Corridas de rua: como as empresas organizadoras fazem a gestão dos resíduos gerados nas provas

Parte dos materiais vem de embalagens plásticas com água distribuídas aos atletas; cada corrida gera uma média entre duas toneladas e quatro toneladas de resíduo

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Foto do autor Shagaly Ferreira
Atualização:

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Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

No Desafio da Ponte, corrida de 13,3 km na Ponte Rio-Niterói, organizadores enfrentaram o desafio de manter o percurso livre de resíduos plásticos. Com 90% de adesão, atletas devolveram 19 mil sachês de água em troca de medalhas. A logística complexa dos sachês foi testada para futuras maratonas. A gestão de resíduos, crucial em eventos esportivos, contou com a empresa Musa, que orquestra a coleta e destinação, promovendo a conscientização ambiental entre os participantes.

No mês passado, os milhares de participantes da corrida de rua Desafio da Ponte tiveram como missão cruzar, de ponta a ponta, os 13,3 quilômetros da Ponte Rio-Niterói, no Rio de Janeiro. Nos bastidores, os organizadores da prova enfrentaram uma empreitada diferente: fornecer água para a hidratação dos atletas e, ao mesmo tempo, manter livre de resíduos plásticos todo o percurso.

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A dimensão do desafio das empresas organizadoras, Dream Factory e Spiridon, não era nada desprezível. Além de a ponte ser o principal acesso entre os municípios fluminenses e precisar ser liberada quatro horas e meia após a largada, a estrutura está situada acima das águas da Baía de Guanabara.

Uma parte da solução encontrada foi instalar telas de proteção nos pontos de descarte pós-hidratação e posicionar barcos para coleta em torno da baía. Outra foi contar com a colaboração dos próprios atletas na recolha dos resíduos, em troca de uma medalha extra.

Desafio da Ponte foi realizado na Rio-Niterói Foto: Pedro Macedo/Desafio da Ponte

A segunda medida funcionou da seguinte forma: toda a oferta de água feita pelos organizadores nos pontos de hidratação foi por meio de sachês moles de plástico reciclável. Os participantes da corrida foram incentivados a guardar os saquinhos após o consumo durante o percurso, e, acima de três unidades guardadas e entregues nos locais de coleta, eles receberam uma versão em miniatura da medalha oficial.

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Os dados oficiais apontaram que a porcentagem de adesão dos corredores foi de 90%, com mais de 19 mil sachês devolvidos e 4.083 medalhinhas retiradas. Segundo os organizadores — que também são responsáveis pela Maratona do Rio —, os resíduos, entre os gerados no evento e coletados da Baía de Guanabara, foram encaminhados para uma cooperativa de reciclagem, por meio da empresa especializada Boomerang.

Atletas trocaram resíduos por medalhas no Desafio da Ponte Foto: Gilberto Dutra/Desafio da Ponte

Apesar da grande adesão, a tarefa de adotar os sachês no lugar dos copos plásticos para facilitar a ação foi mais trabalhosa, diz o diretor de produto do Desafio da Ponte e da Maratona do Rio, Pedro Pereira. “O ponto de dificuldade é que a logística do sachê cheio de água é mais difícil do que a do copo, pois não conseguimos empilhar paletes na mesma altura em ambos os casos, e a nossa logística cresceu em 30%. Precisamos de mais espaço e transporte”, explica. “Usamos o Desafio da Ponte para testar esse modelo. Estamos estudando como viabilizar o uso desse material na Maratona.”

No entanto, segundo o gestor, o principal fator positivo na recolha dos materiais foi o envolvimento dos atletas com a tarefa. “Com isso, conseguimos controlar a operação de tal forma que a geração de resíduo foi mínima. Fizemos a comunicação sobre o ponto correto de descarte, mas dependíamos do atleta para jogar o saquinho nessa área. Se ele jogasse depois, seria um problema para nós. Então, a conscientização foi fator chave para isso funcionar. E escolhemos o item mais valioso para o atleta (para ser dado em troca: uma medalha).”

Volume de resíduos

O trabalho das empresas organizadoras de corridas para fazer a gestão correta dos resíduos gerados aumenta na mesma medida que cresce a popularização das provas no Brasil.

