A última cobertura em Roma: o dia em que William Bonner quase foi parar na cadeia

Enquanto o mundo acompanhava as primeiras horas do pontificado de Leão XIV, o jornalista enfrentava a fúria de um policial no Vaticano

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Foto do autor Marcelo Godoy
Atualização:

Bonner deixa o JN; Tralli assume a bancada do noticiário

Crédito: João Abel/Estadão

Ele quase saiu preso. Era a segunda vez em 20 anos que o jornalista William Bonner se via às voltas com a falta de civilidade que alguns policiais italianos fazem questão de demonstrar quando lidam com repórteres estrangeiros. Um desafio muito maior do que ter de explicar por que a repórter Ilze Scamparini parecia rejeitar seu abraço ao vivo...

William Bonner e Ilze Scamparini durante cobertura no Vaticano Foto: Reprodução/Globo

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Em meio a milhares de peregrinos que aguardavam a eleição do papa Leão XIV, uma multidão de brasileiros se aglomerava no fim da Via Della Conciliazione, diante da Praça de São Pedro. Era ali que o Vaticano montara uma estrutura metálica que servia de estúdio para as TVs de todo o mundo que acompanhavam a eleição do pontífice.

Ali estava a freira Monalisa Machado, de 39 anos, da Congregação das Irmãs de Maria Auxiliadora. “É uma grande emoção. Estou aqui na praça desde a primeira fumaça até agora”, contou. E o que esperar do novo papa? “Que seja um papa bom para a Igreja e para toda a humanidade”, afirmou a irmã que está na vida religiosa há 16 anos e vive em Roma há cinco. Envolta em uma bandeira do Brasil, ela estava entusiasmada.

Perto dela, estava o padre Gilson Maia, um rogacionista que trabalha na sede de sua congregação, na capital italiana. “Não perdi nenhuma fumaça. Quando é que eu vou ver um novo conclave?”, pontuou o sacerdote de 61 anos, um mineiro de Passos que segue a vida religiosa há 33 anos. Não muito longe dali, os repórteres Nilson Klava e Gerson Camarotti se postavam perto de câmeras até que a multidão que inundara a praça começou a se dispersar.

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Monalisa Machado, irmã da Congregação Maria Auxiliadora, durante o anúncio do novo papa na praça de São Pedro, no Vaticano: 'Que seja um homem bom para a Igreja e para a humanidade' Foto: Marcelo Godoy / Estadão

O grupo de brasileiros começou a se concentrar em torno das câmeras da TV Globo. O carinho dos brasileiros surpreendeu os jornalistas da emissora e paralisou o fluxo de saída do público, para o desespero de um policial. O que se passou em seguida foi contado por Bonner em sua conta do Instagram, por meio de uma live que o jornalista fez minutos antes de ir ao ar no Jornal Nacional de 9 de maio, o último apresentado por Bonner fora dos estúdios no Jardim Botânico, no Rio.

“Um grupo de brasileiros viu a gente trabalhando e foi se aproximando. O papa já tinha sido escolhido; tinha um clima de muita festa, e os brasileiros começaram a se juntar nessa área. Eram algumas centenas de brasileiros. Eles pararam e, quando pararam, os policiais italianos não gostaram. Eles desgostaram. E começaram a gritar para a gente tirar as câmeras daqui. E gritavam muito”, relatou o jornalista, mostrando cada ângulo e cada posto onde a história se passou.

Bonner seguiu até a escada que conduzia ao estúdio montado em cima da estrutura metálica. Naqueles dias, ele teve ao seu lado o estúdio da emissora americana CNN, que enviara Erin Burnett para a cobertura. Mostrou então o caminho por onde surgiu um policial descontrolado, que não se detinha nem quando lhe davam razão. “Eu achei que ia ser assassinado, que ia ser uma tragédia. Cada vez que eu dizia em inglês ‘o senhor está certo′, a ira dele só aumentava.“

No fim, o policial o ameaçou de prisão caso as câmeras da Globo voltassem a ser posicionadas de onde já haviam sido retiradas na praça onde jornalistas do mundo inteiro disputavam lugares para escrever, gravar entrevistas e publicar as informações sobre o conclave. Bonner prosseguiu seu relato diante da fria madrugada romana – o jornal seria transmitido à 1h30, horário de Roma – em uma praça esvaziada.

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Vinte anos antes, a mesma praça de São Pedro testemunhara o enterro do papa João Paulo II e a eleição de Bento XVI. E lá estava Bonner trabalhando e quase sendo preso por outro policial italiano. Na época, o jornal era apresentado ao vivo do alto do Colégio Santa Mônica. No dia da véspera do enterro do papa, a segurança da praça mudou seu dispositivo – o que acontece sempre de inopino. Uma estrutura metálica foi colocada entre o jornalista e seu estúdio, fechando o caminho. Bonner não teve dúvida: resolveu pular a estrutura.

Foi quando surgiu um carabinieri. O policial disse apenas uma frase ao jornalista: “Se passar a outra perna pela estrutura, eu vou te prender.” O jornalista escapou da prisão, mas teve de dar uma volta enorme por fora da praça de São Pedro para poder chegar ao estúdio. “Do nada surgiu um policial nos mesmos termos de 20 anos atrás. Portanto, Roma é um lugar perigoso para eu trabalhar”, concluiu. Em seguida brincou: “Isso a Globo não mostra, mas eu tenho a live e estou pirateando o wi-fi do JN.”

Não seria a última transmissão de Bonner da Itália. Antes de voltar ao Brasil, ele fez outra live para dizer que “nós, os jornalistas, temos um prazer imenso de estar em eventos históricos”. Bonner esteve em muitos nos quase 30 anos à frente do Jornal Nacional. Durante esse tempo, o mundo teve quatro papas – João Paulo II, Bento XVI, Francisco e Leão XIV – e o JN apenas um editor-chefe e apresentador.

Em tempo: Este repórter também foi ofendido aos berros por um policial em Roma só por ter se aproximado de uma entrada da Praça de São Pedro que ele não sabia ter sido, naquele dia, vedada ao público.

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