Banco Master: De banco mineiro que oferecia CDB de 140% a alvo da PF e do BC
Conheça a trajetória da instituição de Vorcaro, preso quando tentava fugir do Brasil, segundo a PF. Crédito: Alvaro Gribel
O Banco Central liquidou o Banco Master em 18 de novembro de 2025, após indícios de fraude e problemas financeiros. A KPMG, auditora do banco, destacou incertezas nos ativos ilíquidos, mas não fez ressalvas. A Fitch rebaixou o rating do banco após a tentativa de compra pelo BRB. A Moody's alertou sobre a liquidez dos ativos. Investigações revelaram venda de carteiras de crédito inexistentes ao BRB. Especialistas questionam a eficácia das auditorias e a responsabilidade da administração do banco.
O anúncio da liquidação do Banco Master pelo Banco Central (BC), na terça-feira, 18, trouxe dúvidas sobre como os problemas e os indícios de fraude na instituição do empresário mineiro Daniel Vorcaro não foram percebidos e reportados antes.
A partir do relatório de 31 de agosto de 2022 — publicado no balanço financeiro sobre o segundo trimestre —, um ano depois de o Master ter mudado de nome em relação a Banco Máxima, quem assumiu a posição de auditoria independente da instituição foi a KPMG, uma das chamadas Big Four (quatro grandes) globais do mercado.
Ela permaneceu prestando o serviço de auditoria até o balanço publicado no começo de abril deste ano. A KPMG chegou a chamar atenção para incertezas no balanço do Master, ao apontar que o banco possuía R$ 19,55 bilhões em participações em fundos de investimentos, o equivalente a cerca de um terço dos seus ativos.
Havia pouca transparência sobre o resultado desses fundos, que, como registrado pela auditoria, “investem substancialmente em ativos que não são ativamente negociados”. Em outras palavras, ativos com pouca liquidez (ou seja, que não podem ser vendidos em tempo curto), elevando a incerteza em relação ao preço que foi contabilizado no balanço.
“A determinação dos valores de mercado dos ativos investidos pelos fundos de investimentos, cujos preços ou parâmetros de mercado não são observáveis, está sujeita a um nível maior de incerteza, especialmente em relação à definição do risco de crédito e de realização de tais ativos”, disse a KPMG. Apesar disso, a auditoria não fez ressalvas.
A KPMG informou não ser, “a partir de 2025”, a auditora externa do Banco Master. “Por motivos de cláusulas de sigilo e regras da profissão, está impedida de se manifestar sobre casos envolvendo ex-clientes da firma”, respondeu.

Outro ponto que a auditoria destacou foi o valor atribuído pelo Master à compra do banco Voiter, que entrou no seu balanço a preço superior ao custo de aquisição pelos controladores. A KPMG registrou que a “compra vantajosa” do Voiter rendeu R$ 435,55 milhões ao Master no ano passado — quase a metade do lucro registrado pelo banco, de R$ 1,068 bilhão.
Esse ganho atípico com a entrada do Voiter no balanço do Master elevou o patrimônio líquido e permitiu que o banco mantivesse os índices exigidos pelo Banco Central para seguir emprestando, embora bem próximo do limite mínimo. De 2023 a 2024, o patrimônio líquido do banco saltou de R$ 2,38 bilhões para R$ 4,74 bilhões.
O Master informou que o índice de Basileia — uma relação entre o patrimônio do banco e o que ele tem em ativos, como empréstimos a receber, por exemplo — ficou em 11,5% em 2024. O mínimo exigido pelo BC é de 11% (ou seja, é preciso que para cada R$ 100 emprestados, o banco tenha no mínimo R$ 11) .
Nota de crédito
O Banco Master também destaca, em seu site, entre as informações financeiras, que recebeu, em 2023, um aumento de sua nota da agência de avaliação de crédito Fitch Ratings. A agência melhorou em um nível o rating do Master, para B+ em inadimplência de longo prazo, e para BBB em rating nacional de longo prazo.
A Fitch, por meio de mensagem, explica que a definição de “investment grade” ou “grau de investimento” é um termo de mercado, não da própria agência, e se refere apenas a ratings na categoria “BBB” ou acima, em escala internacional, mas não em escala nacional. A nota mais alta conseguida pelo Master em escala internacional foi o B+, atribuído em outubro de 2023.
Segundo a metodologia da Fitch, um rating na categoria B, como a do banco na época, significa “que um significativo risco de inadimplência está presente, porém, existe uma limitada margem de segurança”.
A agência também informou que, em função “da expansão de negócios e das aquisições estratégicas (que suportavam o crescimento da base de receita e da melhora de seu perfil de negócios comparativamente aos pares nacionais), o rating em escala nacional do banco foi elevado para A-(bra), em 3 de outubro de 2024, mas a nota em escala internacional foi mantida em B+.
A partir deste ano, o rating começou a ser derrubado. Com o anúncio da negociação da compra do Master pelo BRB, todos os ratings do banco foram colocados em “observação indefinida”, “quando a principal tendência do rating tem fortes elementos contraditórios”, no dia 4 de abril.
Nesse mesmo relatório, a Fitch alertou que, se não houvesse a aprovação da transação, haveria um novo rebaixamento dos ratings, o que aconteceu no dia 9 de setembro, para BB-(bra) em escala nacional e para B- em escala internacional, e a observação dos ratings foi alterada para negativa.
Já “a deterioração da liquidez e da estrutura de captação do banco” e o atraso na publicação das demonstrações financeiras auditadas de junho de 2025 foram os principais motivos para um novo rebaixamento dos ratings para CC, tanto na escala nacional como na internacional, no dia 14 de outubro de 2025.
