Vídeo: ‘Errei ao confiar nas pessoas erradas’, diz Dedé Santana aos 89 anos

Humorista relembra a infância no circo, a concepção do histórico ‘Os Trapalhões’, com Didi (Renato Aragão), Mussum e Zacarias, fala sobre depressão, problemas financeiros e diz que o politicamente correto ‘amordaçou’ o humor

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Foto do autor Gabriel Zorzetto
Atualização:

Dedé Santana diz que 'Os Trapalhões' não poderia ser feito hoje, mas alerta: 'Não tinha maldade'

Humorista de 89 anos falou sobre o sucesso do programa em entrevista ao 'Estadão'.

Foto: Daniel Teixeira/Estadão
Entrevista comDedé SantanaHumorista

No livro de memórias O Lado B de Boni (Ed. Record), ao relatar os bastidores da contratação dos Trapalhões pela Globo em 1977, Boni afirma que hoje seria impossível ter aquele icônico quarteto no ar e que o politicamente correto iria “cair em cima” deles.

Aos 89 anos, Manfried Sant’Anna, conhecido como Dedé Santana, concorda com isso, mas salienta que o grupo – também composto por Didi, Mussum (1941-1994) e Zacarias (1934-1990) – não tinha maldade com as piadas que ridicularizavam negros ou gays, por exemplo. Criado no seio de uma família de longa tradição circense, ele diz que levou o “humor de palhaço” para a TV.

A atração exibida inicialmente na Rede Tupi e, depois, na emissora carioca, foi um estrondoso fenômeno de popularidade no Brasil e entrou para o Guinness Book como o programa humorístico de maior duração da televisão, com 30 anos de exibição.

Nas telonas, filmes do conjunto como Os Trapalhões na Serra Pelada (1982), O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão (1977), entre outros, figuram até hoje entre as maiores bilheterias da história do cinema brasileiro.

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Para Dedé, o “escada” dos Trapalhões, a magia vinha do ótimo entrosamento entre os quatro. “Nunca pensamos em querer ser celebridade ou ser famoso. Queríamos fazer as pessoas rirem”, explica.

E por mais que relutemos em aceitar, tudo na vida chega ao fim. As mortes precoces de Mussum e Zacarias impuseram uma ruptura infeliz a Dedé, que sofreu com dramas distintos no período pós-Trapalhões, desde percalços financeiros a problemas de saúde. “Eu não soube administrar a minha vida, fazia muita bobagem”, confessa.

Nesta entrevista, o artista carioca também comentou acerca de sua relação com Renato Aragão, quem ele considera um “irmão” apesar de uma disputa empresarial sobre os faturamentos dos longas-metragens dos Trapalhões, pelos quais Aragão era melhor remunerado do que os demais integrantes. Dedé nega que tal divergência tenha afetado a amizade entre ambos. Recentemente, eles se reuniram para um quadro do Especial de 60 anos da Globo e, anos atrás, trabalharam juntos em A Turma do Didi e Aventuras do Didi, quando Santana retornou ao canal da família Marinho após o fim do programa Dedé e o Comando Maluco, do SBT, feito em parceria com o empresário Beto Carrero (1937-2008).

Hoje, prestes a se tornar um nonagenário, Dedé está de volta ao circo, seu habitat natural. “Eu nunca abandonei o circo”, diz, sem esconder a emoção com os efeitos que aquela atmosfera burlesca ainda é capaz de lhe proporcionar.

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Ele recebeu a reportagem em sua nova casa em Alphaville, na região metropolitana de São Paulo, e disse ainda que prepara o lançamento de uma biografia (para julho/agosto), escrita por Vitor Lustosa, e que está finalizando o roteiro de um filme a ser estrelado pelo humorista Tirullipa.

Por motivos de compreensão, clareza e espaço, o conteúdo da conversa abaixo foi editado e condensado.

Manfried Sant'Anna, conhecido como Dedé Santana, em sua nova casa na região de Alphaville, em São Paulo Foto: Daniel Teixeira/Estadão

O senhor está com uma aparência ótima para a sua idade. É vaidoso?

Sou um velho meio vaidoso, passei um pozinho (risos). É por causa do público, não por mim. Eu nem me visto direito. A minha mulher briga comigo. Mas quando eu vou trabalhar, eu gosto de estar legal. Eu procuro esconder um pouco a careca. Desde rapazinho eu era metido. Me lembro que no circo nós não tínhamos dinheiro pra comprar aquelas brilhantinas, eu usava óleo de cozinha para ficar com o cabelo brilhando.

Nos conte um pouco sobre as origens circenses da sua família. Há uma tradição cigana, certo?

