Foto: Fabio Audi/Divulgação“Espero que, ao olharem para o Nando, as pessoas compreendam com clareza que o crime não compensa em nenhuma hipótese. E que todo mundo pode ter a chance de recomeçar.” Christian Malheiros finaliza com essa frase uma conversa que durou duas rodadas (a primeira em fevereiro de 2025, a segunda neste agosto de 2026) e atravessou o encerramento do ciclo mais importante da sua vida até aqui. Aos recém-completados 27 anos, ele dá vida à nova fase do personagem que interpreta desde os 19. Na quarta-feira, 12 de agosto, a Netflix lançou Nando Entre Dois Mundos, filme dirigido por Johnny Araújo que dá ponto final à história iniciada na série Sintonia. A trama se passa cinco anos depois dos acontecimentos da última temporada da série: Nando vive escondido na Sérvia, longe de tudo, depois de ter forjado a própria morte, e é obrigado a voltar ao Brasil quando Bruninha, a filha adolescente vivida por Duda Pimenta, some de casa sem deixar rastro.
Sintonia estreou em agosto de 2019 a partir de uma ideia original do criador e diretor Konrad Dantas, o KondZilla, e se tornou a série brasileira mais longeva da Netflix, com cinco temporadas finalizadas em fevereiro de 2025.
Em 2023, com a quarta temporada, a produção chegou ao primeiro lugar do Top 10 global de séries de língua não inglesa da plataforma. Para Christian, que descobriu o teatro aos 9 anos numa oficina de escola pública em São Vicente, na Baixada Santista, e chegou a São Paulo varrendo palco e descarregando caminhão, o efeito da fama foi imediato e um tanto cruel: “Da noite para o dia eu não conseguia andar na rua, ir ao mercado ou tomar um café sem ser abordado a cada cinco minutos. Precisava usar transporte público e não tinha mais paz para andar de ônibus ou metrô, e ao mesmo tempo não tinha dinheiro pra ir de táxi.”
Christian foi indicado ao prêmio Independent Spirit Award na categoria melhor ator por Sócrates, longa de 2018 rodado na Baixada Santista por Alexandre Moratto, e reencontrou o diretor em 7 Prisioneiros, ao lado de Rodrigo Santoro. No cinema fez ainda Biônicos. Na TV, foi dirigido por Selton Mello na série Sessão de Terapia e entrou no elenco de Senna. Nesta mesma semana em que o filme Nando é lançado pela Netflix, ele está na mostra competitiva do Festival de Gramado com Justino: Nos Bastidores do Reino, de José Eduardo Belmonte.
Aqui, os melhores momentos das duas entrevistas concedidas ao Trip FM, o programa de rádio e podcast criado pela Trip. Um mergulho em temas como seu lugar de origem, dinheiro, os estereótipos que rondam um ator como ele, o peso de segurar uma arma em cena e o que fica de um personagem que atravessou sua vida por um tempo longo e chega agora ao seu fechamento.
Trip FM: Christian, antes da sua carreira e de Sintonia, quero falar de Santos, Guarujá, Praia Grande, São Vicente, essa região onde você nasceu. Estudando para a nossa conversa, vi que você tem cinco irmãos e que a sua mãe criou vocês sozinha. Me fala da chegada do Christian ao planeta.
Christian Malheiros: Foi uma chegada muito bonita. Sou da periferia de São Vicente, na Baixada Santista, onde tudo é integrado. Já morei em outras cidades da região, como Santos, porque meus pais foram migrantes nordestinos que vieram para São Paulo tentar a vida. Meu pai saiu de casa quando eu era muito pequeno, então minha mãe criou a gente sozinha.
A nossa criação foi baseada na colaboração entre os irmãos, com o mais velho cuidando do mais novo, e assim por diante. É o que costuma acontecer na periferia, porque minha mãe precisava sair para trabalhar em dois empregos. O irmão mais velho era a referência de autoridade em casa enquanto ela estava na rua buscando o pão. E se a gente não obedecesse, quando ela chegava, a cobrança vinha. Minha mãe é do interior da Bahia, a criação foi rígida, pautada no respeito e no caráter, valores que eu trago para toda a vida.
Logo depois, na escola pública, tive contato com o teatro por meio de um projeto social chamado Mais Educação, e ali descobri minha vocação.
Trip FM: Lembro de quando conversei com o KondZilla aqui. Ele é seu parceiro, vem da mesma região, da periferia do Guarujá, e me contou que também foi criado por uma mãe sozinha. O que a sua mãe fazia? E como a ausência do pai te impactou?
