Quais os principais desafios para implementar a IA nas empresas?
José Ronaldo Rocha, sócio da EY, fala sobre o tema no Rio Innovation Week. Crédito: Imagem e som: Leo Souza/Edição: Joaquim Macruz
Gerando resumo
Em meio às discussões sobre o avanço rápido da inteligência artificial (IA) e seus impactos no mercado de trabalho, CEOs de companhias de grande porte no Brasil estão planejando aumentar recursos destinados à tecnologia para otimizar operações dentro das empresas que presidem. Quase o dobro deles pretende elevar esses investimentos ao longo de 2026 frente ao montante alocado para o mesmo fim em 2025.
O diagnóstico vem da amostra referente ao Brasil do estudo global “CEO Outlook”, conduzido pela consultoria EY-Parthenon. Nele, 73% dos presidentes de empresas consultados no País afirmaram que pretendem aumentar os recursos destinados à IA para otimizar as atividades corporativas, principalmente para automatizar tarefas complexas, enquanto somente 28% pretendem mantê-los nos mesmos níveis. Em 2025, o porcentual dos que pretendiam elevar os investimentos na área era de 43%.
O mapeamento ouviu gestores de empresas com faturamento anual entre US$ 250 milhões (cerca de R$ 1,3 bilhão) e US$ 49,9 bilhões (cerca de R$ 259,5 bilhões), entre março e abril de 2026, de áreas como: consumo e saúde, serviços financeiros, indústria e energia, infraestrutura e tecnologia, mídia e telecomunicações. A amostra do Brasil, com 50 CEOs, é composta por 64% representantes de empresas de capital aberto.

De acordo com o porta-voz da pesquisa, Leandro Berbert, sócio de Estratégia e Transações da EY-Parthenon, a principal explicação para o aumento do apetite desses gestores pela IA nas operações está em uma mudança de chave entre expectativa e realidade. A tecnologia teria deixado de ser vista por eles como uma aposta experimental e passado a demonstrar resultados concretos para os negócios.
O estudo aponta que esses resultados vêm sendo percebidos e mensurados em áreas centrais. Com 42% das respostas, aparecem em primeiro lugar as áreas de operações principais ou produção, atendimento e experiência do cliente, além de estratégia e tomada de decisões. Em seguida, estão: cadeia de suprimentos e compras (38%); inovação de produtos ou serviços e vendas e marketing (26% cada); finanças e gestão de riscos (24%); e recursos humanos e gestão da força de trabalho (22%).
“Os CEOs já observam impactos relevantes em produtividade, atendimento ao cliente, operações e tomada de decisão, o que aumenta a confiança para ampliar investimentos. A discussão não é mais se a IA gerará valor, mas como acelerar sua adoção de forma estruturada”, diz. “Além disso, em um cenário de aumento dos custos operacionais e maior pressão por eficiência, a IA surge como uma das poucas alavancas capazes de combinar crescimento, produtividade e transformação do negócio simultaneamente.”
A pesquisa não mensura o porcentual exato de aumento dos aportes, mas a estimativa é de que os valores estejam sendo cada vez mais incorporados ao orçamento estratégico das empresas e não mais às iniciativas isoladas de inovação, explica Berbert.
“O que podemos afirmar é que o movimento atual é de expansão relevante dos investimentos, sobretudo porque as empresas estão migrando de projetos-piloto e provas de conceito para iniciativas em escala corporativa. Em geral, quando essa transição ocorre, os investimentos deixam de estar concentrados em experimentação e passam a contemplar infraestrutura, dados, segurança, treinamento de equipes e transformação de processos críticos.”
Impacto esperado da IA na força de trabalho
Para os próximos três anos, os CEOs entrevistados apontam que o domínio de estratégias de IA deve ser relevante para contratações. Entre as prioridades citadas por eles nesse período está aumentar vagas para funções ligadas à IA, dados e áreas digitais. O uso da tecnologia para redução de empregos aparece em baixa entre as prioridades, informada por somente 4% dos gestores ouvidos.
Segundo Berbert, a leitura, com base nessa perspectiva, é de que haja um uso da tecnologia muito mais voltado para eficiência e aumento de capacidade organizacional do que para substituição direta de profissionais.

“Os CEOs enxergam a IA como uma ferramenta para automatizar tarefas repetitivas, melhorar a qualidade das decisões e liberar tempo das equipes para atividades de maior valor agregado. (Por isso), a tendência predominante é de transformação do trabalho, e não de eliminação em larga escala de postos.”
Diante dos resultados da pesquisa, a recomendação para que as empresas usem essa tecnologia de forma estratégica e com boas práticas de governança é tratar a IA como uma agenda de transformação empresarial, e não apenas de tecnologia.
Berbert orienta que as empresas avancem simultaneamente em cinco frentes:
- Definir prioridades de negócio claras, focando casos de uso que gerem impacto mensurável;
- Fortalecer a governança, com regras de responsabilidade, supervisão e prestação de contas;
- Garantir qualidade e segurança dos dados, incluindo privacidade e cibersegurança;
- Investir na capacitação das equipes, preparando os profissionais para trabalhar com IA;
- Adotar princípios de IA responsável, assegurando transparência, ética e conformidade regulatória.
Leia também
Executivas negras revelam o que foi determinante em suas carreiras para ocuparem cargos de liderança
Pacto Global da ONU no Brasil inicia projeto para ampliar presença indígena nas empresas
“As organizações que conseguirem combinar inovação e confiança tendem a capturar mais valor da tecnologia e construir vantagens competitivas mais sustentáveis no longo prazo”, acrescenta o especialista.



