Eleição na Guatemala terá impacto crucial até mesmo nas pequenas cidades; leia a análise

Colunista da AQ compareceu a comícios nos dias finais da campanha. Todos pareciam cientes dos riscos para a democracia

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Por Will Freeman

Este vilarejo rural esconde-se em meio a um denso labirinto de montanhas a apenas 50 quilômetros do centro da Cidade da Guatemala, mas a sensação é que fica a um mundo de distância. Leva quase meio dia dirigindo em estradas de terra quase verticais — se você tiver sorte — para chegar à localidade. Mas até aqui é possível sentir que a Guatemala está em meio à eleição presidencial mais importante em décadas — capaz de determinar se a democracia guatemalteca sobreviverá ou se desvanecerá.

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O segundo turno em 20 de agosto opõe o candidato centrista Bernardo Arévalo, anticorrupção, e seu Movimento Semente à rival conservadora Sandra Torres, do establishment. Arévalo — outsider da política que apareceu do nada e terminou em segundo lugar no primeiro turno em 25 de junho — promete limpar a política e governar de maneira inovadora e transparente. Enquanto isso, Torres dobrou a aposta em valores sociais conservadores e tem se vendido como uma pragmática experiente, com sabedoria para combater a pobreza e a fome onipresentes na Guatemala. Uma horda composta pelas facções mais corruptas — que tentaram repetidamente eliminar Arévalo e seu partido da disputa, mas parecem ter fracassado, pelo menos por agora, graças a um amplo esforço pró-democracia empreendido por atores domésticos e internacionais — acompanha tudo de perto.

As pesquisas mais recentes mostram Arévalo bem à frente, com até 30 pontos porcentuais de vantagem. Ainda assim, para ganhar a corrida, Arévalo e seu partido precisam vencer em lugares historicamente dominados pela política tradicional, como La Alta Montaña — longe da base do partido entre a nova classe média que vive dentro e no entorno da Cidade da Guatemala e em outros centros urbanos.

A candidata a presidência da Guatemala Sandra Torres conversa com jornalistas  Foto: Johan Ordonez/AFP

Eu acompanhei três legisladores do Movimento Semente, de Arévalo, todos com menos de 40 anos, como tende a ser o caso em relação à maior marte da liderança da legenda, millennial e Geração-Z, até La Alta Montaña em um sábado recente, onde eles reuniram algumas dúzias de líderes comunitários rurais para expor seus argumentos. Comum à campanha apertada de dinheiro do partido, nós chegamos ao vilarejo em carros de quatro portas e picapes emprestadas que mal atendiam às necessidades da tarefa.

Ao lado de um prédio pintado com o verde e branco do partido de Torres, a Unidade Nacional da Esperança (UNE), a congressista Victoria Palala, na função desde 2019, pegou o microfone e prometeu aos líderes rurais que Arévalo governará de forma muito diferente do que presidentes passados: pondo fim à compra de votos no Congresso, à troca de cargos públicos por apoio político e à corrupção na concessão de contratos públicos. Se o Movimento Semente tiver de tentar isso sozinho, com apenas 23 assentos no Congresso de 160, que assim seja, seus integrantes ainda lutarão por assistência de saúde mais barata e acessível e melhores escolas. “Eu estaria mentindo para vocês se eu lhes dissesse que em quatro anos conseguiremos fazer tudo”, disse Palala aos líderes reunidos, “mas nós podemos abrir o caminho e dar os primeiros passos na direção da mudança”.

Essa mensagem de um novo estilo de política, menos transacional, mesmo que signifique confrontar grandes obstáculos, ressoa entre uma multidão com pouca fé na política tradicional e no Estado. “Corrupção zero é tudo. Corrupção é um câncer que está destruindo o país”, afirmou o líder comunitário Roberto Gramajo, de Monte Redondo, nas proximidades.

Candidato a presidência da Guatemala Bernardo Arévalo discursa para apoiadores na Cidade da Guatemala  Foto: Moises Castillo / AP

Apesar de Torres ter focado sua mensagem nas semanas finais da campanha sobre o que ela percebe como a ameaça de Arévalo aos valores sociais conservadores, os católicos e evangélicos no comício pareciam preocupar-se mais com o combate à corrupção e em melhorar os sistemas de saúde e educação do que com o espectro da ideologia de gênero ou do casamento igualitário. “Eu confio primeiro em Deus. E em segundo lugar no Semente”, afirmou Ana, a mulher de Roberto. A relativa juventude dos candidatos do Movimento Semente é um trunfo, não um demérito, afirmavam várias pessoas na multidão. Qualquer candidato mais velho ou experiente passa a impressão de que já pode ter sido corrompido pelas manobras de bastidores, negociações e propinas da política tradicional. “Vocês serão bloqueados no Congresso”, afirmou um líder rural no microfone do Movimento Semente, “mas nós apoiaremos vocês”.

