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Do Acordo de Paris ao mutirão de Belém – e além

Inspirados pelo espírito da Rio 92 e do Acordo de Paris, devemos nos perguntar quais são as principais alavancas da descarbonização e como podemos ganhar escala

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Foto do autor Marina Grossi

Primeira conferência climática da ONU realizada no Brasil e em solo amazônico, a COP30 celebra também a primeira década do Acordo de Paris. O tratado internacional firmado em 2015 entre 195 países foi um marco fundamental para a diplomacia climática, forjando um novo pacto planetário para frear a crise climática. Além de ser aprovado por unanimidade, estabeleceu objetivos para todos os países do mundo, sendo o principal o compromisso de evitar que a temperatura média global se eleve acima de 2ºC, com esforços extras para limitar esse aumento a 1,5ºC em comparação aos níveis pré-industriais. Fez história também ao trazer uma mudança de atitude por parte não só dos países, mas de empresas, sociedade civil, mercado financeiro e governos subnacionais – os chamados atores não estatais –, que passaram a se comprometer com a Agenda de Ação, somando forças.

Desde o Acordo de Paris, o progresso é visível. Os países passaram a apresentar suas estratégias de longo prazo para reduzir emissões de gases de efeito estufa, expressas nas NDCs – contribuições nacionalmente determinadas, na sigla em inglês – que, revistas a cada cinco anos, se tornam mais ambiciosas e alinhadas à ciência. Vemos também emergir iniciativas transformadoras e coalizões empresariais e sociais mais fortes: a neutralidade climática se tornou uma norma nas empresas, moldando estratégia, investimentos, incentivos e até o design dos produtos. A campanha Race to Zero, criada pelas Nações Unidas para engajar empresas em planos de ação climática, soma mais de 15 mil membros até 2024, com um crescimento de 65% desde 2022.

Parque da Cidade, em Belém, que receberá a COP30 Foto: Raphael Luz / Ag. Pará

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Tudo isso deu impulso econômico às tecnologias ligadas à transição energética, que alcançaram investimentos de US$ 2,1 trilhão pela primeira vez em 2024, o dobro do volume de recursos desde a virada da década, segundo a BloombergNEF. Merecem destaque a geração de energias renováveis, como eólica e solar, que se tornaram mais baratas, impulsionadas por aquisições corporativas e por contratos de longo prazo; os veículos elétricos estão se popularizando e hoje representam mais de 20% das vendas globais de carros novos, com redes de recarga se expandindo e cadeias de suprimentos das baterias se tornando mais globalizadas. O próximo passo é garantir minerais essenciais, expandir o carregamento para veículos pesados ​​e mercados emergentes e construir circularidade por meio da reciclagem de baterias.

Outro inegável avanço veio na percepção dos riscos climáticos por parte dos mercados. Iniciativas como a TFCD (Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima, na sigla em inglês) ampliaram o entendimento das empresas, investidores e instituições financeiras, de que esses riscos precisam ser medidos, reportados e incorporados como variáveis importantes na tomada de decisões. O risco climático passou a ser entendido como um risco financeiro e uma ameaça à estabilidade global. Agora o desafio é buscar o financiamento climático em larga escala, de modo que o capital privado seja um instrumento para ajudar os países a alcançar os US$ 1,3 trilhão necessários para a transição – uma das discussões centrais da COP30.

À medida em que se aproxima a conferência de Belém, cresce também a mobilização do setor privado para a Agenda de Ação. Cientes de que esta será a COP da implementação, cujas decisões vão se desdobrar para para os próximos anos, as empresas têm reforçado sua participação em eventos preparatórios de alto nível. Um exemplo foi a presença de lideranças de 50 grandes empresas, de todas as partes do mundo, em uma reunião que convoquei em meu papel de Enviada Especial da COP30 para o Setor Empresarial, junto à Presidência da COP30 – representada pelo próprio presidente da conferência, o embaixador André Corrêa do Lago, pela CEO, Ana Toni, e pelo campeão de alto nível, Dan Ioschpe – e com apoio de diversos parceiros, durante a Semana do Clima de Nova York, em setembro. Desde 2009, a Semana do Clima em Nova York vem se consolidando como um dos mais importantes eventos para a ação climática, e este ano a programação contou com mais de mil encontros. A tônica deles se traduz no slogan “Power On”, um apelo da organização para que os esforços para conter a crise climática se intensifiquem.

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Esse espírito de engajamento contínuo, com olhar voltado para a implementação, ecoa na ideia de um mutirão global lançado pela Presidência da COP30, onde todas as nações e atores não governamentais podem e devem se mobilizar para acelerar a transição para um novo modelo econômico de baixo carbono, próspero e inclusivo. Inspirados também pelo espírito da Rio 92 – matriz das COPs e um marco na governança ambiental global – e do Acordo de Paris, que chega à primeira década, devemos olhar para a frente e nos perguntar: quais são as principais alavancas da descarbonização? Como podemos ganhar escala? Como adaptamos soluções a diferentes realidades? Como financiá-las e implementá-las de forma eficaz? As respostas a essas questões já estão em construção, com muitos avanços já conquistados, e vão moldar o futuro do planeta e da humanidade.

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Opinião por Marina Grossi

Economista, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds)