Banco Central quer vitória prolongada na luta contra a inflação
Autoridade monetária evita corte prematuro da Selic e mantém a taxa em 15%. Crédito: Alvaro Gribel
A taxa básica de juros no maior nível em 20 anos e quase a metade da população adulta brasileira inadimplente são um balde de água fria para as vendas de itens de maior valor, como geladeiras, fogões, TVs e celulares, por exemplo, neste final de ano.
Esse cenário ganha relevância porque a Black Friday, em novembro, e o Natal, em dezembro, são as principais datas para o varejo faturar com bens duráveis. O último bimestre responde por um quarto das vendas de duráveis do ano e quase a metade do que o setor fatura no primeiro semestre. Normalmente, esses bens são comprados a prazo e, no momento, as perspectivas são desfavoráveis para os financiamentos.
Comerciantes de bens duráveis já captaram esse risco e dão indicações de que pretendem fazer ajustes em estoques e no quadro de funcionários para se adequar às vendas mais fracas. O Estadão também apurou que eles retardaram os pedidos de fim ano para a indústria, num claro sinal de cautela.
Em setembro, 10,9% dos empresários que comercializam bens duráveis declararam que pretendiam “reduzir muito” o quadro de pessoal nos próximos meses, ante 6,7% em setembro do ano passado, aponta um levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) com base nos dados do índice de confiança do setor. Os varejistas de bens duráveis que vão reduzir “um pouco” o quadro de funcionários são 32,3% este ano, ante 25,1% em setembro de 2024.

Quanto aos estoques, a fatia de empresários do varejo de bens duráveis com volume de produtos acima do adequado em seus galpões em agosto último estava em 25,9%, ante 25,7% no mesmo mês de 2024, aponta o levantamento.
A consulta a cerca de 6 mil varejistas de todos os segmentos feita pela CNC mostra que o empresário que vende bens duráveis está muito mais pessimista em relação ao final do ano, comparado aos demais varejistas que comercializam bens não duráveis, como alimentos, e semiduráveis, como artigos de vestuário, por exemplo. É que tanto nos bens não duráveis como nos semiduráveis, as vendas são menos dependentes do crédito.
“Já está dado para o empresário de bens duráveis que ele vai ter um final de ano mais difícil, porque o crédito tende a permanecer mais caro”, afirma Fabio Bentes, economista-chefe da CNC e responsável pelo levantamento.
Em setembro de 2024, os juros básicos, a Selic, estavam em 10,75% ao ano. De lá para cá, houve uma escalada e hoje a taxa estacionou em 15% ao ano, o maior nível em duas décadas. A perspectiva é de que os juros básicos continuem nesse patamar até o fim do primeiro trimestre de 2026, por causa da resistência da inflação em recuar e convergir para a meta.
A Selic nas alturas tem desdobramentos nos juros cobrados do consumidor e no aumento do valor da prestação de quem pega crédito para ir às compras. Hoje, a taxa de juros na ponta está no maior nível em dois anos.
Por serem itens de grande valor, os eletrodomésticos da linha branca (geladeiras, lavadoras, por exemplo), da linha marrom (TVs, aparelhos de áudio e vídeo) e celulares têm uma fatia importante das vendas financiadas. O volume de vendas desses itens, portanto, acaba sendo afetado pelas condições de crédito.
A desaceleração na atividade provocada pelos juros altos já tem reflexos na perda de fôlego do comércio em geral. As vendas do varejo restrito, que não inclui veículos e materiais de construção, recuaram 0,3% em julho na comparação com junho, descontadas as variações sazonais, aponta a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foi a quarta queda mensal seguida nessa base de comparação. “No passado, quatro quedas consecutivas aconteceram no varejo brasileiro em apenas dois momentos: no apagão de 2001 e na recessão de 2015/2016”, lembra Bentes.
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Para o economista Rodolpho Tobler, coordenador de sondagens da Fundação Getulio Vargas (FGV), a desaceleração que está em curso nas vendas do varejo em geral deve afetar mais os bens duráveis nos próximos meses. “Vamos ter realmente uma desaceleração mais forte nos bens duráveis, mais do que na média geral (de todos os produtos do varejo).”
Tobler diz que o impacto nos bens duráveis tende a ser maior porque esses produtos não são essenciais, têm valor mais elevado e a demanda é muito influenciada pelos juros e pela inadimplência.
Em julho, havia no País 78,2 milhões de brasileiros inadimplentes, quase a metade da população adulta, segundo a Serasa Experian, datatech especializada em dados e informações financeiras. É a maior marca desde o início da série, em 2016.
Aperto
A desaceleração econômica combinada com juros elevados e inadimplência alta comprimem bastante o orçamento das famílias, observa o economista da FGV. A sondagem do consumidor tem mostrado que, nos últimos anos, cresceu muito a parcela de brasileiros que declaram que estão se endividando e gastando a poupança para pagar as contas. Essa também é a tendência para os próximos meses. “O consumidor está aparentemente mais cauteloso para (ir às compras) neste final do ano”, diz.
