Master cresceu pagando juros altos e investindo em ativos arriscados; veja trajetória do banco

Instituição financeira teve crescimento acelerado, tendo como base a emissão de papéis cobertos pelo FGC

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Foto do autor Alvaro Gribel
Atualização:

Banco Master: De banco mineiro que oferecia CDB de 140% a alvo da PF e do BC

Conheça a trajetória da instituição de Vorcaro, preso quando tentava fugir do Brasil, segundo a PF. Crédito: Alvaro Gribel

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

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BRASÍLIA - A liquidação decretada pelo Banco Central no Banco Master põe fim a um processo acelerado de crescimento da instituição financeira, que foi baseado em dois pilares: a captação de recursos pagando aos investidores juros muito acima da média do mercado e a compra de ativos com baixa liquidez, como empresas com problemas financeiros, precatórios e direitos creditórios.

O anúncio foi feito nesta terça-feira, 18, menos de um dia depois de o Grupo Fictor ter indicado o interesse em comprar a instituição. Segundo pessoas que acompanham o tema de perto, a liquidação acaba com a possibilidade de o acordo avançar.

Veja a trajetória da instituição financeira:

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Master teve crescimento acelerado, tendo como base a emissão de papéis cobertos pelo FGC Foto: Banco Master

A escalada do banco

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Desde que o antigo Banco Máxima foi transformado em Master, em 2021, o patrimônio do banco cresceu quase dez vezes e a carteira de crédito quintuplicou.

Essa alta era baseada na emissão de Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) - comprados principalmente por pessoas físicas - que eram cobertos pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) no valor de até R$ 250 mil por CPF.

A composição de seu patrimônio com ativos de baixa liquidez, assim como a escalada na oferta de CDBs no mercado, chamou a atenção da Faria Lima e também do Banco Central, que recalibou normas que tocavam nesses dois pontos, exigindo que o Master fizesse ajustes em seu balanço e operação.

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Entre os grandes bancos, o crescimento do Master incomodava, porque colocava o balanço do FGC sob risco. Em junho de 2024, os CDBs do banco correspondiam a quase metade do patrimônio líquido do fundo.

Proposta do BRB

Em março deste ano, depois de as principais plataformas digitais de investimentos pararem de ofertar CDBs do Master, temendo riscos para o FGC, o banco anunciou uma proposta de venda 49% das duas ações ordinárias (com direito a voto) e de 100% das ações preferenciais (sem direito a voto) para o Banco de Brasília (BRB), controlado pelo governo do Distrito Federal. O negócio foi estimado em R$ 2 bilhões.

O objetivo do Master era fazer parte da holding do BRB, com o banqueiro Daniel Vorcaro assumindo o conselho de administração desse novo banco, que se chamaria BRB Corporate. Os ativos que não seriam incluídos no negócios seriam vendidos separadamente.

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O banqueiro Daniel Vorcaro, CEO do banco Master Foto: Divulgação Banco Master

A negativa do BC

A transação, contudo, precisava receber o aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade)— que foi concedida em junho, sem restrições — e do Banco Central.

Após meses de análise, a autoridade monetária acabou por negar a operação no dia 3 de setembro - o que acabou sacramentando o destino do Master, já que o banco não vinha mais conseguindo fazer captações para rolar a sua dívida.

Um dos problemas encontrados pelo BC na transação eram os riscos para o BRB. Como o Master usou seus recursos para comprar ativos com pouca liquidez, como ações de empresas em dificuldade e também precatórios e direitos creditórios, o risco era de que o banco público fosse obrigado a honrar possíveis buracos no balanço do Master.

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O Master comprava esses ativos a preços baixos, na expectativa de que eles tivessem forte valorização. Para uma instituição financeira, contudo, que precisava cumprir regras de liquidez definidas pelos índices de Basileia, isso acabou se mostrando extremamente arriscado.

Outro ponto que deu insegurança para o Banco Central foi a qualidade da carteira de crédito do Master, que já vinha sendo comprada pelo BRB, antes mesmo do anúncio da operação.

Ainda que parte desses créditos sejam no segmento consignado, ou seja, com garantias, havia dúvidas se essas carteiras não estariam “sobreavaliadas”, ou seja, com um valor de face maior do que o valor real.

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Esse receio se somou à redução do perímetro da operação pelo BRB, que caiu à metade em cinco meses. De início, o BRB pretendia levar R$ 48 bilhões do Master, mas ao longo das auditorias feitas no banco, o valor foi reduzido para R$ 23,9 bilhões, conforme relevou o Estadão.

Letras financeiras

Depois de parar de vender CDBs, o Master tentou ampliar suas captações por meio da emissão de Letras Financeiras, principalmente para fundos de pensão. Esses títulos não são cobertos pelo FGC.

Segundo apurou o Estadão, o Master emitiu pelo menos R$ 2,96 bilhões em letras financeiras. Levantamento feito pela reportagem apontou que pelo menos 12 fundos de pensão e um banco público carregam esses papéis.

Sete de 12 institutos de previdência de prefeituras e Estados que investiram em letras financeiras do Banco Master tinham por trás das aplicações uma mesma consultoria que deu aval para as operações: a Crédito e Mercado.

Investigações

Uma investigação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) apontou pela primeira vez a suspeita de crimes financeiros na gestão do Master por meio de investimentos milionários fraudulentos que inflaram o patrimônio da instituição e permitiram o aporte de recursos até mesmo em empresas vinculadas à irmã do dono do banco, Daniel Vorcaro.

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Como revelou o Estadão, de acordo com a CVM, o Master investiu um total de R$ 2,1 bilhões em empresas sem capacidade econômica suficiente para dar retorno a esses investimentos. Essa situação, aponta o relatório, poderia “comprometer severamente a solidez patrimonial da instituição financeira”.

Na terça-feira, 30, a Polícia Federal abriu um inquérito para apurar suspeitas de crimes envolvendo a gestão do Master e a tentativa de compra pelo BRB.

Liquidação e prisão

A última tentativa de manter o Master aberto veio com anúncio na segunda-feira, 17 de novembro. A holding financeira Fictor comunicou ter fechado um acordo para a aquisição do Master em conjunto com um consórcio formado por investidores dos Emirados Árabes Unidos.

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O Banco Central foi surpreendido com a transação e decretou a liquidação do Master nesta terça, 18. No mesmo dia, a Polícia Federal deflagrou operação. Daniel Vorcaro foi preso ainda na noite de segunda-feira, 17, tentando viajar para o exterior. O BC decreto a liquidação do Master e a Justiça Fedederal determinou o afastamento do presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.

Veja a cronologia

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