Caso Master: Fundos de pensão de servidores de Estados e municípios podem perder quase R$ 2 bi

Segundo dados do Ministério da Previdência, 18 fundos de pensão de funcionários públicos de Estados e municípios fizeram investimentos em títulos da instituição financeira

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Banco Master: De banco mineiro que oferecia CDB de 140% a alvo da PF e do BC

Conheça a trajetória da instituição de Vorcaro, preso quando tentava fugir do Brasil, segundo a PF. Crédito: Alvaro Gribel

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

O Banco Central decretou a liquidação do Banco Master, afetando mais de 1 milhão de investidores que serão ressarcidos pelo FGC. No entanto, fundos de pensão de servidores públicos, com quase R$ 2 bilhões investidos, enfrentam riscos de perdas. O Rioprevidência, maior investidor, tenta reverter aplicações. O Amprev e Maceió Previdência também estão expostos. A situação levanta questões sobre a governança e normas dos Regimes Próprios de Previdência Social, segundo Allex Albert Rodrigues, do Ministério da Previdência.

SÃO PAULO e BRASÍLIA — Enquanto mais de 1 milhão de investidores que compraram títulos do Banco Master serão ressarcidos por recursos do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), os aportes feitos por entidades de Previdência de Estados e municípios estão expostos à liquidação do banco e correm risco de perdas.

Segundo dados do Ministério da Previdência, 18 fundos de pensão de servidores públicos fizeram investimentos que somam quase R$ 2 bilhões em papéis do banco. Procuradas, as instituições (exceto Rioprevidência, Amprev e Maceió Previdência — leia mais abaixo) não responderam.

As aplicações se deram em letras financeiras do Master, títulos que ajudaram a financiar o avanço do banco depois que o Banco Central apertou a regulação para as captações voltadas a investidores pessoa física, por meio dos Certificados de Depósitos Bancários (CDBs), até então a principal fonte de financiamento do grupo.

BC decretou a liquidação do Banco Master, e a PF isolou a sede do banco na Faria Lima Foto: Werther Santana/Estadão

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Tradicionalmente voltada para investidores profissionais, as letras financeiras não têm cobertura do FGC. O Master emitiu um total de quase R$ 3 bilhões do papel. Desse total, R$ 1,8 bilhão de fundos de pensão de Estados e municípios, com recursos voltados para a aposentadoria futura de servidores públicos.

A liquidação do Banco Master foi decretada nesta terça-feira, 18, pelo Banco Central, depois de divulgada uma oferta de compra da instituição na segunda-feira, 17. Após a publicação do decreto de liquidação, o FGC informou que 1,6 milhão de investidores detêm títulos sujeitos à cobertura do seguro.

Já os investidores que estão fora dessa garantia, como os fundos de pensão, só conseguirão saber quanto será possível resgatar das aplicações no processo de liquidação dos ativos, que costuma se arrastar por anos.

Veja abaixo os investidores com exposição a títulos do Master

  • Rioprevidência: R$ 970 milhões
  • Amprev: R$ 400 milhões
  • Maceió: R$ 97 milhões
  • Prefeitura de São Roque (fundo de pensão): R$ 93,15 milhões
  • Cajamar (fundo de pensão): R$ 87 milhões
  • Itaguaí (RJ): R$ 59,6 milhões
  • Amazonprev (AM): R$ 50 milhões
  • Aparecida de Goiânia (GO): R$ 40 milhões
  • Araras (SP): R$ 29 milhões
  • Congonhas (MG): R$ 14 milhões
  • Santo Antônio da Posse (SP): R$ 7 milhões
  • Campo Grande (MS): R$ 1,2 milhão
  • Angélica (MS): R$ 2 milhões
  • Fátima do Sul (MS): R$ 7 milhões
  • Jateí (MS): R$ 2,5 milhões
  • Paulista (PE): R$ 3 milhões
  • São Gabriel do Oeste (MS): R$ 3 milhões
  • Santa Rita d’Oeste: R$ 2 milhões

Fonte: Balanços e institutos de previdência

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Rioprevidência

A maior exposição às letras do Banco Master está concentrada na entidade de previdência dos servidores do Estado do Rio de Janeiro. O Rioprevidência aplicou cerca de R$ 1 bilhão nos papéis. Em nota, a instituição informou que tenta reverter suas aplicações em Letras Financeiras emitidas pelo Banco Master por precatórios federais.

Segundo o fundo, os papéis foram emitidos entre outubro de 2023 e agosto de 2024, com vencimentos previstos para 2033 e 2034. Atualmente, a autarquia está em negociação para substituir as letras por precatórios federais.

“O Rioprevidência ressalta ainda que o pagamento de aposentadorias e pensões está garantido, não havendo nenhum risco para os segurados do Estado do Rio de Janeiro. Cabe destacar ainda que o valor investido junto à instituição é inferior ao da folha mensal paga pela autarquia aos aposentados e pensionistas, hoje em R$ 1,9 bilhão, custeada em grande parte pela receita de royalties e participações especiais”, acrescentou o fundo de previdência.

“As aplicações foram realizadas em conformidade com todos os regramentos vigentes à época e de acordo com o Plano Anual de Investimentos aprovado pelo conselho de administração da Autarquia”, completou a nota.

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Irmão de Alcolumbre

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O segundo mais afetado pelos papéis do Banco Master é o fundo de pensão do Estado do Amapá (Amprev), com R$ 400 milhões.

