Varejo em queda e mais um recuo da produção industrial parecem combinar com o crédito caro — os juros básicos estão em 15% —, mas contrastam com os 5.6% de desemprego, o menor do período iniciado em 2012. Crédito caro, normalmente nocivo ao consumo, à produção e ao emprego, é o principal instrumento usado pelo Banco Central (BC) para conter e derrubar a inflação.
Seu efeito corretivo, no entanto, foi até agora moderado, apesar da redução do consumo. Por isso, o aperto monetário deve ser mantido por vários meses, talvez com algum afrouxamento no primeiro semestre do próximo ano.
“Todo mundo pode brigar com o BC”, disse o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, mas o BC, acrescentou, “não pode brigar com os dados”. A inflação superou a meta em 2024, continua acima e assim deve permanecer nos próximos anos, comentou o economista, concordando, aparentemente, com avaliações correntes no mercado.

Os efeitos do crédito caro têm sido pouco visíveis no mercado, apesar de alguma contração nos negócios. Com a queda de 0,3% em setembro, o comércio varejista acumulou cinco resultados negativos nos seis meses a partir de abril, mas o volume vendido foi 0,8% maior do que o de um ano antes. Além disso, as vendas acumuladas em 12 meses superaram por 2,1% as do período anterior.
Mas a expansão foi além das vendas do varejo. Apesar dos juros altos e do crédito apertado, o setor de serviços cresceu em setembro 0,6%, completando oito meses seguidos de resultados positivos. Com esse avanço, houve um retorno ao patamar recorde da série, 19,5% acima do nível atingido em fevereiro de 2020, antes da pandemia de covid.
Os números do varejo e dos serviços são compatíveis com a situação do mercado de emprego. Além de repetir a menor taxa da série iniciada em 2012, a desocupação no trimestre encerrado em setembro — 5,6% da força de trabalho — ficou restrita a 6,04 milhões de pessoas, o menor contingente registrado na série.
O total de trabalhadores, 102,4 milhões, permaneceu estável e em patamar recorde, enquanto o contingente ocupado de pessoas em idade de trabalhar ficou em 58,7%. Também o número de empregados com carteira assinada, 39,23 milhões, foi o maior da série.
Apesar do recuo em outubro, quando a taxa mensal ficou em 0,09%, influenciada principalmente pela redução da tarifa de energia elétrica, a inflação acumulada em 12 meses, 4,68%, continuou acima do teto, 4,50%, e distante do centro da meta, 3%. A mediana das projeções do mercado ficou em 4,55% nas duas últimas pesquisas Focus. Um mês antes estava em 4,72%.
Houve melhora ao longo de meses. Mas a taxa estimada para o próximo ano, 4,20%, confirma um cenário ainda desafiante, sem condições para juros muito mais suaves e pouco favorável a um crescimento econômico mais vigoroso.