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De acordo com dados de 2024 do relatório “Perfil do Atleta Brasileiro”, feito pela plataforma de ingressos para eventos esportivos Ticket Sports, somente entre sua base de clientes as inscrições para corridas de rua representaram 87% das suas vendas de um total de 1,8 milhão de ingressos vendidos para eventos esportivos na plataforma.

Em 2023, o número de vendas para as corridas já correspondia a 82,4% de um total de 1,3 milhão de inscrições vendidas no site.

Com corridas cada vez mais cheias de participantes, é possível encontrar registros de provas que variam entre quase 5 mil participantes, como no Desafio da Ponte, e 60 mil inscritos, como na Maratona do Rio.

A produção de resíduos sólidos em eventos como esses oscila entre os portes das corridas, podendo gerar uma média entre duas toneladas e quatro toneladas, segundo informações da empresa gerenciadora de resíduos, Musa.

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Parte dos resíduos descartados é dos que auxiliam o fornecimento de água e isotônico para os atletas, já que as provas comumente oferecem pontos de hidratação ao longo do percurso. São milhares de copos, sachês e garrafas de plástico, ou latas em alguns casos.

Há também a presença de embalagens de alumínio e de plástico que envolvem barrinhas de proteínas e géis de carboidratos. Como são produtos de apoio à performance, eles são descartados, de forma geral, nas laterais das vias, após o consumo.

Dos resíduos orgânicos, são mais comuns as cascas das bananas que são entregues com frequência após a linha de chegada aos atletas. Segundo a Musa, dos materiais descartados pelos atletas, 90% correspondem a resíduos recicláveis.

Todo o material precisa ser recolhido em tempo curto, após o final do evento, pelas empresas organizadoras, principalmente no caso das provas que acontecem em vias com trânsito de veículos, interditadas com limite de tempo. É então que entra o trabalho não só de coleta rápida dos itens descartados, como de separação e destinação adequada de cada tipo de resíduo.

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Ponto de hidratação com isotônicos, na Maratona de São Paulo, em 2025 Foto: Maratona de São Paulo/Divulgação

Com 700 clientes, a Musa dá suporte às organizadoras de corrida. Segundo o CEO, Martin Junck, uma das especialidades da empresa é gerenciar todo tipo de resíduo gerado nesses eventos, desde os itens orgânicos até os recicláveis. A companhia não é uma cooperativa, mas tem no portfólio prestadores de serviços que são acionados por região e por tipo de resíduo.

“Nós orquestramos todo o universo do resíduo, da geração até a destinação. Temos os portais que são utilizados pelos clientes, nos quais há todas as informações operacionais, financeiras e de compliance. E quem recebe o resíduo também está conectado à nossa tecnologia para fazer a comprovação final da jornada e as comprovações legais e ambientais.”

Percurso do SP City Marathon após local de hidratação Foto: Adam Tavares/SP City Marathon

Para que a operação de coleta seja rápida, ele explica que é feito um estudo prévio com dados fornecidos pelas organizadoras, como expectativa de tráfego de pessoas, quais são os pontos e os tipos de consumo.

Com uma base de dados interna, é possível mapear a estrutura necessária para implantar pontos de descarte e conectar o parceiro logístico adequado para cada coleta, além do gerenciamento da destinação.

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Quando há a colaboração do público corredor na hora do descarte, os ganhos financeiros com a reciclabilidade dos produtos são maiores, acrescenta. “Há um ponto em que o custo do resíduo está intrínseco a questões logísticas. Fatores como distância, varredura, resíduo espalhado tendem a ter maior custo logístico e menos margem na ponta. Quanto mais exposto ao meio ambiente, ele perde um pouco das suas características e dos índices de reciclabilidade, portanto, ele vale menos.”

Grandes organizadoras

Empresa responsável por organizar a SP City Marathon, que reuniu 24,2 mil pessoas em São Paulo no mês de julho, a Iguana Sports faz a gestão dos resíduos das suas corridas com a ajuda da Musa. Na prova, que teve distância máxima de 42,2 quilômetros, foram coletadas 8,1 toneladas de resíduos recicláveis, em parceria com a empresa.

