Tarifa dos EUA acaba com dúvida de que comércio internacional é jogo político, diz Duquesa de Tax
No programa ‘Fala, Duquesa!’ desta semana, colunista do ‘Estadão’ reage à carta do presidente americano, Donald Trump, anunciando tarifa de 50% sobre o Brasil.
Gerando resumo
A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor uma tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras aos EUA deve provocar impactos significativos na economia doméstica. Sem precedentes em escala e motivação, a medida pode representar perdas bilionárias para as empresas brasileiras, comprometer diversos setores produtivos e acirrar ainda mais as tensões diplomáticas entre os dois países.
A carta enviada por Trump ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva na quarta-feira, 9, pegou o governo de surpresa e foi interpretada como um gesto político, não apenas econômico. A justificativa usada pelo republicano foi o tratamento dado pelo País ao ex-presidente Jair Bolsonaro, aliado de Trump, e à posição do Supremo Tribunal Federal (STF) em relação às redes sociais.
O principal efeito da tarifa de 50% deve recair sobre a balança comercial e repercutir de forma negativa no Produto Interno Bruto (PIB) do País. Nos cálculos do economista Roberto Dumas, o tarifaço pode tirar, no mínimo, 0,3 ponto porcentual de crescimento da economia brasileira em 12 meses a partir da sua vigência. “Mas esse valor pode ser maior”, afirma o professor de Economia Internacional do Insper.
De janeiro a junho, o Brasil exportou um total de US$ 166 bilhões, dos quais US$ 20 bilhões tiveram como destino os Estados Unidos, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Relatório do banco BTG Pactual estima que a tarifa de 50% pode reduzir as exportações em US$ 7 bilhões em 2025 e em US$ 13 bilhões em 2026.
Embora a participação dos EUA nas exportações brasileiras tenha recuado de quase 25% no início dos anos 2000 para 12% em 2024 (US$ 41 bilhões), o país ainda é o segundo destino das vendas externas do Brasil.
Entre os principais produtos vendidos ao mercado americano estão petróleo e derivados (18,85%), ferro e aço (14,73%) e, em menor escala, café, chá, cacau e especiarias (5,48%).
A queda nas exportações representa perdas para as empresas, com contratos para cumprir no mercado americano. A Embraer lidera a lista das mais afetadas. Segundo dados da XP, aproximadamente 23% da receita da empresa vem das exportações para os Estados Unidos.
Em seguida estão Suzano, com 16,6% das receitas em exportações para o mercado americano; Tupy, 13,9%; Jales, 11%; Frasle, 10,8%; e Weg, 9,1%. Vendas menores podem significar queda nos lucros e corte de pessoal.
Com a diminuição das vendas brasileiras para os Estados Unidos e a entrada de menos dólares no mercado interno, alguns indicadores e ativos serão pressionados. Um deles é a desvalorização do real, que tem efeitos em espiral na economia.
A alta do dólar pode pressionar a inflação e atrasar ainda mais um ciclo de queda da Selic. Juros em alta significa menor atividade econômica, ou seja, queda do PIB.
Em relatório, economistas do Bradesco calculam que, se a tarifa de 50% for confirmada, poderá haver acréscimo de 0,35 ponto porcentual à variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2025. “Os impactos seriam percebidos ainda neste ano, com IPCA pouco abaixo de 5,5%”, dizem eles.
No caso de o governo brasileiro decidir retaliar os Estados Unidos elevando tarifas de bens importados, o risco inflacionário fica ainda maior.
Outro setor que não deve passar íncolume ao tarifaço do Trump é o agronegócio. A tarifa torna os produtos mais caros para o consumidor americano, o que reduz a competitividade frente a outros fornecedores internacionais.

Professor emérito da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues ainda está estudando os impactos da medida sobre o agronegócio brasileiro, mas destaca que o setor tende a ser um dos afetados pelo tarifaço de Trump exatamente pela perda de competitividade.
No mercado de café, por exemplo, o Brasil é o principal fornecedor, com mais de 30% de participação no mercado americano. De acordo com o mais recente levantamento mensal do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), os Estados Unidos lideraram as importações do produto brasileiro de janeiro a maio, com 2.874.250 sacas de 60 quilos, o equivalente a 17,1% de todo o volume embarcado pelo País.
A nova tarifa, segundo a entidade, rompe a isonomia antes praticada entre exportadores como Brasil, Colômbia e Honduras — todos taxados em 10% —, enquanto países como Vietnã, Indonésia e Nicarágua pagavam de 18% a 30%. Na avaliação do Rabobank, o aumento da tarifa também pode resultar em perda de espaço para concorrentes.
O setor de suco de laranja é outro que pode sofrer com as tarifas de Trump. De acordo com a Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR), os Estados Unidos representaram 41,7% das exportações brasileiras de suco de laranja na safra 2024/25, encerrada em 30 de junho, com receita gerada de US$ 1,31 bilhão.
Nos cálculos do setor, a tarifa adicional imposta pelos Estados Unidos ao Brasil representa aumento de 533% sobre os US$ 415 por tonelada que já eram cobrados sobre o suco brasileiro.
Para os exportadores de suco de laranja, trata-se de uma condição insustentável para o setor, que não vê margem para absorver esse tipo de impacto.