Christian Malheiros: A minha mãe trabalhava como doméstica em duas casas, num rodízio ao longo da semana. O domingo era o único dia de folga e calhava de estarmos todos pequenos em casa. Ela aproveitava para arrumar o ambiente, lavar as roupas e nos levar para a igreja evangélica à noite. Essa vivência na igreja esteve muito presente na nossa formação.
Ela nunca foi de criar ilusões ou de agir de forma lúdica com a gente. No Natal, quando conseguia comprar roupas ou lembrancinhas parceladas, avisava logo que a responsável por aquilo era ela, não o Papai Noel.
Sobre a figura paterna, é um papel que faz falta. Por outro lado, fui forjado na convivência com mulheres e sou imensamente grato por essa criação. Cresci rodeado pela minha mãe e por quatro irmãs, tendo apenas um irmão homem. Aprendi cedo o valor da mulher, a força que elas têm e a jornada dupla que enfrentam no trabalho fora e em casa. Lá todo mundo fazia de tudo, lavava a louça, limpava a casa, sem essa de tarefa de homem e tarefa de mulher. Isso me livrou de crescer sob uma ótica machista ou achando que o serviço doméstico era obrigação feminina. Quando olho para trás, percebo que só saí ganhando com essa história.
Trip FM: Sua mãe era uma pessoa rígida, e imagino que precisasse ser para conduzir a família com tanta disciplina. Fico imaginando o que passou pela cabeça dela quando viu que você, aos 9 anos, foi atrás de um curso de teatro.
Christian Malheiros: A gente nasceu na Baixada Santista, onde as opções mais comuns eram se capacitar para trabalhar na indústria em Cubatão ou no Porto de Santos. Não existia uma cultura voltada para o ensino superior, até por ser uma região povoada por imigrantes e por gente que buscava oportunidade imediata de trabalho para ajudar em casa. Eu comecei a fazer teatro escondido da minha mãe. Aos 9 anos, abriu uma oficina na escola. Nunca tive o sonho infantil de ser ator, eu descobri que gostava e aquilo virou meu objetivo.
Eu era um aluno proativo, me inscrevi nas aulas de teatro e de dança, levei alguns colegas e assinei a autorização pela minha mãe para entregar na escola. Como meu desempenho escolar era bom, ela não desconfiou de início do motivo de eu ir também no período da tarde. Até o dia em que desconfiou e resolveu ir à escola ver o que estava acontecendo. Ela faltou ao trabalho, algo raríssimo, e apareceu na porta da sala. Fiquei congelado de medo. Ela só confirmou com o professor que eu estava lá e voltou para casa.
Naquele dia fiz de tudo para adiar a volta para casa com medo de apanhar. Quando finalmente cheguei, ela apenas perguntou se eu queria jantar. Ali percebi que ela aceitava a minha escolha.
Trip FM: Imagino a alegria dela vendo o seu sucesso, especialmente em Sintonia. Em entrevistas, você comentou que não precisou de laboratório para o papel por já conhecer essa realidade de perto. Como foi ler o roteiro pela primeira vez?
Christian Malheiros: A proximidade com o universo periférico, ter crescido na favela sem entrar para o crime, mas convivendo com a perda de amigos e primos para essa realidade, me trouxe uma consciência profunda sobre o que eu estava retratando. Eu entendia aquela dor e aquele sentimento. Por isso lia o roteiro com clareza e sentia a responsabilidade social de apontar o que precisava ser ajustado para retratar aquela vivência de forma digna.
Existe uma tendência no cinema nacional de marginalizar os personagens de periferia, tirar a humanidade deles e retratá-los como figuras sem empatia pelo próximo. Acho injusto. O meu trabalho foi no sentido oposto. O Nando está naquela situação, mas é um homem com família, com medo, com sentimento, pai de dois filhos. Ele não é um psicopata. O público pode não concordar com as ações dele, mas mesmo assim cria uma conexão, porque enxerga a humanidade ali.

Trip FM: O Nando tem essa dualidade marcante de ser durão e ao mesmo tempo amoroso, um bandido que chora, por exemplo. Sobre a parte técnica, vi nos bastidores que a produção tinha consultores para gírias e expressões do universo do crime. Como foi a preparação para o manuseio de armas e para as cenas de presídio, situações que você não viveu?
Christian Malheiros: A gente tem consultores que ajudam na criação do roteiro e acompanham cenas específicas no set. Na primeira temporada fiz aula de armas para entender o peso das réplicas, que são extremamente fiéis às verdadeiras. É preciso tomar cuidado para não normalizar o uso. Por ser um símbolo forte, peguei o hábito de devolver o equipamento imediatamente depois da gravação, para manter a consciência de que aquilo é só uma cena.