O trabalho exigiu seis coletas com caminhão roll-on para recolha das caçambas com resíduos de rejeito (que não têm mais potencial para reciclagem) e recicláveis.

Ao longo de 2024, a Iguana Sports afirma ter recolhido, via Musa, quase 18 toneladas de resíduos. O montante reaproveitado deu origem a 8,7 toneladas recicladas, 6 toneladas destinadas à geração de energia e 130 quilos utilizados para adubo orgânico, segundo dados da empresa.

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Percurso limpo em trecho longe do ponto de hidratação, na SP City Marathon Foto: Roosevelt Cassio/SP City Marathon

Cada prova é acompanhada de um breve relatório de sustentabilidade, no qual constam essas informações, explica o diretor de operações da Iguana Sports, Paulo Carelli.

“Com esse trabalho conseguimos mensurar a quantidade gerada e realizar a devida compensação, conforme relatórios emitidos a cada evento”, afirma Carelli, também vice-presidente da Associação Brasileira dos Organizadores de Corrida de Rua e Esportes Outdoor (Abraceo).

A empresa Yescom, que organiza a Maratona Internacional de São Paulo, utilizou copos plásticos para os pontos de hidratação da prova, no início do ano. Segundo dados da companhia, foram 115 mil copos recolhidos após o evento.

“Os copos descartados foram coletados e transportados até uma cooperativa de catadores, na qual foram beneficiados e enfardados. Posteriormente, foram levados para a recicladora, em que os copos deram origem à resina reciclada”, disse a companhia ao Estadão.

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Atletas recebendo itens alimentícios na Maratona de São Paulo Foto: Maratona de São Paulo/Divulgação

Já a O2Corre é responsável por organizar uma das séries de corrida mais populares do Brasil, o Circuito das Estações, presente em diversos Estados. Ela também mantém um calendário de provas pontuais no País, como Girl Power Run, Eco Run e Night Run.

Para o Estadão, a empresa informou que nas corridas com público entre 7 mil e 14 mil pessoas, em média, 610 quilos de recicláveis são repassados para as cooperativas e 411 quilos de orgânicos são encaminhados para compostagem.

“Em todos os eventos de corrida, adotamos práticas responsáveis para minimizar os impactos ambientais e promover a conscientização entre os participantes. Uma das nossas principais ações é a separação dos resíduos na arena do evento, com a instalação de estações de coleta seletiva para resíduos orgânicos e recicláveis. Esse material é destinado corretamente por meio de parcerias com cooperativas locais, que garantem o reaproveitamento e a destinação adequada dos resíduos”, informou a organizadora, em nota.

Visibilidade para reciclagem

Para o gestor da Musa, ter estratégias adequadas à coleta e destinação desses resíduos é só uma parte do processo. É necessário, diz ele, que haja visibilidade de todos os atores envolvidos nesse trabalho, para mostrar ao participante que se engajar com a reciclabilidade desses itens descartados faz sentido. Desse modo, ele acredita que os atletas conseguem ter maior consciência de que, de fato, está havendo uma ação concreta de reaproveitamento dos materiais.

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Depois, todo ajuste logístico que aumente os pontos de coleta no percurso das provas é bem-vindo. “Ao endereçar pontos de descarte para o corredor a cada quilômetro, imagino que o participante vá esperar por eles, em vez de jogar na rua o resíduo. Mas isso passa, fundamentalmente, pela conscientização. Depois, passa pelos ajustes logísticos e operacionais”, avalia Junck.

No caso da Iguana Sports, testes estão sendo feitos para que a conscientização seja facilitada pelo trabalho logístico, como informa o diretor de operações da empresa.

Iguana Sports adotou recipientes de coleta em corrida recente Foto: Iguana Sports/Divulgação

Em sua corrida mais recente, Run The Bridge, realizada no domingo, em São Paulo, a organizadora instalou oito grandes cestos, com placas informativas, para coleta de resíduos em cada ponto de hidratação, em um percurso de 30 quilômetros.

“Praticamente zeramos a quantidade de copos no chão. (Vamos reproduzir o formato) em todas as corridas”, afirma Carelli.

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