Silvio Kozuchowicz poderia facilmente não ter existido. A sorte foi que seu pai, Kiwa Kozuchowicz, judeu polonês, sobreviveu ao Holocausto da Segunda Guerra Mundial mesmo após ter passado por vários campos de concentração, incluindo Auschwitz, Buchenwald e Spaichingen. Com o número B‑513 tatuado no braço, Kiwa sobreviveu porque foi considerado apto para o trabalho e teve ajuda de outros prisioneiros.
Silvio nasceu dez anos depois da chegada de seu pai ao País. Da segunda geração de empreendedores imobiliários, Silvio se formou em engenharia civil na USP em 1982, onde chegou a estudar com o comunicador e jornalista Marcelo Tas. Após trabalhar por alguns anos em empresas ligadas ao pai, o empresário deu início à SKR Arquitetura Viva, hoje um dos principais nomes do mercado imobiliário de alto padrão na cidade de São Paulo, começando em uma pequena sala na Av. Faria Lima, alugada de um amigo.
O ano da fundação do negócio, 1985, foi marcado por uma inflação de mais de 200%, o que fez grandes nomes do setor imobiliário reduzirem drasticamente os lançamentos de empreendimentos. Essa foi a oportunidade que Kozuchowicz aproveitou para, inicialmente, fazer projetos de construção a preço de custo, atuando em parceria com outras empresas.
“1984 e 1985 foram anos de paralisação. As grandes construtoras, como Gomes de Almeida Fernandes (hoje Gafisa) e Lindenberg, estavam lançando um empreendimento por ano. Quer dizer, as grandes empresas estavam indo para o mercado com um empreendimento. Então, quem tinha o primeiro projeto no pipeline (planejamento) era quase tão grande quanto elas”, diz.
A empresa sempre teve muito critério para escolher o lugar de cada empreendimento. Para Kozuchowicz, é a localização que define qual projeto deve ser desenvolvido. Por isso, desde o início, a SKR focou em projetos com boa arquitetura e curadoria, concentrando-se em bairros como Jardins, Higienópolis e Pinheiros, para as classes média alta e alta.

Vencer o cenário econômico adverso dos anos 80 foi um teste de fogo pelo qual a SKR passou para viabilizar seus primeiros empreendimentos, o que trouxe aprendizados para lidar com momentos de pressões de custos de construção ou mudanças que impactam economicamente o País, afetando o ambiente de negócios.
“1985 foi um ano de virada. A gente estimava os valores num índice porque a inflação chegava a 40%, 50% ao mês e a gente tinha que conseguir fazer um controle financeiro. Isso foi uma escola, e nos permitiu desenvolver um controle de custos, previsão, planejamento muito importantes para os tempos que vieram depois”, conta.
Com a chegada do Plano Real e a estabilização da economia brasileira, os negócios da SKR passaram a ocorrer de forma mais fluida nos anos 90, levando a uma mudança estratégica para vender empreendimentos a preços fechados, com margens de lucro melhores. Isso acabou despertando o interesse da Cyrela, que viria a ser sua sócia.
Apesar de não ter formação acadêmica em arquitetura, o diferencial da empresa nascente de Kozuchowicz era justamente o seu apreço por projetos arquitetônicos sofisticados. Nos 40 anos da SKR, completados em 2025, a companhia já realizou empreendimentos com grandes nomes do design, como Márcio Kogan, Isay Weinfeld, aflalo/gasperini arquitetos, Alberto Andrade, Sérgio Dávila e Angelo Bucci.
“A nossa luta é ser reconhecido pelo diferencial da qualidade da nossa entrega. O mercado briga só por preços. Claro, somos limitados pelos valores possíveis. É aí que entrega a qualidade de projeto, saber quando ousar nos custos e quando não é necessário”, afirma.
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Joint-venture
Um dos principais pontos de virada no negócio ocorreu em 2007. Após a abertura de capital na Bolsa de Valores, a Cyrela fez uma série de investimentos no mercado imobiliário para ampliar sua participação em diferentes segmentos e marcas. Com a SKR, foi criada uma joint-venture (operação conjunta) para manter o foco no mercado de alto padrão. Hoje, uma das poucas empresas que ainda contam com a participação da Cyrela é a SKR, junto a nomes como Cury e Plano&Plano.
“Isso nos levou a um novo patamar, nos permitiu acelerar. Hoje, a SKR é reconhecida como uma construtora de alto padrão que desenvolve projetos de excelência com bons arquitetos, basicamente na cidade de São Paulo. Tivemos oportunidade de construir no litoral, mas a nossa vocação é urbana, cosmopolita”, afirma.
A integração das empresas segue firme e foi reforçada no começo deste ano pela chegada do CEO da Cyrela em Porto Alegre, Rodrigo Putinato, que assumiu o cargo de COO (diretor de operações) na SK Realty, como é chamada a joint-venture. As empresas, apesar de serem concorrentes em certa medida, têm atuação complementar na capital paulista e trocam conhecimento sobre processos construtivos e fornecedores.
Arranha-céus
A aposta de Kozuchowicz nunca foi no volume, criando projetos idênticos em diferentes localidades — prática ainda usada no setor imobiliário. Em seus 40 anos de história, a SKR entregou 3,2 mil apartamentos e tem mais de 1 milhão de metros quadrados construídos.
Apesar dos desafios que o setor imobiliário passa com a taxa de juros elevada no País, restringindo o financiamento tanto na ponta das construtoras quanto na ponta do consumidor que financia um imóvel, o plano da SKR agora é acelerar investimentos, buscando aproveitar a janela de oportunidade que será aberta a partir da queda dos juros.
De 2025 a 2027, serão R$ 3,7 bilhões de Valor Geral de Vendas (VGV) em lançamentos imobiliários de alto padrão. Serão R$ 800 milhões neste ano, R$ 1,3 bilhão no próximo ano e R$ 1,6 bilhão em 2027. A próxima fronteira do empresário agora será construir arranha-céus.
“Estamos com dois empreendimentos no pipeline com mais de 45 andares. Isso exige um nível de maturidade, conhecimento técnico e coordenação que menos empresas têm. Estamos nos especializando para poder fazer coisas que os outros ainda não têm maturidade para fazer”, conta Kozuchowicz.