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Em outra região montanhosa, do lado oposto da Cidade da Guatemala, na pequena San Lucas de Sacatepéquez, um comício com orçamento muito maior, do partido UNE, de Torres, tomou corpo. Três picapes carregadas com caixas de comida encaminharam-se à praça central, onde o prefeito da UNE e o partido do presidente Alejandro Giammattei emergiram como peças fundamentais da estratégia eleitoral de Torres. Se ela mantinha alguma esperança de diminuir a vantagem de Arévalo, isso ocorreria com apoio dos prefeitos, que podiam acionar equipamentos e arrolar recursos para levar os eleitores de Torres às urnas em grandes números no 20 de agosto.

O comício da UNE teve uma oração pública, shows de mágica e fogos de artifício e a apresentação de uma banda de salsa antes de qualquer menção à política. Mas quando o prefeito da UNE pediu para os presentes votarem em Torres, o silêncio tomou conta, e algumas pessoas vaiaram. “Apoiar a UNE é como pertencer a uma religião ou torcer para um time de futebol”, disse-me no comício o funcionário municipal Edgar Ramírez, de 65 anos, conforme circulava pelo evento acompanhado de amigos e vizinhos. “Mas no fim das contas, nós temos de tomar nossas decisões. Nove em cada dez pessoas aqui votarão no Semente mas não admitem, por medo.”

Apesar de uma vasta vantagem financeira sobre seu rival e muito mais experiência política, Torres, que perdeu os últimos dois segundos turnos presidenciais por margens superiores a 10 pontos porcentuais, parece novamente arrastar-se até a linha de chegada. Camaleoa da política, Torres passou por várias reinvenções: mais recentemente, afastou-se do populismo econômico de centro-direita que construiu sua base entre a população rural e pobre, o que lhe rendeu inimizade das elites empresariais tradicionais quando ela foi primeira-dama (2008-11). Agora, Torres se define como uma conservadora social linha-dura, em aliança com igrejas evangélicas e a Associação de Militares Veteranos da Guatemala, de extrema direita.

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Para o congressista da UNE Adim Maldonado, de 33 anos, aliado próximo de Torres, a guinada conservadora de seu partido era aguardada havia muito. Ele me disse que percebe o Estado guatemalteco como um sistema severamente danificado pelos anos de “desordem” posteriores a 2015, quando protestos massivos forçaram o então presidente, Otto Pérez, a renunciar, e o comediante outsider Jimmy Morales se elegeu para suceder-lhe. “Em 2015, nós elegemos um não político. E em 2019, um quase político”, afirmou Maldonado, referindo-se a Giammattei. Maldonado e outros em seu partido veem o Movimento Semente como similarmente — e perigosamente — inexperiente, com uma visão de esquerda de transformação social ampla que vai muito além das posições descritas durante a campanha.

Mas a ideia de que a política se tornou antiestablishment demais ou de que os guatemaltecos estão ávidos para retornar a tempos anteriores é difícil de vender num país farto de estradas em péssimas condições, preços de eletricidade e assistência médica nas alturas e escândalos de corrupção que parecem eclodir incessantemente. O alinhamento próximo da UNE com Giammattei no Congresso desde 2020 levanta dúvidas a respeito das promessas de Torres de operar mudanças.

Apoiadores da candidata presidencial Sandra Torres, do partido UNE, assistem ao comício de encerramento de sua campanha no mercado La Terminal, na Cidade da Guatemala Foto: Moises Castillo/ AP

Ainda assim, os dias imediatamente anteriores e posteriores ao 20 de agosto poderão ser os mais incertos e tensos desde o retorno da democracia na Guatemala. No comício de encerramento da campanha do Movimento Semente, em 16 de agosto, na Praça Central da Cidade da Guatemala, Arévalo discursou para uma multidão de milhares, expondo sua agenda anticorrupção e vociferando contra seus oponentes da classe política tradicional, incluindo Torres. Após o primeiro turno da eleição, em 25 de junho, os partidos perdedores e a procuradora-geral da Guatemala, que é sancionada pelos Estados Unidos por corrupção, lançaram uma batalha jurídica que quase eliminou Arévalo e seu partido da corrida. “Suas ameaças não nos assustam mais, suas acusações não nos assustam mais!”, bramiu Arévalo.

Mas ainda há motivo para preocupação. Se Arévalo vencer em 20 de agosto, há uma grande chance de os dias que se seguirem serem marcados não por celebrações, mas por novos crimes com motivação política, tentativas de anular votos ou pior. Apesar de Arévalo ter subido ao palco com segurança mínima, membros do Movimento Semente foram procurados extraoficialmente por autoridades civis e militares de inteligência que lhes informaram a respeito de várias possíveis conspirações contra ele. Há uma sensação generalizada em toda a Guatemala de que o país caminha para um ponto de inflexão muito parecido a outros anos determinantes: a democratização, em 1944; o golpe militar, em 1954; ou os protestos massivos, em 2015. Após o 20 de agosto, qualquer coisa — para o bem ou para o mal — poderá acontecer. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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