Eu digo que sou cigano do Paraguai, porque eu não sei nada sobre ciganos. Eu tinha uma irmã que sabia tudo. O meu pai é um descendente cigano, lá daquele lado da Ucrânia. A família dele acabou indo pra Inglaterra, depois para a Argentina e Brasil. Ele nasceu no Brasil e a minha mãe era afrodescendente, que a chamavam de ‘nega sarará’, pois era negra e loira, de olho claro. O Mussum brincava muito com isso. A minha família era 8ª geração circense. Quer dizer, eu já nasci na barraca do circo. Eu nasci em Niterói. Não tem ninguém perfeito (risos). Se eu fosse perfeito, tinha nascido em Londres. Entrei no palco do circo com 3 meses de idade no colo da minha mãe. Depois, com 7 anos eu já era palhaço de circo.

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'Nunca pensamos em querer ser celebridade ou ser famoso. Queríamos fazer as pessoas rirem', diz Dedé Santana sobre a força dos Trapalhões Foto: Daniel Teixeira/Estadão

E nessa época quais eram seus ídolos na comédia?

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Muita gente não sabe quem é, mas era o Cantinflas, um comediante mexicano que chamava Mário Moreno. Quando perguntaram ao Charles Chaplin qual é o maior comediante do mundo, ele respondeu que era o Cantinflas. Eu também era muito fã do Gordo e o Magro. Tanto é que quando eu comecei com o Renato [Aragão], eu me posicionava no lugar do Gordo, e o Renato no lugar do Magro. Tudo começou com a dupla Dedé e Didi, nós éramos comediantes e quem me descobriu chama-se Arnaud Rodrigues, um cara que escrevia pro Chico Anysio. Ele que teve a visão de juntar Dedé e Didi.

Com a chegada de Mussum e Zacarias, quando vocês perceberam que os quatro davam uma liga especial?

Acho que tudo foi por acaso. Eu conheci o Mussum uns 6 anos antes de conhecer o Renato e ele nunca mais me largou, gostou de mim. Eu ia ver o show dos Originais do Samba e percebia o quanto ele era engraçado. Mais tarde, eu fui com o Renato fazer Os Insociáveis, na Record, e começamos até a ganhar da Globo [em audiência]. Isso era um milagre. Aí o diretor quis aumentar o programa e o Renato quis colocar mais um [comediante]. Ele falou: ‘quem vamos colocar?’. Hoje não pode falar mais, mas na época eu falei: ‘vamos colocar um negão!’. Porque todo seriado ou filme americano que tem um afrodescendente faz sucesso. Mas o Mussum não queria ir de jeito nenhum, ele achava que não era comediante. Uns meses depois, o Renato me aparece lá com um baixinho, careca, com voz bonita. Pensei que o Renato estava louco, mas ele acertou em cheio. O Zacarias era bom demais. Quando nós fizemos quatro, cinco programas, sentimos que estávamos no caminho certo. O Renato sempre dizia que nós éramos uma mesa de quatro pernas, não podia faltar uma. E eu tive a consciência de reunir os outros dois e falar: ‘temos que botar na cabeça uma coisa. Em primeiro lugar está o Renato. Ele é que escreve, ele é o mentor’. Hoje eu fico muito chateado quando vejo as pessoas falando [mal] do Renato...

Dedé Santana e Renato Aragão, ex-integrantes do programa 'Os Trapalhões', fotografados em 2017 Foto: Wilton Junior/Estadão

O Renato não era um pouco difícil de trabalhar? Há relatos de que ele é uma pessoa prepotente.

Eu nunca vi isso. Estou falando com a maior sinceridade. O problema é que o Renato não teve uma Marlene [Mattos] na vida dele. Ele era o cabeça, cuidava do grupo. Muita coisa a Xuxa não gostava e falava com a Marlene. O papel da Marlene era cortar. Por isso que o Renato às vezes é muito criticado, mas não tinha outro jeito. Ele tinha que falar o que gostava e o que não gostava.

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Mas houve uma divergência em questões financeiras. Vocês estariam insatisfeitos com o fato de que ele recebia muito mais que vocês três.

Isso aí foi um problema nos filmes. Foi um problema de duas empresas. Nós tínhamos uma empresa que era Dedé, Mussum e Zacarias, que chamava DeMuZa. E o Renato tinha a empresa dele, gerida pelo irmão dele, o Paulo Aragão. Vimos que ele estava ganhando mais do que nós. Ele financiava os filmes. Aí nós chegamos à conclusão que tínhamos que financiar também. Mas a encrenca foi das empresas. Queríamos financiar também, mas o Paulo Aragão não aceitou.

Isso afetou sua amizade com ele?

Não, nunca afetou. O Renato não é meu amigo. Ele é meu irmão.

Programa 'Os Trapalhões' marcou época na TV brasileira com Didi, Dedé, Mussum e Zacarias Foto: Reprodução/Acervo Estadão

Olhando para trás, o que o senhor detecta de tão especial no humor dos Trapalhões que causava tanta euforia do público?

