Escreve toda semana sobre temas políticos, econômicos e diplomáticos da América Latina e dos Estados Unidos

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No meio da Copa, Trump faz um gol contra no Irã

O presidente americano se rendeu a uma das ditaduras mais brutais do mundo

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Foto do autor Andrés Oppenheimer

Entenda o que está em jogo no cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã

Guia do Adulto Premium é um programa semanal que descomplica assuntos do noticiário. Crédito: Larissa Burchard/Estadão

O acordo preliminar do presidente Donald Trump com o Irã foi um tiro no próprio pé para os EUA, deixando a ditadura teocrática de Teerã mais forte do que antes. Mas ainda mais surpreendentes foram as declarações subsequentes de Trump, que se resumiram a pouco mais do que elogiar o brutal regime iraniano e justificar sua posse de mísseis balísticos.

Defendendo seu acordo contra uma onda de críticas nos Estados Unidos e em Israel, Trump disse em 16 de junho que os atuais líderes iranianos “são muito racionais”. Ele acrescentou que “foi bom lidar com eles. Eles eram pessoas fortes e inteligentes” e “não radicalizadas”, ao contrário de seus antecessores que foram mortos nos primeiros dias do conflito.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, participa de uma coletiva de imprensa, em Evian Foto: Mandel Ngan/AFP

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Sério? Não é preciso um doutorado em psicologia para deduzir que o atual Líder Supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, se radicalizou ainda mais após as mortes de seu pai, mãe, esposa e filho. O acordo assinado pelo Irã é simplesmente uma estratégia para ganhar tempo e retornar à luta mais forte.

Pior ainda, Trump — numa mudança radical em relação à posição anterior dos EUA — disse, após a assinatura do acordo, que seria injusto proibir o Irã de possuir mísseis balísticos.

“Se outros países os têm, seria um pouco injusto se eles não tivessem alguns”, disse o presidente, acrescentando que a Arábia Saudita e o Catar possuem mísseis balísticos. O que ele omitiu é que, ao contrário do Irã, esses países normalmente não os utilizam para bombardear seus vizinhos.

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O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, participa de uma negociação ao lado de Steve Witkoff e Jared Kushner, em Lucerne, na Suíça Foto: Nathan Howard/AFP

Nos primeiros dias da guerra, Trump havia afirmado que os Estados Unidos alcançariam uma “vitória total e completa” e que o regime iraniano renunciaria incondicionalmente às suas ambições de possuir uma bomba atômica. Ele também afirmou que o regime iraniano encerraria seus ataques com mísseis e seu apoio a grupos terroristas como o Hamas e o Hezbollah.

Mas, em seu pacto com o Irã, Trump fez concessões importantes antecipadamente em troca de praticamente nada.

O acordo suspende o bloqueio naval dos EUA aos portos iranianos e permite que o Irã retome suas exportações de petróleo, o que renderá a Teerã até US$ 60 bilhões em receita nos próximos doze meses.

Em contrapartida, o Irã se compromete a reabrir o Estreito de Ormuz — por onde passa 20% do petróleo mundial — sem cobrar pedágio “apenas” pelos próximos 60 dias, após os quais poderá cobrar pela passagem de navios.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, discursa em Suffern, Nova York Foto: Brendan Smialowski/AFP

Em relação às armas nucleares, o Irã se compromete a não fabricá-las, algo que já havia feito por escrito em 1970 e em seu acordo com o ex-presidente Barack Obama em 2015. No entanto, pressionado pela alta dos preços do petróleo e pela queda de popularidade a poucos meses das eleições de meio de mandato de novembro, Trump recuou e assinou um acordo que não atinge nenhum de seus objetivos iniciais.

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O próprio Trump reconheceu, poucos dias após a assinatura do acordo, que temia uma “catástrofe econômica” caso a guerra continuasse.

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Ian Bremmer, presidente da consultoria de risco geopolítico Eurasia, disse-me em uma entrevista recente que a guerra contra o Irã foi “um extraordinário gol contra” dos Estados Unidos.

“Substituímos o antigo Líder Supremo por um mais jovem, com uma Guarda Revolucionária Islâmica linha-dura, forte e coesa. E eles estão se sentindo confiantes, a ponto de já estarem relaxando seus controles sobre a internet.”

Em relação ao Estreito de Ormuz, Bremmer observou que os iranianos demonstraram que agora podem controlar a passagem de navios por ali. “Portanto, parece que o Irã está saindo desta guerra em uma posição mais forte do que antes”, disse-me ele.

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Trump afirma que, se o Irã não atender às suas exigências em 60 dias após a assinatura do acordo, ele atacará novamente. Mas duvido muito que o faça, porque ele precisa que os americanos esqueçam a guerra com o Irã mais do que nunca, pelo menos até novembro.

Minha humilde previsão? Trump continuará a afirmar que seu acordo com o Irã foi uma grande vitória e, em seguida, como aconteceu com a reconstrução de Gaza e a guerra na Ucrânia que ele prometeu resolver “no primeiro dia da minha presidência”, desviará a atenção global para uma nova crise, real ou imaginária. Enquanto isso, ele se rendeu a uma das ditaduras mais brutais do mundo.

Opinião por Andrés Oppenheimer

Andrés Oppenheimer foi considerado pela revista Foreign Policy 'um dos 50 intelectuais latino-americanos mais influentes' do mundo. É colunista do The Miami Herald, apresentador do programa 'Oppenheimer Apresenta' na CNN em Espanhol, e autor de oito best-sellers. Sua coluna 'Informe Oppenheimer' é publicada regularmente em mais de 50 jornais