As cenas no presídio trazem uma carga emocional impressionante. Lembro de gravar uma sequência na solitária e sentir uma dúvida profunda sobre o que eu estava fazendo ali, entrando num desespero real. O diretor Johnny Araújo me ajudou ao notar que aquela aflição era exatamente o sentimento do personagem preso. Para imprimir a fraqueza e a palidez da solitária, cheguei a gravar com fome naquele dia.
Trip FM: Conheço o KondZilla e sei que a ideia inicial da série veio dele. Como foi o envolvimento dele ao longo do projeto?
Christian Malheiros: O KondZilla é a grande alma por trás de Sintonia. Ele concebeu a história e dirigiu a primeira temporada ao lado do Johnny Araújo. Foi ele que determinou que o foco seria a periferia de São Paulo, os sonhos e os dilemas daqueles personagens. A partir da segunda temporada ele não esteve na direção por conta de outros projetos, mas seguiu presente na concepção dos roteiros e na evolução das ideias. A gente entende a motivação de cada personagem graças à visão do KondZilla.
Trip FM: Quando você veio para São Paulo, tudo aconteceu muito rápido. Você chegou sem nenhuma garantia financeira e, perto dos 20 anos, virou uma figura famosa e referência na periferia. Como foi essa transição instantânea para a fama?
Christian Malheiros: Comecei no teatro muito novo e me formei na Baixada Santista. Para pagar os cursos, o transporte e a alimentação, eu vendia água na praia. Chegou um momento em que percebi que precisava mudar para São Paulo se quisesse viver da atuação. Juntei dinheiro e fui acolhido por pessoas generosas na capital. Já tinha sete anos de experiência em oficinas e cheguei trabalhando no bastidor do teatro, varrendo palco e descarregando caminhão para conseguir uma oportunidade. Em paralelo, fazia bico de tudo quanto é tipo. Consegui uma peça e, em seguida, surgiram os testes para Sintonia. Na verdade, quase não fui aos testes, achando que iam ocupar o tempo que eu precisava para arrumar um emprego. Insistiram e eu acabei indo. Quando a série estreou e estourou, minha cabeça deu um nó. Da noite para o dia eu não conseguia andar na rua, ir ao mercado ou tomar um café sem ser abordado a cada cinco minutos.
No começo foi difícil lidar com essa exposição. As pessoas têm a ideia errada de que o sucesso na série significa enriquecimento imediato. Eu não estava rico. Na real, eu precisava usar transporte público e não tinha mais paz para andar de ônibus ou metrô, e ao mesmo tempo não tinha dinheiro para pegar táxi ou aplicativo o tempo todo.
Trip FM: Você mencionou que não era rico naquela época. Queria entender como funciona a parte financeira e de negócios na carreira de quem sai do zero e engata um grande sucesso. Pegando carona no fato de que Sintonia aborda muito a ascensão econômica e social e a conquista de espaço, você chegou à estabilidade que buscava?
Christian Malheiros: Para quem vem da periferia e é filho de mãe nordestina, tranquilidade financeira se traduz em ter casa própria e um carro. A casa é o principal objetivo. Cresci ouvindo minha mãe dizer que a pessoa precisa ter o seu teto para morar. A ideia de morar de aluguel para investir dinheiro não faz sentido na nossa realidade, porque quem é da periferia sente uma insegurança enorme em não ter moradia garantida. A prioridade é garantir o cuidado e o bem-estar da minha mãe, que já é uma senhora. Consegui trazer essa tranquilidade para a minha vida e para a dela, mantendo a responsabilidade com os gastos, porque sei exatamente de onde vim.

Trip FM: Conversando com o Milhem Cortaz, falamos sobre o risco de o ator ficar preso a um perfil de personagem. No caso dele, figuras rústicas, casca-grossa. Diante do impacto do Nando, passa pela sua cabeça o receio de ficar marcado num tipo só?
Christian Malheiros: Esse receio sempre existe, porque o audiovisual ainda reproduz padrões racistas. É muito fácil tentar limitar um ator preto e periférico a uma única caixinha. Depois de Sintonia, surgiram vários convites para papéis parecidos. Eu não me recuso a interpretar outros jovens de periferia ou pessoas ligadas ao crime, são histórias que precisam ser contadas. A questão é quando a indústria só oferece esse tipo de narrativa para mim. Essa é a minha luta constante, e não tenho medo de recusar papéis e explicar os motivos da recusa para as produções. É necessário mandar sinais para construir uma nova visão sobre corpos pretos no audiovisual. Quase sempre os personagens negros são pensados e escritos sem uma família estruturada, sem acesso à educação, sem perspectiva. Por que não retratar personagens pretos com pai, mãe e oportunidade de estudo?
