Desinformação sobre vacinas cresceu 689 vezes na pandemia, segundo pesquisa da FGV

Análise de mensagens no Telegram aponta que compartilhamento atual de conteúdos falsos e enganosos sobre imunizantes é 122 vezes superior ao de antes da covid-19

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Foto do autor Luciana Marschall

Um levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostra que a desinformação sobre vacinas cresceu 689 vezes na América Latina durante a pandemia, em grupos do Telegram voltados a teorias da conspiração. O número se refere à comparação entre 2019, antes do início da crise da covid, e 2021, quando a pandemia atingiu o auge.

Foram mapeadas 81 milhões de mensagens sobre o tema em 1.785 comunidades de 18 países da América Latina e do Caribe entre 2016 e 2025. Segundo os pesquisadores, esse é o maior levantamento feito sobre o ecossistema digital antivacina na região.

A pesquisa mapeou 81 milhões de mensagens como esta, que alega ser inserido um chip nos vacinados. Foto: Reprodução/Telegram

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Após o pico alcançado durante a pandemia, o volume de mensagens antivacina diminuiu, mas segue maior do que antes da crise da covid-19. Em 2025, apontam os pesquisadores, ainda circula 122 vezes mais conteúdo antivacina do que circulava em 2019.

Isso demonstra não só que a desinformação sobre vacinas não desapareceu com o fim da pandemia, como se institucionalizou como discurso permanente. Para os autores do estudo, o período funcionou como evento de aceleração e sedimentação ideológica do tema.

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A pesquisa Desinformação antivacina na América Latina e no Caribe foi publicada nesta sexta-feira, 17, Dia Nacional da Vacinação. O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores do Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop) da FGV.

Embora o aumento tenha sido registrado na pandemia de covid-19, os discursos antivacina passaram a atacar imunizantes contra outras doenças. Paralelamente, foi observada uma tendência de queda na cobertura vacinal no País.

Os pesquisadores destacaram que as taxas no Brasil regrediram de 97% em 2015 para 75% em 2020. A cobertura do ano de 2022 pode ser equiparada à de 1987, ou seja, 35 anos atrás.

Brasil é o epicentro da desinformação

O Brasil é apontado como o epicentro da desinformação antivacina, concentrando cerca de 40% de todo o conteúdo que circulou no período monitorado. Apenas no País, foram identificadas mais de 580 mil postagens dessa natureza.

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Distribuição regional das publicações sobre vacinas. Foto: Desinformação Antivacina na América Latina e no Caribe (DesinfoPop/CEAPG/FGV - 2025)

O coordenador do levantamento, o pesquisador Ergon Cugler, observa que o número maior de usuários de Telegram no Brasil explica apenas parte desse fenômeno.

Os pesquisadores também analisaram grupos no Telegram dedicados a compartilhar teorias da conspiração em geral. Nesses espaços, com usuários de diferentes países da América Latina, observou-se um volume de mensagens parecido com o do Brasil. Mas, quando analisados apenas grupos dedicados à desinformação sobre vacina, os brasileiros concentraram um volume muito maior de mensagens.

Mensagens alegam falsamente que vacinas causam aborto, por exemplo. Foto: Reprodução/Telegram

Para Cugler, a polarização política no País ao longo da pandemia foi o fator que mais impactou esse cenário. Ele cita como exemplo a postura do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) diante dos imunizantes. Em 2020, por exemplo, Bolsonaro afirmou que o povo brasileiro não seria cobaia de vacina e que ele não iria se vacinar.

“Um presidente da República falar que vacina é perigosa, que tem riscos, que não foi testada, obviamente traz sentimentos na população. É uma autoridade que está falando aquilo, não é qualquer pessoa”, comentou.

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Outra descoberta do estudo é a de que os grupos brasileiros irradiam conteúdo em português e espanhol para outras comunidades, funcionando como exportadores de narrativas conspiratórias. Ao todo, foram contabilizadas 12,8 milhões de visualizações em conteúdos multilíngues.

O que os desinformadores espalham?

Nos grupos monitorados, os pesquisadores identificaram 175 danos atribuídos pelos desinformadores às vacinas. A alegação falsa mais comum é a de que os imunizantes causam morte súbita.

O Estadão Verifica já desmentiu diversos conteúdos sobre o assunto (aqui, aqui e aqui).

