O presidente Donald Trump anunciou uma série de tarifas desde que assumiu o cargo em janeiro, parte de um esforço abrangente que, segundo ele, garantiria melhores termos comerciais com outros países. “Isso se chama negociação“, disse ele recentemente.
Em abril, autoridades do governo prometeram assinar acordos comerciais com até 90 países em 90 dias. A meta ambiciosa veio depois que Trump anunciou, e posteriormente revogou parte delas, tarifas elevadas que, em alguns casos, faziam com que os impostos de importação custassem mais do que o preço de atacado do próprio produto.
A meta de 90 dias, no entanto, representa um décimo do tempo normalmente necessário para se chegar a um acordo comercial, de acordo com uma análise do New York Times sobre os principais acordos com os Estados Unidos em vigor. Isso levanta questões sobre o quão realista a meta do governo pode ser. Normalmente, leva 917 dias, ou cerca de dois anos e meio, para um acordo comercial passar das negociações iniciais até a mesa do presidente para assinatura, mostra a análise.
Cerca de 60 dias após o início do processo atual, Trump anunciou até agora apenas um acordo: um pacto com a Grã-Bretanha, que não é um dos maiores parceiros comerciais dos Estados Unidos.
Ele também sugeriu que as negociações com a China têm sido difíceis. “Gosto do presidente XI, da China, sempre gostei e sempre gostarei, mas ele é muito duro e extremamente difícil de fazer um acordo!!!”, escreveu Trump no Truth Social na quarta-feira, 4. A China e os Estados Unidos concordaram no mês passado em reduzir temporariamente as tarifas sobre as importações um do outro, em um gesto de boa vontade para continuar as negociações.

Parte do que o presidente pode realizar se resume ao que podemos chamar de acordo.
O pacto com o Reino Unido é menos um acordo do que uma estrutura para discutir um acordo, disse Wendy Cutler, vice-presidente do Asia Society Policy Institute e ex-negociadora comercial dos EUA. O que foi oficialmente divulgado pelas duas nações se assemelhava mais a pontos de discussão sobre “o que se iria negociar do que ao compromisso real”, disse ela.
Durante seu primeiro mandato, Trump garantiu dois grandes acordos comerciais, ambos assinados em janeiro de 2020. Um deles foi o Acordo Estados Unidos-México-Canadá, uma reformulação do tratado de livre comércio da América do Norte da década de 1990 que ajudou a transformar as economias das três nações.
O USMCA é um acordo abrangente e juridicamente vinculativo que resultou de um processo longo e formal, de acordo com analistas comerciais.
Tais acordos devem abranger todos os aspectos do comércio entre as respectivas nações e são negociados sob diretrizes específicas para consulta ao Congresso. A conclusão do acordo envolve tanto a negociação quanto a ratificação − modificando ou criando leis em cada país parceiro. Os acordos são assinados por negociadores comerciais antes que o presidente sancione a legislação que os coloca em vigor para os Estados Unidos.
O outro acordo importante de Trump em seu primeiro mandato foi com a China, ecoando a atual guerra comercial. O pacto, diferentemente de acordos anteriores, surgiu após Trump ameaçar impor tarifas sobre certas importações chinesas. Essa abordagem de “tarifas primeiro, negociações depois” faz parte do mesmo manual que o governo está usando atualmente, diz , Inu Manak, pesquisadora de política comercial do Conselho de Relações Exteriores.
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O resultado foi um acordo não vinculativo entre os dois países, conhecido como “Fase Um”, que não exigia aprovação do Congresso e poderia ser rescindido por qualquer uma das partes a qualquer momento. Mesmo assim, levou quase um ano e nove meses para ser concluído. A China acabou ficando muito aquém dos compromissos assumidos de compra de produtos americanos no âmbito do acordo.
Uma comparação entre os dois acordos do primeiro mandato de Trump mostra o caminho longo e, às vezes, sinuoso que cada um percorreu até sua conclusão. Tréguas frágeis (incluindo aquelas de 90 dias) foram firmadas, apenas para as negociações fracassarem posteriormente, enquanto rodadas de tarifas injetavam incerteza nas relações diplomáticas entre os países.
A análise do Times utilizou a data desde o início das negociações até a data da assinatura do presidente para determinar a duração da negociação de cada acordo importante, desde 1985 e atualmente em vigor. O tempo médio necessário para a assinatura do presidente foi de pouco mais de 900 dias. (Uma análise separada publicada em 2016 pelo Instituto Peterson de Economia Internacional utilizou a data da assinatura pelos representantes dos países como o momento da conclusão e constatou que a mediana da negociação levou mais de 570 dias.)
Faltando cerca de um mês para o prazo autoimposto pelo governo, a capacidade de Trump de fechar acordos foi repentinamente colocada em dúvida. Na semana passada, um tribunal comercial dos EUA decidiu que ele havia excedido sua autoridade ao impor as tarifas de abril.
Por enquanto, as tarifas permanecem em vigor, após uma suspensão temporária de um tribunal federal de apelações. Mas, ao defender seu caso, o governo federal afirmou inicialmente que a decisão poderia prejudicar as negociações com outras nações e minar a influência do presidente.
Em uma declaração na quarta-feira, Kush Desai, um porta-voz da Casa Branca, disse que os negociadores comerciais estavam trabalhando para garantir “acordos comerciais personalizados na velocidade da luz que nivelem o campo de atuação para as indústrias e trabalhadores americanos”.
Mas em outras declarações públicas recentes, autoridades da Casa Branca reduziram significativamente suas ambições para os acordos.
Em abril, Scott Bessent, secretário do Tesouro, estimou o número de acordos que poderiam ser alcançados, sugerindo que os Estados Unidos conversariam com algo entre 50 e 70 países. No mês passado, ele afirmou que os Estados Unidos estavam negociando com 17 “relações comerciais muito importantes”, sem incluir a China.
“Acho que quando o governo começou, eles pensaram que conseguiriam fechar esses acordos vinculativos e executáveis em 90 dias, mas logo perceberam que estavam dando um passo maior do que podiam fazer”, disse Cutler.
O governo instruiu seus parceiros de negociação a apresentarem ofertas de concessões comerciais até quarta-feira, em um esforço para fechar acordos comerciais nas próximas semanas. O prazo foi divulgado anteriormente pela Reuters.
A abordagem atual para a negociação pode ser estratégica, disse Manak. Um dos benefícios de não se chegar a um acordo abrangente como o USMCA é que o governo pode declarar pequenas “vitórias” em um prazo muito mais curto, disse ela.
“Isso significa que os acordos comerciais simplesmente não são mais o que costumavam ser”, acrescentou. “E não há como garantir que tudo o que os EUA prometem será realmente cumprido a longo prazo.” /COLABOROU ANA SWANSON
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