Somos plurais e temos diversas histórias para contar. Eu não faço cinema a qualquer custo ou só para aparecer, faço para transmitir uma mensagem relevante. Se a indústria me enxerga apenas em papéis estereotipados, aí temos um problema sério. No meu caso, o julgamento vem em dobro, porque a cor da minha pele chega antes de qualquer outra característica. A nossa briga é para mudar essa realidade de forma definitiva.
Trip FM: Sintonia acompanhou vocês por anos, desde bem jovens até a vida adulta. Como é olhar para essas imagens antigas e ver o tempo passando no seu rosto, no seu corpo e no seu jeito de atuar?
Christian Malheiros: É um processo bonito e curioso ao mesmo tempo. Quando vejo o amadurecimento do Nando em tela, enxergo também a minha evolução pessoal. Meu corpo mudou, minha voz mudou, a maturidade foi chegando. Fui adquirindo outro entendimento sobre a vida e sobre a profissão. Analisar essa trajetória e perceber as marcas que hoje carrego é uma sensação incrível. É o registro do tempo gravado pelo audiovisual, uma coisa que considero um presente.
Trip FM: Agora você reencontrou o personagem em Nando Entre Dois Mundos, contando uma história que se passa cinco anos depois. Como foi voltar a um papel do qual você já tinha se despedido?
Christian Malheiros: Reencontrar o Nando depois de ter vivido a despedida na quinta temporada foi incrível, até porque ele sempre me desafia. Busco nesse filme demonstrar que ele está em outra fase, com novas responsabilidades e vivências. Neste projeto específico, busquei transmitir o cansaço acumulado. O Nando sempre teve vigor, mas a vida que ele leva cobra um preço, desgasta.
Trip FM: Você mencionou o receio de ter o sucesso do Nando limitando seus papéis a um perfil só. Passado o auge do fenômeno da série, como você avalia sua carreira hoje? A visibilidade abriu as portas que você queria?
Christian Malheiros: Os estereótipos sempre vão existir e cabe a nós lutar contra eles continuamente. Tenho conseguido lidar bem com isso, fazendo escolhas artísticas conscientes e recebendo convites interessantes. Sinto que consegui diversificar as minhas atuações e demonstrar a minha capacidade para diferentes abordagens. Protagonizo, por exemplo, o filme Justino: Nos Bastidores do Reino, do José Eduardo Belmonte, que conta a história de um ex-pastor evangélico depois de deixar a igreja, e que está na mostra competitiva do Festival de Gramado. Antes disso fiz Assalto à Brasileira, também do Belmonte, um “true crime” sobre o assalto ao Banestado em Londrina, ao lado do Murilo Benício. E vou rodar Faraó dos Bitcoins, dirigido pelo Sérgio Rezende, sobre o Glaidson Acácio dos Santos [ex-garçom condenado a 19 anos de prisão pelos crimes de organização criminosa e corrupção ativa].
Trip FM: Você sempre destacou que o Nando nunca poderia ser resumido a um simples bandido, por carregar afeto, medo e contradição. Com a filha adolescente do seu personagem no centro dessa nova trama, sua visão sobre ele mudou?
Christian Malheiros: Eu não julgo nenhum personagem que interpreto. Prefiro buscá-los na essência pura, e com o Nando não seria diferente, até por ser uma figura que me acompanha desde os meus 19 anos. A trajetória dele é marcada por grandes viradas, que alteram a percepção que ele tem da vida. Nesta etapa, a relação com a filha adolescente funciona como um divisor de águas. Ela não enxerga mais nele a figura do pai herói, consegue identificar as falhas e as ausências. É um pai que quer acertar, tentando exercer a paternidade da maneira que consegue, com as ferramentas que tem.
Trip FM: Na nossa primeira conversa, a gente encerrou o papo falando da despedida de Sintonia. Pergunto de novo: agora encerrou? O que você deseja que permaneça da imagem do Nando para quem assistir a essa história no futuro?
Christian Malheiros: Agora encerrou de fato. Este filme foi idealizado como um presente de agradecimento aos fãs de todo o Brasil que nos acompanharam com carinho ao longo dos anos. Espero que, daqui a dez anos, ao olharem para o Nando, as pessoas compreendam com clareza que o crime não compensa em nenhuma hipótese. Quero que fique a mensagem de que todo mundo merece e pode ter a chance de recomeçar.