Mensagens alegam falsamente que as vacinas alteram o DNA. Foto: Reprodução/Telegram

O topo do ranking apresenta ainda alegações de que as vacinas causariam alteração do DNA, "câncer turbo“, infertilidade, autismo e aborto. Tudo isso também foi desmentido pelo Verifica.

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No rastro dos danos falsos, aparecem também falsos “antídotos”. Eles são recomendados nas comunidades como forma de “desintoxicar” o corpo após a vacinação. Os pesquisadores mapearam 80 dessas abordagens.

Uma das recomendações, por exemplo, é consumir dióxido de cloro, uma substância tóxica, não recomendada para ingestão humana e com venda proibida no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Conforme Cugler, muitas dessas falsas promessas para neutralizar vacinas misturam pseudociência, espiritualidade e consumo. Como exemplo, ele cita o “aterramento”, em que usuários recomendam que as pessoas fiquem descalças na terra para “limpar energias do corpo”.

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A partir disso, os grupos também recomendam o uso de cristais e orgonites, objetos fabricados e vendidos como capazes de “transmutar” energia negativa em positiva. A ideia é convencer as pessoas de que há como “desfazer” a vacinação.

“Nesses casos está se oferecendo um estilo de vida, não é mais tomar uma substância”, explicou Cugler. “A gente vê como essas comunidades vão se sofisticando, inclusive em técnicas semelhantes às de coach”.

Um mercado que se alimenta da desinformação

Em meio à oferta de soluções, os pesquisadores identificam que existe um negócio em desenvolvimento. O levantamento mostra que as comunidades antivacina vendem desde frascos de dióxido de cloro e suplementos minerais a cursos de “aterramento quântico” e “terapias vibracionais”.

Muitos desses “antídotos” são comercializados na própria plataforma, assim como cursos e protocolos de desintoxicação de substâncias.

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“Sugerir o ‘aterramento’, por exemplo, é como se fosse a porta de entrada para vender abordagens mais complexas, como cursos online”, disse Cugler.

O 'aterramento' é sugerido como terapia para eliminar a vacina do corpo. Foto: Divulgação/Telegram

Esse ciclo tem início ao se convidar pessoas a conhecerem um outro ponto de vista. A partir disso, elas passam a comprar produtos, ingerem substâncias e participam de cursos.

Para Cugler, o “fundo do poço” foi identificar pessoas vendendo passaporte vacinal. Seriam documentos de vacinação falso para quem não quer se imunizar.

Pesquisa pode ser usada para direcionar esforços

Conforme o especialista, o que se vê no Telegram é somente a ponta do iceberg de uma cadeia que alcança famílias, espaços de trabalho e de estudo. Os participantes desses grupos podem contaminar outros a se tornarem também antivacina.

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“Basta uma pessoa fazer parte dessa rede para conseguir, eventualmente, colocar um ‘pé atrás’ nas demais pessoas com quem ela frequenta espaços”, afirmou.

Os resultados foram entregues ao Comitê Saúde Com Ciência, do governo federal. Trata-se de uma iniciativa interministerial voltada para a promoção e fortalecimento das políticas públicas de saúde e a valorização da ciência. O órgão trata das temáticas de desinformação em saúde, especialmente em vacinas. Cugler diz que o grupo de pesquisadores da FGV recebeu um convite para apresentar institucionalmente os resultados.

Segundo ele, o Ministério da Saúde conta com uma estrutura de monitoramento de redes que faz o acompanhamento de comunidades, não apenas do Telegram. Mas o estudo será capaz de ranquear as principais narrativas, ajudando a direcionar as estratégias.

“O diferencial desse trabalho é mostrar o que é mais preocupante, o que está sendo mais vendido como solução, qual a principal narrativa que está sendo disseminada contra as vacinas. Isso pode ajudar a direcionar o foco”, disse.

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A pesquisa foi desenvolvida por Ergon Cugler de Moraes Silva, mestre em Administração Pública e Governo (FGV); Julie C. Ricard, doutoranda em Administração Pública e Governo (FGV); Mario Aquino Alves; professor titular do Departamento de Gestão Pública da FGV-EAESP; Gabriel Rocha, graduando em Administração Pública (FGV-EAESP); e Stefanny Vitória, graduanda em Administração Pública (FGV-EAESP).