Foto: Wilton Junior/EstadãoDiretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, Solange Srour avalia que o comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) indica que, com a alta de 0,5 ponto porcentual anunciada nesta quarta-feira, 7, o Banco Central tenha parado de subir os juros. O Copom aumentou a taxa básica (Selic) para 14,75% ao ano — o maior patamar em 20 anos.
“(O comunicado) Está com uma linguagem muito próxima de fim de ciclo. Eu acho que o mercado vai interpretar dessa forma”, afirmou.
Com as incertezas provocadas pela guerra comercial desencadeada por Donald Trump, Solange avalia que a queda nos preços das commodities (matérias-primas cotadas em dólar), a desaceleração do crescimento global e a valorização do real em relação ao dólar são vetores de desinflação para o Brasil e colaboraram para a queda das expectativas de inflação entre os agentes do mercado.
“A impressão que dá é de que o cenário é desinflacionário para o mundo, exceto para os Estados Unidos”, afirma.
A seguir trechos da entrevista concedida ao Estadão.
Qual é a avaliação que a sra. faz da decisão do Copom?
A impressão que me dá é que realmente pararam (de subir os juros). Houve algumas mudanças importantes no comunicado. Primeiro, os riscos da inflação mudaram. Eles eram assimétricos para cima e, agora, você tem os riscos balanceados. Apesar de o Copom não escrever balanceados, tirou a palavra assimétrico. A projeção de inflação (no horizonte relevante de política monetária) saiu de 3,9% para 3,6%, e a próxima reunião está completamente em aberto. Está com uma linguagem muito próxima de fim de ciclo. Eu acho que o mercado vai interpretar dessa forma.
E a decisão do Fed (Federal Reserve, BC norte-americano)?
Eu acho que veio bem dentro do esperado. O Powell (Jerome Powell, presidente do Fed) disse que a incerteza está muito grande e falou que os riscos de inflação e da atividade estão elevados, mas ele não colocou um acima do outro. Então, com essa incerteza toda, o Fed não consegue avaliar se o risco para a inflação é maior do que para a atividade ou vice-versa. Ele não quis dar para o mercado nenhum tipo de guidance (orientação), e eu acho que a barra para a próxima reunião ainda é muito elevada para cortar, porque a incerteza vai continuar muito alta.
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Como os bancos centrais chegaram para as reuniões desta quarta-feira nesse cenário de guerra comercial provocada pelos EUA?
O contexto dessas reuniões é bem diferente do de 45 dias atrás, quando já havia uma incerteza muito grande. Mas, à medida que o tempo foi passando, a incerteza foi aumentando. A verdade é essa. Todo dia tem alguma novidade, algum tipo de ameaça ou suspeita. Na expectativa de sair algum tipo de negociação importante entre países e, principalmente, com a China, o mercado tende a se frustrar enquanto não sai algum tipo de meio-termo. E, enquanto nada sai, você fica com uma incerteza maior: será que vai ficar tudo do jeito que está mesmo? E o jeito que está é muito confuso. Não só confuso, mas deletério para a maioria dos países.
Obviamente, a extensão de uma ameaça tão grande quanto a que a gente está vivendo hoje é de difícil previsão. Tão difícil como foi o começo da pandemia. Mas, diferentemente da pandemia, é algo que o Fed não vê uma solução final. Na pandemia, a solução final era a chegada das vacinas. Mas, agora, o mundo está convergindo para uma situação na qual não estamos passando por um problema cíclico. Existe uma nova ordem global que vai ser colocada.
E o que esperar dessa nova ordem global?
Para os Estados Unidos, será inflacionária, mas para o resto do mundo parece ser desinflacionária. O Fed lida com uma incerteza de quanto esses desvios vão ser em relação à sua meta e num momento em que a economia continua mostrando uma resiliência importante. No primeiro trimestre, o PIB (dos EUA) foi negativo, porque houve muita antecipação de importação. As próprias confianças estão em patamares mais baixos, mas não estão indicando uma recessão.

E o impacto para o Brasil?
Antes dessa mudança no cenário internacional, antes do efeito das políticas do Trump levarem a um dólar fraco e a uma revisão de crescimento global, não havia um vetor fortemente desinflacionário no Brasil. As expectativas estavam desancoradas. A questão fiscal continua tão ou mais sem credibilidade do que era no final do ano passado, e a economia continua bastante resiliente. Houve aqueles sinais incipientes de desaceleração no final do ano, mas no começo de 2025 todos os indicadores mostram resiliência — desde o mercado de trabalho até a própria confiança, que não continuou caindo da maneira como caiu no final do ano passado.
Há indicadores bastante expansionistas de atividade que estão começando a impactar a economia. A gente sabe que o crédito consignado está com muita força, tem uma alta probabilidade de que os R$ 5 mil (isenção de Imposto de Renda) vão passar, e há outras medidas de crédito sendo anunciadas pelo governo. A gente também não viu desaceleração ou corte de nenhum tipo de programa de gasto social. Não havia vetor desinflacionário.
Quais são esses vetores desinflacionários para o Brasil?
Temos um vetor desinflacionário com a queda de commodities, com a queda dos preços industrializados que vão vir da China, diversificando seus mercados com preços menores e, provavelmente, com uma desaceleração global relevante. Esses fatores desinflacionários foram importantes, até agora, para fazer com que as expectativas de mercado caíssem, mas elas ainda estão em patamares muito acima de 3%. Não vão chegar a 3%, obviamente, porque a perna fiscal não permite e temos eleições (no ano que vem). O câmbio também está ajudando.
A sra. acredita que o BC brasileiro pode cortar os juros já este ano?
Eu acho que o Banco Central vai tentar passar a mensagem de que a taxa de juros precisa ficar prolongadamente restritiva na ata e nas suas comunicações oficiais. Ele vai querer afastar do mercado uma precificação de queda já no terceiro trimestre ou quarto trimestre.
Dito isso, é muito difícil ele conter o mercado, porque a maioria dos bancos centrais do mundo vai estar cortando os juros. Vai ser muito difícil o Banco Central conseguir conter o mercado nessa precificação. Não tem indicação nenhum sinal (no comunicado) de que o Copom esteja pronto para cortar, mas o mercado vai continuar precificando uma antecipação do ciclo de queda.





