corpo e retorna agora depois de dez anos de uma consolidada trajetória internacional. “Parcerias coreográficas são tradicionais, mas acabamos criando três trabalhos: as duas individuais e a que resultou da junção delas.”
A fusão envolveu a negociação de estilos distintos. “Enquanto minha movimentação é mais fechada, mais arredondada, a da Cassi é explosiva, alargada, jogada. Daí o choque na união, mas também a força da complementação”, explica Rodrigo. “Claro que houve momentos difíceis, como eu abrir mão de certos movimentos porque os dela eram melhores. Mas também houve situações em que as duas coreografias se encaixavam tão bem que até ficávamos assustados.”
O Corpo tem por tradição convidar músicos para criar a trilha sonora para as novas coreografias, e Clarice Assad foi indicada pela artista plástica Laura Vinci e referendada por José Miguel Wisnik. Cantora, pianista, compositora e arranjadora, Clarice vive desde 1998 em Chicago, nos Estados Unidos, onde é referência na música clássica contemporânea, além de transitar pelo jazz e world music.
“Não é fácil fazer uma trilha sonora que dure entre 35 e 40 minutos”, comenta Paulo. “É preciso ter uma dinâmica, alternar momentos mais pesados com mais leves para facilitar a movimentação dos bailarinos. E é importante lembrar que a coreografia só existe com a música - se houver um silêncio, o movimento para. A música é o ponto de partida e é essencial.”
Ciente do desafio, Clarice (que é filha do violonista e compositor Sérgio Assad) criou a obra (R)evolution, que, dividida em três grandes movimentos, traça um arco que se inicia no tribal, no ambiente natural intocado, passa pela polifonia sinfônica do clássico e termina no eletrônico, urbano, contemporâneo. “É como se fosse de Villa-Lobos a John Cage”, compara Paulo.
“Usei bastante minha voz em harmonias vocais e até lancei mão, na terceira parte, de ruídos e sons criados por inteligência artificial”, explica a compositora. “Foi um quebra-cabeças que montei lado a lado com o Corpo, criando um panorama de evolução, mudança e revolução do mundo. E, ainda que não saibamos se caminhamos para uma utopia ou uma distopia, o poder regenerativo da arte é real.”

Clarice entra para a galeria de compositores de trilhas originais para a companhia, que conta com João Bosco, Arnaldo Antunes, Caetano Veloso, Lenine, Samuel Rosa, Metá Metá e Gilberto Gil, entre outros. Em cinco décadas de atividade, o Corpo soma 43 obras criadas e montadas, com apresentações em 261 cidades de 41 países, além do Brasil.
A estreia aconteceu em 1976 com Maria Maria, com música original assinada por Milton Nascimento e coreografia do argentino Oscar Araiz. Em 1978, a companhia deixou a casa dos Pederneiras e ganhou sede própria na capital mineira.
“Se fosse europeu, o Corpo teria uma sede, um teatro, subsídios do governo e das cidades, mas, no Brasil, precisa enfrentar várias batalhas”, observa o francês Guy Darmet. A manutenção, portanto, acontece via patrocínio por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura e pelo programa de doação incentivada Patronos do Corpo, que reúne figuras de destaque na vida nacional, com doações diretas e mais robustas.
Cinco obras marcantes do Grupo Corpo
21 (1992)

Considerado o espetáculo com que a companhia consolidou seu estilo, com estruturas rítmicas marcadas por repetições e desenhos mais complexos.
Nazareth (1993)

Obra que mistura os aspectos musicais e também literários – aqui, Machado de Assis serve de inspiração para cenário e figurino.
Bach (1996)

Um jogo entre o que se ouve e o que se vê, onde o barroco de Bach e o barroco de Minas Gerais se realizam como dança.
Parabelo (1997)

A “mais regional” das coreografias, com os movimentos criados sob o ritmo de cantos de trabalho e devoção, além de um baião cadenciado.
Gira (2017)

A partir da trilha do grupo Metá Metá, a coreografia se inspira em religiões afro-brasileiras, como a umbanda e o candomblé, para a criação dos movimentos.
Serviço - Parabelo | Piracema
- Duração: Parabelo (42 min) e Piracema (37 min)
- Onde: Teatro Sérgio Cardoso. R. Rui Barbosa, 153, Bela Vista - Tel: (11) 3882-8080.
- Quando: De 13/8 a 24/8. Quarta a sábado, 20h; domingo, 16h.
- Quanto: R$ 39,80 / R$ 240.