Por fim, no dia 19 de novembro, a Fitch rebaixou todos os ratings do Master para D por conta da liquidação extrajudicial do banco.
Outra agência americana, a Moody’s, levantou alerta de preocupação pela pouca liquidez dos ativos do Master, em relatório do início de abril, cinco dias depois de a instituição financeira ter recebido uma oferta de compra pelo Banco de Brasília (BRB), banco estatal do Distrito Federal (DF), no dia 28 de março deste ano. No texto, a Moody’s classificava a operação como de “alto risco”.
“Os riscos de execução e integração incluem também o estatuto público do BRB, que implica uma estrutura de governança complexa, e a carteira de empréstimos altamente concentrada do Master, parte da qual está estruturada em fundos de investimento em valores a receber ilíquidos”, descrevia no relatório.
Preocupações
À luz de acusações de fraudes como as relativas ao Master, surgem questionamentos se o trabalho das auditorias e agências de rating foi adequado. Um argumento bastante utilizado por representantes do mercado, nesse caso específico, diz que o crescimento do Master aconteceu de forma muito rápida, a partir de 2021, passando de um banco de tamanho pequeno sem grandes repercussões de riscos para o sistema financeiro.
Poucos anos depois, a quantidade de CDBs emitidos com pagamento de juros acima do mercado passou a preocupar os financiadores do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), em especial, os maiores bancos privados, Itaú, Bradesco e Santander, e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban).
Os holofotes foram virados para o banco quando a oferta do banco estatal de Brasília fez a oferta de compra. Antes disso, não havia provas de fraudes, apesar de antes mesmo de 2025 circularem no mercado rumores sobre preocupações com o crescimento acelerado do banco, e com a figura de Vorcaro, que vinha de fora do mercado financeiro e com relacionamento institucional muito forte entre personalidades dos três Poderes em Brasília.
“Só depois que começaram a surgir os boatos as pessoas passaram a olhar com mais cuidado o balanço auditado. Mas as pessoas olhavam e o banco dava lucro. Não parecia haver muito problema”, diz o analista especializado em instituições financeiras Luis Miguel Santacreu, da consultoria Austin Rating. “Quando se olhava que havia muitos ativos ilíquidos, mostrava uma atuação quase como de um banco de investimentos, com cotas de fundos de Fidcs (fundos de investimento em direitos creditórios), compras de participações em empresas e de precatórios, que poderiam ter uma rentabilidade interessante, mas que não tinham a liquidez que o mercado imaginava.”
Os balanços financeiros de bancos não costumam detalhar a qualidade dos fundos investidos, e quais são os ativos que estão inseridos ali. “Isso não aparece em notas de balanço, o que tem nos fundos. Não se abrem as informações por categoria, por Fidc ou fundo multimercado. O relatório citava os precatórios, mas a qualidade deles, se tinham liquidez, se eram federal, estadual ou alimentício, que tem mais liquidez”, diz Santacreu.
“No balanço, os passivos do banco estavam muito claros. Não havia discussão do passivo. Os ativos disponíveis (para pagar pelos passivos) já eram mais difíceis de analisar, por estarem dentro de fundos e de carteira de crédito”, explica.
Nesta semana, surgiu a informação de que a investigação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal sobre a gestão do Banco Master detectou indícios de que a instituição comandada por Vorcaro vendeu R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito inexistentes ao BRB.
Também foi revelado que a compra pelo BRB serviria para abafar uma investigação que já estava em curso pelo BC.
Mais preocupações surgiram nos últimos meses, quando já depois da revelação das preocupações da KPMG com os ativos ilíquidos do Master, estouraram outros escândalos, com a Operação Carbono Oculto, envolvendo a gestora de recursos Reag, e com a recuperação judicial da Ambipar, com participação de investimentos de Vorcaro.
A atenção, então, que se dividia do mercado financeiro com o Master, com o mercado de capitais com a Ambipar e quanto a gestoras de investimentos com a Reag, se unificou. Personagens comuns apareceram nos três escândalos.
Responsabilidades
Para especialistas do mercado de auditoria que preferiram não se identificar, o objetivo de uma auditoria independente é examinar números e documentos fornecidos pela companhia auditada, para dizer se as demonstrações contábeis foram elaboradas adequadamente pela administração, de acordo com as normas de contabilidade aplicáveis, e refletindo a realidade financeira e patrimonial.
Esse trabalho ajuda a dar credibilidade aos balanços financeiros e, assim, assegurar investidores e outros agentes de mercado sobre a gestão da companhia e sua solidez, mas a diretoria da empresa seria a encarregada de implementar todos os processos operacionais e financeiros, além de controles internos efetivos. O auditor trabalharia a partir dessas informações fornecidas. E, mesmo com a evolução das técnicas de detecção de fraudes, quase metade dos casos ainda seriam descobertos só depois de denúncias.
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O auditor pode emitir um relatório com ou sem ressalvas, ou até mesmo se abster de emitir opinião, se não confiar na qualidade dos controles internos e das informações fornecidas pela administração. Mas não teria mecanismos e poderes legais para obter informações, como acessar e-mails e mensagens trocadas por empregados ou responsáveis pela gestão da empresa.
Esses auditores também alegam que as suas atuações são confundidas com uma responsabilidade por observar a administração, e que isso cria expectativas equivocadas sobre a função e o desempenho das consultorias contratadas pelas empresas e bancos.








