A Rússia é exemplo de Estado fascista

Foto: Alexander Zemlianichenko
Por Timothy Snyder
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O fascismo nunca foi derrotado como ideia e aposta suas fichas em uma vitória russa na Ucrânia

Por Timothy Snyder
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Enquanto culto à irracionalidade e à violência, o fascismo jamais foi derrotado como argumento. Enquanto a Alemanha nazista transpareceu força, europeus ficaram tentados. Somente nos campos de batalha da 2.ª Guerra o fascismo foi derrotado. Agora, ele voltou – e, desta vez, o país que promove uma guerra fascista e destruidora é a Rússia. Se ela vencer, os fascistas do mundo celebrarão.

Erramos ao limitar nossos temores sobre o fascismo às imagens de Hitler e do Holocausto. O fascismo nasceu na Itália, foi popular na Romênia – onde os fascistas eram cristãos ortodoxos que sonharam com a violência higienista – e teve adeptos por toda Europa (e Américas). Em todas as suas variantes, o fascismo trata do triunfo da vontade sobre a razão.

Por causa disso, é impossível uma definição satisfatória. As pessoas discordam sobre o que constitui o fascismo. Mas a Rússia de hoje atende à maioria dos critérios que estudiosos tendem a aplicar: possui um culto em torno de um único líder, Vladimir Putin; um culto aos mortos, organizado em torno da 2.ª Guerra; e o mito de um passado de glória imperial, a ser restaurado por uma guerra de violência libertadora – a guerra assassina na Ucrânia.

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Hitler.

Não é a primeira vez que a Ucrânia é objeto de uma guerra fascista. A conquista do país foi o maior objetivo de guerra de Hitler, em 1941. Hitler considerava a União Soviética, que governava a Ucrânia na época, um Estado judaico. Ele planejava substituir os líderes soviéticos por seus acólitos e se apossar dos férteis solos ucranianos.

A União Soviética morreria de fome, e a Alemanha se tornaria um império. Ele imaginou que isso seria fácil porque a União Soviética, segundo sua percepção, era uma criação artificial, e os ucranianos, um povo colonial. As semelhanças com a guerra de Putin são impressionantes.

Presidente Vladimir Putin durante cerimônia em Moscou pelo 77º aniversário do fim da 2ª Guerra
Presidente Vladimir Putin durante cerimônia em Moscou pelo 77º aniversário do fim da 2ª Guerra 

O Kremlin define a Ucrânia como um país artificial, cujo presidente judeu prova que seu estatuto de Estado não pode ser genuíno. Após a eliminação de uma pequena elite, segue o pensamento, as massas incultas aceitariam alegremente o domínio russo. Hoje, é a Rússia que nega ao mundo os alimentos da Ucrânia, ameaçando o sul global com a fome.

Muitos hesitam em considerar a Rússia de hoje fascista, porque a União Soviética de Stalin se autodefinia como antifascista. Mas esse uso do termo não ajudou a definir o que é o fascismo – e é mais que confuso atualmente. Com a ajuda de americanos, britânicos e aliados, a União Soviética derrotou a Alemanha nazista em 1945. Sua oposição ao fascismo, no entanto, foi inconsistente.

Stalin.

Antes de Hitler ascender ao poder, em 1933, os soviéticos tratavam os fascistas apenas como mais um entre os inimigos capitalistas. Partidos comunistas da Europa tinham de considerar inimigos todos os outros partidos. Essa política, na realidade, contribuiu para a ascensão de Hitler. Apesar de superar os nazistas em número, os comunistas e socialistas alemães não conseguiam cooperar entre si.

Depois desse fiasco, Stalin ajustou sua política, exigindo que partidos comunistas europeus formassem coalizões para bloquear os fascistas. Isso não durou muito. Em 1939, a União Soviética juntou-se à Alemanha nazista numa aliança de facto, e as duas potências invadiram juntas a Polônia.

Discursos nazistas eram reproduzidos pela imprensa soviética, e oficiais nazistas admiravam a eficiência soviética em deportações em massa. Mas os russos de hoje não falam disso, já que leis de memória criminalizam esta ação.

A 2.ª Guerra é um elemento do mito histórico de Putin a respeito da inocência da Rússia e da perda de sua grandeza – a Rússia deve monopolizar em termos de vitimização e vitória. Mas o fato básico de que Stalin possibilitou a 2.ª Guerra ao se aliar com Hitler deve ser indizível e impensável.

Simpatizantes marcham com bandeiras soviéticas e a foto do ditador Josef Stalin em sua cidade natal de Gori, na Geórgia
Simpatizantes marcham com bandeiras soviéticas e a foto do ditador Josef Stalin em sua cidade natal de Gori, na Geórgia 

A flexibilidade de Stalin com o fascismo é crucial para se entender a Rússia de hoje. Sob Stalin, o fascismo era primeiramente irrelevante, depois foi mau, depois foi bom – até que Hitler traiu Stalin e a Alemanha invadiu a União Soviética – e então virou mau outra vez.