No momento, o fotógrafo autônomo Carlos Henrique Montesini, de 61 anos, por exemplo, precisa comprar três itens de alto valor: uma geladeira, um celular e uma máquina fotográfica. Mas não tem condições financeiras de adquirir nenhum.

Montesini conta que a sua renda caiu pela metade nos últimos meses em relação aos ganhos que obtinha no começo do ano. Esse aperto o levou à inadimplência em contas básicas, como condomínio, internet e a conta de luz.
“O que eu pude renegociar eu renegociei”, diz o fotógrafo. Ele parcelou a dívida do condomínio e fez um empréstimo para quitar as contas de internet e de luz, depois de negociar com as operadoras.
Apesar de o seu celular estar “no limite”, os itens mais urgentes para Montesi são a máquina fotográfica, que é o seu instrumento de trabalho, e a geladeira.
O fotógrafo explica que não tem condições de se endividar para adquirir esses produtos. Por ora, está contornando a falta com uma máquina fotográfica menor, já que a principal quebrou e, no caso da geladeira, passou a comprar perecíveis só quando vai consumir. “Vou tentar levar essa história assim até melhorar a renda e me livrar das dívidas passadas.”
Indústria
A decisão Montesi e de milhões de brasileiros de primeiro quitar as dívidas em atraso e só depois voltar às compras quando a renda melhorar deve ter reflexos nas vendas do varejo e também na indústria neste fim de ano.
Segundo apurou a reportagem, há um certo atraso na colocação de pedidos do varejo junto aos fabricantes de eletroeletrônicos. Normalmente, as encomendas para a Black Friday e o Natal ocorrem no final de agosto. Neste ano, no entanto, foram adiadas para o fim de setembro.
“Há mais insegurança por parte dos varejistas de colocar o pedido e cacifar”, diz um empresário da indústria, que falou sob a condição de anonimato. Ele destaca que, por causa dos juros elevados, o departamento financeiro está mais forte do que o comercial nas decisões das empresas varejistas.
Apesar da cautela do varejo, José Jorge do Nascimento, presidente da Eletros, que reúne os fabricantes de eletroeletrônicos, não acredita em frustração nas vendas deste final de ano.
“A expectativa das indústrias é ao menos repetir o desempenho do ano passado”, diz. Ele argumenta que esse é um cenário razoável, diante dos juros elevados. Além disso, 2024 foi o melhor ano de vendas da história da indústria eletroeletrônica, com crescimento de 29% em número de unidades vendidas. Repetir esses volumes, sem crescer, será um bom desempenho, avalia.
No primeiro semestre deste ano, as vendas da indústria eletroeletrônica para o varejo ficaram estáveis em relação a igual período de 2024 nas linhas branca e marrom, segundo a Eletros. A única linha na qual houve aumento nos volumes foi a de eletroportáteis, que são itens menos dependentes de crédito e tíquete médio menor (R$ 200). Mas o avanço foi de apenas 1%.
Apesar dos números do mercado registrados até o momento indicarem um desempenho sem avanços, o Magazine Luiza está confiante nas vendas da Black Friday e do Natal. “O Magalu se prepara com meses de antecedência, em forte alinhamento com os fornecedores, para garantir as melhores ofertas para os clientes”, afirma Roberto Bellissimo, diretor financeiro da varejista, por meio de nota.
Na avaliação do executivo, o cenário macroeconômico é favorável. Embora os juros estejam em patamar elevado, a perspectiva é de recuo da taxa. “Para o Magalu, a queda dos juros futuros é importante para possibilitar a aceleração das vendas e a concessão de crédito, além de reduzir despesas financeiras”, diz o executivo.
Ele acrescenta que os índices de inadimplência da companhia estão nos menores níveis históricos. “Um futuro cenário de juros mais baixos abre espaço para ampliar a concessão de forma saudável.”
Na análise de Bellissimo, o recuo da cotação do dólar também é favorável, pois contribui para a redução de custos de insumos importados, refletindo em preços mais competitivos e acessíveis do produto final para o consumidor.
No entanto, essa análise não é validada nem por economista nem pela indústria. Bentes, da CNC, diz que os contratos de importações para novembro e dezembro são fechados na virada do primeiro para o segundo semestre e que não daria tempo para a queda do dólar registrada nas últimas semanas influenciar os preços das mercadorias vendidas na Black Friday e no Natal.
Nascimento, da Eletros, diz que os produtos colocados à venda no varejo no fim do ano foram fabricados com insumos importados entre três e seis meses atrás, quando a cotação da moeda americana era mais elevada. Essa defasagem impede a queda de preço na ponta por causa do recuo do câmbio, o único fator, segundo Bentes, que poderia contribuir para o aumento das vendas de duráveis no último trimestre.