O Amprev tem entre os seus conselheiros o advogado Alberto Alcolumbre, irmão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e aplicou, neste ano, também R$ 250 milhões em letras financeiras do BRB, numa operação irregular, já que a compra de títulos de bancos públicos é proibida a entidades de previdência de servidores.

Em nota, o Amprev diz que acompanha o caso “de forma técnica para garantir a proteção do patrimônio previdenciário. “Os pagamentos a aposentados e pensionistas estão assegurados. Os recursos que garantem os benefícios permanecem preservados e sob gestão responsável”, afirma a entidade.

No comunicado, o Amprev informou que as aplicações realizadas no Banco Master seguiram as normas dos Regimes Próprios da Previdência Social (RPPS). “À época dos investimentos, a instituição estava autorizada pelo Conselho Monetário Nacional a operar com regimes próprios em todo o país.”

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Maceió Previdência

O fundo de pensão Maceió Previdência, dos funcionários públicos da prefeitura da capital de Alagoas, comprou R$ 97 milhões de letras financeiras do Master.

O Maceió Previdência afirmou à reportagem que, a despeito da liquidação do Banco Master, os pagamentos aos aposentados e pensionistas estão garantidos.

“O patrimônio do Maceió Previdência atingiu recentemente a marca recorde de R$ 1,4 bilhão, e os investimentos realizados em títulos do Master representam menos de 10% desse total”, disse a instituição, ressaltando que, à época das aplicações, o banco estava habilitado no Banco Central e no Ministério da Previdência e contava com grau de investimento de agência de avaliação de risco. Além disso, os investimentos foram realizados de acordo com as regras e aprovados pelo conselho de administração, afirma, por meio de nota.

“O Maceió Previdência está em contato com os órgãos reguladores, especialmente o Banco Central, para se inteirar sobre o processo de devolução dos recursos investidos e desdobramentos da liquidação da instituição financeira, representando aposentados e pensionistas e exigindo seus direitos”, diz.

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A maior parte dessas operações feitas em títulos do Master é alvo de apurações e auditorias por tribunais de contas em todo País. No Rio de Janeiro, o Tribunal de Contas do Estado proibiu, em outubro, a entidade de fazer novos aportes em produtos ligados ao Master após identificar que o instituto continuou a fazer operações com o banco, apesar de recomendação contrária.

Outros investimentos

Além dos fundos de pensão, outras instituições aplicaram recursos milionários em títulos do Master. O Banco da Amazônia comprou R$ 40 milhões em letras financeiras do grupo.

Como mostrou o Estadão/Broadcast, a Cedae, estatal de água do Rio, aplicou R$ 200 milhões do caixa da companhia em CDBs do banco.

Em comunicado ao mercado, a empresa informou que está avaliando os impactos financeiros da liquidação do Master. A estatal diz que tentou fazer o resgate dos títulos, mas a operação foi suspensa e o grupo terá de proceder à habilitação do crédito junto ao liquidante designado pelo Banco Central.

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“A companhia esclarece que está avaliando os impactos financeiros decorrentes do evento, bem como adotando todas as providências cabíveis para a preservação de seus direitos, inclusive no âmbito do processo de liquidação.”

A Oncoclínicas também ficou com mais de R$ 1 bilhão em papéis do Master, saldo reduzido para R$ 433 milhões, conforme informou a companhia nesta terça-feira.

Normas em xeque

Na avaliação do diretor do Departamento dos Regimes Próprios de Previdência, Allex Albert Rodrigues, as normas que regem entidades de Regime Próprio de Previdência Social (RPPS) — aquelas que são instituídas por entes federativos (como os Estados e os municípios) — precisam ser aperfeiçoadas.

Ele cita a necessidade de exigência de maior diversificação das aplicações, de análises de risco e de mais critérios de governança nas instituições financeiras investidas. Com os aprimoramentos, afirmou Rodrigues, seria possível evitar casos como o da RioPrevidência, que aportou quase R$ 1 bilhão no Banco Máster.

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“A norma poderia exigir maior patamar de governança e solidez quando forem feitas grandes aplicações”, disse. O departamento está aninhado no Ministério da Previdência Social e não tem poder sancionador.

“Verificamos o cumprimento da norma — a resolução CMN 4963/2021 —, a Lei Geral do Regime Próprio, os processos decisórios dos investimentos, as análises de risco e retorno, quem autorizou os aportes, se os limites, requisitos e objetivo foram cumpridos. Com isso, concedemos ou não o certificado de regularidade previdenciária”, explicou Rodrigues. “Mas, quando notamos, por exemplo, grandes movimentações ou outros indícios, alertamos os outros órgãos de fiscalização, como o Tribunal de Contas do Estado (TCE).”

Será preciso apurar as responsabilidades, disse Rodrigues. “É preciso saber por que foi feita a alocação dos recursos e, também, é preciso aguardar o processo de intervenção do Banco Central.”

O executivo enfatizou que, quando a RioPrevidência fez a compra de letras financeiras, estava enquadrada nas regras do segmento. “O banco seguia os requisitos para receber os aportes, com Comitê de Auditoria e de Risco Instituídos e classificação prudencial do Banco Central como S3.” Além disso, o aporte respeitava o limite de concentração, de 20% dos recursos em um mesmo emissor.

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Rodrigues comentou ainda que, embora as entidades de Regime Próprio formem um colchão de recursos e liquidez visando à aposentadoria, a obrigação de pagamento aos pensionistas é do ente federativo — Estado, município — que instituiu o sistema, não importando a situação da entidade no cumprimento das obrigações.