Definição.

Mas ninguém nunca definiu o que significa o fascismo. Era como se o fascismo fosse uma caixa na qual pode-se colocar de tudo. Comunistas foram expurgados enquanto fascistas. Durante a 2.ª Guerra, americanos e britânicos viraram fascistas. E o “antifascismo” não impediu Stalin de mirar judeus em seu último expurgo, nem seus sucessores de equiparar Israel à Alemanha nazista.

O antifascismo soviético, em outras palavras, foi uma política de nós contra eles. Isso não combate o fascismo. Afinal, conforme afirmou o pensador nazista Carl Schmitt, a política fascista começa com a definição de um inimigo. Já que o antifascismo soviético não vai além da definição do inimigo, ele ofereceu ao fascismo um caminho para retornar à Rússia pela porta dos fundos.

Na Rússia do século 21, o “antifascismo” virou o direito de um líder russo definir inimigos. Fascistas russos verdadeiros, como Aleksandr Dugin e Aleksandr Prokhanov, ganharam espaço nos meios de comunicação. E o próprio Putin inspirou-se na obra de Ivan Iliin, ideólogo fascista do entreguerras. Para o presidente, um “fascista” ou um “nazista” é quem se opõe a ele ou ao seu plano de destruir a Ucrânia. Os ucranianos são “nazistas” porque não querem aceitar que são russos.

Um viajante do tempo vindo dos anos 30 não teria nenhuma dificuldade em identificar o regime de Putin como fascista. O símbolo Z, os comícios, a propaganda, a guerra enquanto ato libertador e as valas comuns nas cidades ucranianas tornam tudo muito evidente. A guerra contra a Ucrânia não é apenas um retorno ao tradicional campo de batalha fascista, mas também a volta da narrativa fascista. Outros povos existem para ser colonizados. A Rússia é inocente em razão de seu passado ancestral. A existência da Ucrânia é uma conspiração internacional. A resposta é a guerra.

Ucrânia.

Em razão de Putin se referir a fascistas como o inimigo, podemos ter dificuldade para compreender que o fascista na verdade pode ser ele. Mas na guerra russa, “nazista” significa “inimigo sub-humano” – alguém que os russos podem matar. Discursos de ódio direcionados aos ucranianos fazem com que eles se tornem mais fáceis de assassinar, como vemos em Bucha e Mariupol. Covas coletivas não são um acidente, mas uma consequência da guerra fascista de destruição.

Prédios destruídos por bombardeios russos na cidade ucraniana de Mariupol
Prédios destruídos por bombardeios russos na cidade ucraniana de Mariupol  

Fascistas chamando os outros de “fascistas” é o fascismo levado ao extremo ilógico, como um culto à irracionalidade. É um ponto final em que o discurso de ódio inverte a realidade e a propaganda vira pura insistência. É o apogeu da vontade sobre a razão.

Chamar os outros de fascistas quando se é fascista é a essência do putinismo. O filósofo americano Jason Stanley classifica isso como “propaganda subversora”. Eu classifico como “esquizofascismo”. Os ucranianos possuem a formulação mais elegante: “ruscismo”.

Compreendemos melhor o fascismo hoje do que nos anos 30. Hoje, sabemos aonde ele leva. Deveríamos reconhecer o fascismo, porque desta maneira saberemos com o que estamos lidando. Mas reconhecê-lo não significa desfazê-lo.

Risco.

Fascismo é a mística de um homem que cura o mundo com violência e será sustentado por propaganda até o fim. Ele somente pode ser desfeito por meio de demonstrações da fraqueza de seu líder. O líder fascista tem de ser derrotado, o que significa que aqueles que se opõem a ele têm de fazer o que for necessário para derrotá-lo. Somente depois disso os mitos são derrubados.

Da mesma maneira que nos anos 30, a democracia está em retrocesso no mundo, e fascistas se mobilizam para guerrear contra vizinhos. Se a Rússia vencer na Ucrânia, não será apenas a destruição de uma democracia pela força, apesar disso já ser ruim o suficiente; mas significará a desmoralização das democracias. Mesmo antes da guerra, os amigos da Rússia – Marine Le Pen, Viktor Orbán, Tucker Carlson – já eram inimigos da democracia.

Vitórias fascistas na guerra podem confirmar que querer é poder, que a razão só serve aos perdedores e as democracias devem fracassar. Se a Ucrânia não tivesse resistido, esta seria uma primavera negra para os democratas. Se a Ucrânia não vencer, podemos esperar décadas de escuridão. TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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