RIO - O comércio varejista manteve a tendência de perda de fôlego em julho. O volume de vendas recuou 0,3% em relação a junho, o quarto resultado negativo consecutivo. Os dados são da Pesquisa Mensal de Comércio, divulgada nesta quinta-feira, 11, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
“Em resumo, o resultado do varejo em julho acentuou a tendência de gradual moderação do setor”, apontou Daniel Xavier, economista-chefe do Banco ABC Brasil, em relatório. “Reflexo de condições monetárias restritivas, inadimplência e endividamento elevados — parcialmente compensados pelo dinamismo do mercado de trabalho doméstico e transferências governamentais”, acrescentou.
O Banco ABC Brasil reforçou a expectativa de acomodação da atividade econômica ao longo deste segundo semestre, levando o Produto Interno Bruto (PIB) a um crescimento em torno de 2,3% em 2025, desacelerando para uma alta de 1,7% em 2026.
Quatro das oito atividades varejistas registram quedas nas vendas em julho ante junho: equipamentos de informática e comunicação (-3,1%), vestuário e calçados (-2,9%), outros artigos de uso pessoal e doméstico, que inclui as lojas de departamento (-0,6%) e supermercados (-0,3%). Na direção oposta, houve avanços em móveis e eletrodomésticos (1,5%), livros e papelaria (1,0%), combustíveis (0,7%) e farmacêuticos e perfumaria (0,6%).

No comércio varejista ampliado — que inclui as atividades de veículos, material de construção e atacado alimentício — as vendas cresceram 1,3% em julho ante junho. O volume vendido de veículos subiu 1,8%, e material de construção avançou 0,4%. O IBGE não divulga o desempenho de atacado alimentício nesse tipo de comparação por possuir série histórica ainda insuficiente para o modelo de ajuste sazonal.
“A desaceleração do varejo mais sensível à renda tem sido o principal determinante da desaceleração do setor. O varejo sensível a crédito, apesar da recuperação em julho, também apresenta sinais de fragilidade”, ressaltou o economista sênior do Banco Inter, André Valério, em nota.
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As vendas do comércio varejista registraram quedas muito próximas da estabilidade nos últimos quatro meses, mas, no horizonte mais amplo, já evidenciam um viés negativo, afirmou Cristiano Santos, gerente da Pesquisa Mensal do Comércio do IBGE.
“O varejo tem variação negativa muito próxima de zero. A variação negativa muito próxima de zero é considerada estabilidade. Mas a sequência de variações negativas juntas já dá um patamar negativo (-1,1%) ante março, que foi o último mês com crescimento”, confirmou Santos.
Após alcançar em março deste ano o patamar recorde de vendas da série histórica, o varejo engatou retrações em abril (-0,3%), maio (-0,4%), junho (-0,1%) e julho (-0,3%). Segundo Santos, as vendas no varejo ainda são sustentadas pelo bom desempenho do mercado de trabalho, com avanço no número de ocupados, alta na renda real e expansão da massa de salários. Por outro lado, em meio ao patamar elevado da taxa de juros, o crédito à pessoa física já mostra redução. Ao mesmo tempo, a inflação deu uma trégua mais recentemente, mas também vinha impactando negativamente o consumo de alguns itens, assim como o alto nível de endividamento das famílias também restringe o orçamento disponível, enumerou.
“O que é esperado é que, uma vez que você aumenta a taxa básica de juros, o crédito tende a cair. Nesse caso a gente está observando isso no crédito a pessoa física”, disse.
Os supermercados, setor menos dependente do crédito e segmento de maior peso no comércio varejista, cresceram em apenas dois dos últimos nove meses.
“A inflação de alimentos afetou supermercados antes, não agora nesse momento”, afirmou Santos. “Teve diminuição também do número de lojas físicas”, justificou.
No mês de julho, seis das oito atividades pesquisadas operavam abaixo do nível de vendas registrado em março de 2025, quando o varejo atingiu o pico da série histórica. Somente os segmentos de móveis e eletrodomésticos e o setor farmacêutico permaneciam operando acima do nível de março, lembrou o pesquisador./Colaborou Daniel Tozzi





