82% das exportações do agro brasileiro aos EUA ficaram de fora das exceções do tarifaço de Trump

Levantamento feito pelo Estadão/Broadcast revela que, de janeiro a junho deste ano, apenas US$ 1,2 bi dos embarques do agro estariam isentos da alíquota de 50%

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Foto do autor Isadora Duarte
Foto do autor Cícero Cotrim
Atualização:

BRASÍLIA - A lista de exceções do governo norte-americano ao tarifaço de 50% a ser imposto sobre produtos brasileiros deixou 82% de tudo que foi exportado pelo agronegócio brasileiro aos Estados Unidos no primeiro semestre deste ano fora das isenções - um valor correspondente a US$ 5,412 bilhões.

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Levantamento exclusivo feito pelo Estadão/Broadcast revela que apenas US$ 1,220 bilhão dos embarques do agronegócio foram contemplados com a retirada da tarifa adicional de 40% oficializada nesta quarta-feira, ficando sujeitos apenas à tarifa de 10%.

O montante equivale a 18% dos US$ 6,631 bilhões de produtos agropecuários exportados, segundo o Agrostat - sistema de estatísticas de comércio exterior do agronegócio brasileiro, gerido pelo governo federal.

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A reportagem cruzou os códigos da Tabela Tarifária Harmonizada dos Estados Unidos (HTSUS), conforme listado no anexo da ordem executiva do governo norte-americano, com os códigos das Nomenclaturas Comuns do Mercosul (NCMs) que constam no Agrostat.

Entre os principais produtos do agronegócio exportados aos Estados Unidos, suco de laranja, celulose e castanha foram poupados da sobretaxa, ficando apenas expostos à taxa de 10% em vigor desde 5 de abril. Entretanto, café, carne bovina, frutas, pescados, açúcar e etanol e cacau seguem no tarifaço.

Café, carne bovina, frutas, pescados, açúcar e etanol e cacau seguem no tarifaço de Trump Foto: Bruna Prado/AP

Considerando o total de NCMs de produtos exportados do agronegócio brasileiro ao mercado norte-americano de janeiro a junho, disponibilizado no Agrostat, de 789 itens, apenas oito NCMs foram contempladas. São elas:

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  • pasta química de madeira não conífera, à soda ou sulfato, semibranqueada ou branqueada;
  • sucos de laranja não congelados, não fermentados; sucos de laranja congelados e não fermentados;
  • pasta química de madeira para dissolução;
  • cordéis de sisal ou de outras fibras têxteis do gênero agave, para atadeiras ou enfardadeiras;
  • outras madeiras tropicais (cedro, ipê, pau-marfim, louro, etc), serradas, cortadas em folhas ou desenroladas, de espessura 6 mm;
  • pasta química de madeira não conífera, à soda ou sulfato, crua;
  • castanha-do-pará, fresca ou seca, com casca.

Por causa da diferença entre os códigos, alguns NCMs podem conter mais de um item da Tabela Tarifária Harmonizada dos Estados Unidos.

Dos 20 principais produtos agropecuários exportados aos EUA, apenas suco de laranja e pasta química de madeira de não conífera foram contemplados na lista de exceções à alíquota de 50%. Setores com embarques relevantes aos Estados Unidos como café verde, que os embarques de janeiro a junho somaram US$ 1,169 bilhão, carne bovina desossada e congelada (US$ 738 milhões) e sebo bovino (US$ 249 milhões) continuam prejudicados afetados pela tarifa de 50%.

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Havia expectativa de que café, manga e cacau fossem incluídos na lista de exceções, o que não ocorreu. A expectativa havia sido alimentada por conversas dos exportadores com suas contrapartes americanas e pela declaração feita pelo secretário do Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, que reconheceu que o país pode reconsiderar e isentar bens que não são cultivados em solo americano, como café, cacau, manga e abacaxi. Ele não citou o Brasil especificamente.

A tarifa entra em vigor daqui a sete dias para produtos que estão nos Estados Unidos e em 5 de outubro para os que forem embarcados em até 7 dias, de acordo com comunicado do governo dos Estados Unidos

Veja a seguir, a lista de 694 exceções à sobretaxa de 50% oficializada pela Casa Branca (é possível pesquisar por nome do item):

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‘Não tem lógica o café ficar entre os itens sobretaxados’

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Levantamento feito pelo Insper Agro Global a pedido do Estadão/Broadcast revela que, quando considerado o ano fechado de 2024, as exceções do governo norte-americano à alíquota de 50% imposta por Trump alcançam 20,8% do total de produtos agropecuários exportados pelo Brasil aos Estados Unidos.

Em valor nominal, as exceções contemplam US$ 2,512 bilhões de um total de US$ 12,082 bilhões em produtos do agronegócio nacional embarcados ao mercado norte-americano no último ano.

Na avaliação do coordenador do Insper Agro Global, Marcos Jank, essa lista de produtos isentos tem uma característica em comum que é o interesse das empresas americanas. Ele cita que empresas como Suzano, do setor de celulose, avaliam investimentos nos Estados Unidos e que indústrias importadoras de suco de laranja pressionaram o governo doméstico dada a exposição à bebida brasileira. “São produtos para os quais os Estados Unidos não têm substitutos em outros destinos”, pontuou o professor.

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A maior surpresa, segundo Jank, foi o café ter ficado fora da lista de isenções, já que 76% dos americanos consomem café e o Brasil é o principal fornecedor. “Não tem lógica o café ficar entre os itens sobretaxados, porque a ideia inicial das tarifas recíprocas era focar o superávit comercial e o incentivo à reindustrialização, o que não vai ocorrer com o café que não é cultivado”, observou.

A expectativa, afirma Jank, é que mais produtos entrem na lista de exceções, sobretudo aqueles que não são cultivados no território norte-americano. “Acredito que na próxima lista deve vir isenção para produtos tropicais como café, cacau e manga. Não tem razão para esses produtos ficarem na taxação cheia”, apontou o coordenador do Insper Agro Global.

A maior dúvida em relação aos principais produtos agropecuários exportados pelo Brasil aos EUA, pontuou Jank, é se haverá exceção à carne bovina. As exportações brasileiras ao mercado norte-americano foram recordes no ano passado e tem sido crescentes em virtude da redução do rebanho bovino local.

“A Austrália ou outros fornecedores, como Canadá e México, não tem a carne que eles precisam em volume e especificidades. Se a carne for mantida com tarifa total de 50%, vai ser um problema para a produção de hambúrgueres deles porque o Brasil é o grande fornecedor dos recortes dianteiros. Contudo, diferente dos produtos tropicais, a carne é produzida também pelos Estados Unidos e os países são concorrentes no mercado mundial”, afirmou o professor.

Na análise de Jank, a proteína merece atenção nas tratativas bilaterais, sobretudo pelo potencial impacto do produto no índice de inflação local.