Foi um entrosamento nosso. Nunca pensamos em querer ser celebridade ou ser famoso. Queríamos fazer as pessoas rirem. Acho que isso nos empurrava muito. Tanto é que eu não era comediante. Eu era o ator escada. O escada é quem prepara a piada, ele não faz a piada. Mas às vezes acontecia de ficar engraçado pro meu lado, e eles viravam o meu escada, os três. E eu continuava e fazia palhaçada. Se eles vissem que o público estava rindo comigo, os três trabalhavam pra mim continuar fazendo o público rir. Nós tínhamos esse entrosamento.

Muito se fala que o humor dos Trapalhões não poderia ser feito hoje. Concorda?

Concordo (risos). Os trapalhões não tinham maldade. Na realidade, eu levei o humor do circo para a TV. Era um humor de palhaço de circo. Não tínhamos maldade em chamar o cara de gay, de negão. O Renato me chamava de gay o tempo inteiro, de perua. Eu adorava aquilo, era engraçado. Hoje está difícil. Acho que os comediantes de hoje são heróis. Só que o humor hoje está apelando muito para o palavrão. Eu fui ver um stand-up outro dia em que tinha crianças, sei lá, de 12 anos, e os caras falando cada barbaridade. Eu me senti mal, sinceramente. É a mesma coisa quando eu vejo uma novela com a minha filha, e tem aquelas cenas quentes, fico constrangido. Eu não sou santo. Todo mundo diz que eu fui um grande pegador e fui.

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E o politicamente correto?

Amordaçou os comediantes. Não pode falar mais isso, não pode falar aquilo. Fica difícil.

O ex-presidente da República, Michel Temer e Dedé Santana durante cerimonia de Entrega da Ordem do Mérito Cultural, em 2018, em Brasília  Foto: Dida Sampaio/Estadão

Quando tudo acabou, com as mortes de Mussum e Zacarias, o senhor teve períodos de depressão?

Tive, não só eu, como o Renato também. Eu já tinha passado coisas parecidas, pois perdi o meu pai novo, tendo que fazer palhaço no circo com o meu pai morto. Sempre tive medo de cair em depressão. E quando o Zacarias faleceu, foi bem duro. Tanto é que o Renato queria parar. Quem nos convenceu a não parar foi o Chico Anysio, junto com o Boni. E o Mussum era meu grande amigo no grupo. Amigo que não saía da minha casa.

Sentiu dificuldades depois do fim do grupo para trabalhar e se recolocar na mídia?

Nunca parei, mas tive muitos altos e baixos porque eu não soube administrar a minha vida. O Renato tinha o irmão dele, que foi o grande cabeça em administrar a situação financeira dele. Eu, como não tinha ninguém, metia os pés pelas mãos, fazia muita bobagem, dava dinheiro para muita gente. Eu não gosto de falar isso, mas ajudei muita gente, e aí eu perdia o controle do dinheiro. Tivemos um roubo muito grande na DeMuZa também, aí tivemos que começar tudo de novo.

Qual foi o seu maior erro?

Meu maior erro foi confiar em pessoas erradas. E o meu maior acerto foi quando eu estava entre a vida e a morte no hospital [nos anos 90, ficou internado quase um mês por causa de entupimento das coronárias e água no pulmão], que eu descobri que o meu filho era Atleta de Cristo, que eu não sabia o que era. Aí eu me virei para a religião e desde então tudo deu certo. Eu não sou rico, não sou milionário, mas eu tenho uma vida legal. Nunca passei fome, graças a Deus. Passei fome quando cheguei ao Rio, lá no começo, precisei dormir na praia e tal, mas hoje eu levo a minha vida.

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Dedé Santana no espetáculo 'Abracadabra', do Reder Circus Foto: Divulgação/Reder Circus

Aos 89 anos, o senhor continua trabalhando no circo...

Eu nunca abandonei o circo. O circo sempre me ajudou muito. Eu tenho o meu circo, Illusion, que está em Minas Gerais, e estou no melhor espetáculo de circo do Brasil, que é o Abracadabra [em circulação pelo interior de SP], com direção do Frederico Reder.

Sente falta de apoio do governo para o circo?

Eu sinto falta sim. É porque o circo chega em uma cidade e os caras querem que o circo faça uma documentação, como se fosse ficar fixo na cidade. E o circo é itinerante. Daí chega em outra cidade, você tem que fazer a documentação toda de novo. Eu acho que o governo devia dar um apoio, já que o governo hoje parece que faz muita coisa pela cultura e tal. Eu faria um alvará único para cada estado. Em Minas Gerais é assim.

Hoje como é a sua participação no circo?

Eu faço três entradas, e todos os dias eu me emociono. Quando eu entro, vejo aquelas pessoas mais velhas chorando. Vejo os pais cutucando os filhos e me apontando. É um choque que eu levo sempre.