Gerando resumo
Quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se deparou com números fracos sobre o mercado de trabalho divulgados na sexta-feira, 1º, sua reação foi demitir a responsável pela produção dessas estatísticas.
O gesto quase não tem precedentes na história centenária da produção de dados econômicos dos Estados Unidos — e por boas razões: quando líderes políticos interferem em dados oficiais, o desfecho raramente é positivo.
Há o caso da Grécia, onde o governo maquiou os números do déficit por anos, o que acabou desencadeando uma grave crise da dívida que exigiu vários resgates financeiros. Posteriormente, o país chegou a processar criminalmente o chefe da agência de estatísticas, que insistiu em divulgar os números reais, agravando ainda mais a credibilidade internacional grega.
Outro exemplo vem da China, onde autoridades locais manipularam estatísticas para atingir metas de crescimento impostas por Pequim, obrigando analistas e formuladores de políticas a buscar fontes alternativas para compreender a real situação da economia.

Talvez o exemplo mais famoso seja o da Argentina, que entre os anos 2000 e 2010 subestimou sistematicamente os índices de inflação, a ponto de a comunidade internacional deixar de confiar nos dados oficiais. A perda de credibilidade elevou os custos de financiamento do país, contribuindo para uma nova crise da dívida e eventual calote.
Ainda é cedo para afirmar se os Estados Unidos seguirão esse caminho. Mas economistas e especialistas afirmam que a decisão de Trump, na última sexta-feira, de demitir Erika McEntarfer, diretora do Bureau of Labor Statistics (BLS), órgão responsável por coletar e divulgar os dados, é um sinal preocupante.
Janet Yellen, ex-presidente do Federal Reserve e ex-secretária do Tesouro, criticou duramente a decisão: “Esse tipo de coisa só se espera de uma república de bananas,” disse Yellen.
Leia mais
Demissão de chefe de estatísticas do trabalho pode criar crise de credibilidade de dados nos EUA
Alvaro Gribel: Trump faz nova agressão ao capitalismo americano e elege um novo inimigo: os números
A importância dos dados confiáveis
O Bureau of Labor Statistics faz parte do Departamento do Trabalho, cujo chefe integra o gabinete presidencial. No entanto, a agência atua de forma independente, publicando dados técnicos e apartidários sobre emprego, inflação, salários e outras variáveis econômicas.
Economistas afirmam que estatísticas confiáveis e produzidas com autonomia são fundamentais para a formulação de políticas públicas eficazes. O próprio Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) depende desses dados para definir a taxa de juros, o que impacta diretamente o crédito para empresas e consumidores.
“Bons dados ajudam não apenas o governo e o Fed, mas também o setor privado”, disse Jerome Powell, atual presidente do Fed. “Os Estados Unidos lideraram o mundo nisso por mais de 100 anos, e precisamos continuar assim.”
Segundo especialistas, a demissão de McEntarfer não deve provocar uma mudança imediata nos dados. O substituto interino, William Wiatrowski, é um funcionário de longa data, amplamente respeitado, e a equipe técnica permanece no cargo, operando com os mesmos métodos.
Mas o sinal enviado pela demissão preocupa quem até dias atrás defendia a integridade das instituições estatísticas americanas.
“Se os números da pobreza forem bons, o diretor do Censo ganha um bônus? E se a renda das famílias cair, o que acontece? E o PIB? E o índice de preços ao consumidor (CPI)?”, questiona Amy O’Hara, ex-funcionária do Censo e professora da Universidade de Georgetown.
Lições da história
Andreas Georgiou conhece bem os riscos de enfrentar pressões políticas.
Em 2010, ao assumir a agência estatística da Grécia, descobriu que o país vinha subestimando seriamente o déficit orçamentário. Quando insistiu em divulgar os números corretos, passou anos sendo processado — mesmo com revisões independentes que validaram seus dados.
Ele teve mais sorte, no entanto, que Olimpiy Kvitkin, responsável pelo censo soviético que foi preso e executado quando seus números contrariaram o que Stalin havia anunciado.
Para Georgiou, estatísticas confiáveis não são apenas ferramentas para políticas públicas — são um pilar da democracia:
“Os dados oficiais são como um espelho que a sociedade usa para se ver. Se esse espelho estiver distorcido, a sociedade não consegue reconhecer seus problemas — e, sem isso, não encontra as soluções certas, nem as pessoas certas para resolvê-los.”
Risco à integridade dos dados
Trump justificou a demissão de McEntarfer alegando que os números estavam “manipulados” para prejudicá-lo politicamente.
Especialistas, incluindo ex-diretores da agência indicados por governos republicanos e democratas, rejeitaram a acusação. O diretor — único cargo de nomeação política no BLS — não interfere nos números nem os vê antes de estarem finalizados pela equipe técnica de carreira.
Erica Groshen, que liderou o BLS no governo Obama, contou que a equipe técnica chegou a rejeitar até sugestões de mudanças de linguagem nos relatórios mensais:
“Eles diziam: não estamos aqui para dizer se o copo está meio cheio ou meio vazio. Só vamos informar que ele tem quatro onças (unidade de medida equivalente a cerca de 0,03 litro) de líquido em um recipiente de oito.”
Isso não significa que interferência política seja impossível. A produção de dados envolve centenas de decisões metodológicas, muitas delas baseadas em julgamentos técnicos. Um diretor mal-intencionado e experiente poderia manipular os dados de forma sutil ao longo do tempo, sem provocar demissões em massa ou protestos imediatos.
“Um novo diretor poderia, sim, tentar mudar métodos e procedimentos de forma a influenciar os números”, disse Katharine Abraham, que comandou o BLS nos governos Clinton e George W. Bush. “Seria preciso saber exatamente onde ‘pôr o dedo na balança’.”
Fontes privadas não substituem o setor público
Há ainda formas mais diretas de manipulação. Na Argentina, em 2007, o governo Kirchner afastou o responsável pelo cálculo da inflação e passou a divulgar um índice bem inferior ao real.
O público e os investidores internacionais não foram enganados e passaram a confiar em fontes alternativas — como índices de inflação produzidos por pesquisadores independentes.
Mas esses dados privados têm limitações, segundo Alberto Cavallo, economista de Harvard que desenvolveu um dos índices alternativos mais respeitados na Argentina.
“Alternativas privadas podem complementar os dados oficiais, mas não os substituem. Somente o governo tem escala e recursos para conduzir pesquisas nacionais”, afirmou.
Nos últimos anos, Cavallo também passou a monitorar preços nos EUA, conseguindo detectar os efeitos das tarifas de Trump antes que os dados oficiais o fizessem. Ainda assim, ele ressalta que essas fontes não possuem a credibilidade institucional dos dados oficiais.
E, uma vez que essa credibilidade é comprometida, é muito difícil recuperá-la — especialmente em um ambiente político polarizado, onde ambos os lados desconfiam dos números apresentados pelo outro.
Nancy Potok, ex-diretora do Censo e chefe estatística dos EUA no início do governo Trump, lembra que, no passado havia, forte apoio bipartidário às instituições estatísticas, tanto no Congresso quanto no setor empresarial.
“Havia pessoas que realmente entendiam o valor dos dados econômicos. Hoje, esse debate desapareceu. E os defensores dessa causa sumiram”, disse. “Não há mais ninguém liderando esse tipo de investimento.”




