Ninguém é feliz ganhando R$ 700 de programa social; brasileiro tem ambição, diz CEO da Magalu

Frederico Trajano afirma que emprego formal é política mais efetiva para ampliar acesso à renda no País; segundo ele, varejo pode ser porta de entrada de beneficiários no mercado de trabalho

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Foto do autor Elisa Calmon
Foto: Felipe Rau/Estadão
Entrevista comFrederico TrajanoCEO da Magalu

Em meio às discussões sobre os efeitos dos programas sociais no mercado de trabalho, o CEO do Magalu, Frederico Trajano, avalia que o emprego formal é a política mais efetiva para ampliar o acesso à renda no País. Para o executivo, os brasileiros almejam mais do que benefícios como o Bolsa Família, enquanto o setor privado pode cumprir um papel importante nesse processo.

“Ninguém está feliz ganhando R$ 700 reais por mês. Eu vejo que os brasileiros em geral têm uma ambição muito maior do que essa renda mínima e o varejo pode ser uma porta de entrada”, diz Trajano em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast.

De olho no potencial empregatício do setor, o Magalu aderiu nesta segunda-feira, 15, ao Programa Acredita No Primeiro Passo. A iniciativa do governo federal é voltada à inclusão socioeconômica, por meio do mercado de trabalho formal, de pessoas inscritas no Cadastro Único e beneficiárias de programas sociais.

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Após a assinatura da adesão, o CEO da varejista falou também sobre a disponibilidade de mão de obra, perspectivas macroeconômicas e setoriais, assim como os efeitos das bets para o segmento.

Confira os principais trechos da entrevista:

Frederico Trajano espera que programa Programa Acredita No Primeiro Passo ajude Magalu a solucionar problemas com falta de mão de obra Foto: Felipe Rau/Estadão

Representantes de alguns setores, como varejo e construção civil, avaliam que os programas sociais dificultam a contratação de mão de obra. O senhor concorda?

Ninguém está feliz ganhando R$ 700 reais por mês. Eu vejo que os brasileiros em geral têm uma ambição muito maior. Para mim, o emprego formal é a melhor política social. Eu acho que essa também é a visão de boa parte dos empresários e do governo federal. Por isso, assim como outros varejistas, queremos ser uma porta de entrada para que essas pessoas se desenvolvam e aumentem sua renda familiar.

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O Magalu tido dificuldade para atender a demanda de mão de obra?

O Brasil está em plena atividade econômica e com um desemprego historicamente baixo. Não há uma dificuldade crônica, mas está mais difícil do que em períodos de desemprego mais alto. O programa pode ajudar nisso também. Contratamos cerca de mil pessoas por mês, e acreditamos que parte significativa dessas vagas será preenchida por beneficiários de programas sociais.

De que forma o Acredita No Primeiro Passo pode contribuir?

No início, o Bolsa Família tinha esse problema. Se a pessoa aceitasse um emprego e perdesse depois de um período, também deixava de receber o benefício. Isso gerava insegurança e resistência. O programa corrige isso: hoje o beneficiário só perde o benefício quando atinge uma renda mínima bem superior ao valor atual, e ainda tem um prazo de transição. Então, a resistência hoje se deve mais ao desconhecimento. Dessa forma, a adesão e divulgação são importantes para dar às famílias a segurança de que podem trabalhar formalmente sem perder o apoio imediato.

E sobre a questão das bets. Elas têm afetado o consumo das pessoas de menor renda? É uma preocupação para vocês?

Apesar do varejo ainda estar pujante, há uma desaceleração que pode refletir, em parte, o impacto das bets. Mas esse não é um problema só do varejo, é uma questão de saúde pública. Precisamos encarar o tema com muita seriedade e aprofundar a regulação, que ainda é branda, para evitar as consequências negativas desse crescimento exagerado.

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Quais são as perspectivas para o cenário macroeconômico e possíveis impactos para o varejo?

Estamos cautelosamente otimistas com o varejo, porque a economia brasileira continua relativamente forte, com a inadimplência controlada. Não consigo ver ainda um problema de demanda. Mais do que o desempenho de vendas, o grande desafio é transformar receita em resultado. Está muito caro operar no Brasil por conta dos juros e impostos elevados. Esse custo precisa ser endereçado.

Vocês trabalham com a perspectiva de redução de juros?

Em agosto, houve deflação, e estamos observando que a taxa de juros nos EUA tende a cair. O câmbio está valorizado, o que também ajuda. Nesse cenário, é difícil não encontrar otimismo em relação às possíveis reduções de juros nas próximas reuniões do Banco Central.