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Como os jornais preparam obituários? Veja como o ‘New York Times’ escreveu o de Henry Kissinger

Um dos responsáveis pelo texto havia morrido em 2010 e um dos principais repórteres do jornal foi indicado para atualizar a reportagem

Por David E. Sanger

Esta reportagem foi escrita pelo jornalista americano David E. Sanger sobre o processo de escrever o obituário de Henry Kissinger, ex-secretário de Estado morto na semana passada.

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“David”, disse-me Henry Kissinger certo dia no verão de 2017, depois da longa entrevista que foi publicada na noite da quarta-feira no New York Times, “você está escrevendo um daqueles artigos que aparecerão quando eu não puder mais argumentar com sua premissa?”. E falou isso com brilho maroto nos olhos. Numa série de conversas ao longo de sete anos, eu dizia ao Sr. Kissinger, quando ele perguntava, que estava “escrevendo sobre sua vida”.

O mestre das nuances diplomáticas sabia exatamente o que isso significava. Poucos indivíduos entrevistados para a elaboração de seus obituários gostam de ser recordados explicitamente demais a respeito de sua finitude. Mas Henry Kissinger não se tornou Henry Kissinger sem cuidar meticulosamente de sua própria imagem, e naquela ocasião ele esperava uma resposta para sua pergunta.

“Sr. Secretário”, eu disse finalmente, “conhecendo-o, sei que o senhor dará um jeito”. Ele riu e nós seguimos a conversa.

Kissinger, quando ainda era professor na Universidade de Harvard 

Um obituário especial

Não há como escrever sobre a vida de Henry Kissinger sem enfurecer o mundo inteiro. Sua história foi notável: um imigrante que chegou a Nova York entre os últimos judeus que escapariam do regime nazista, subiu na vida até se tornar secretário de Estado e, ao longo de quatro décadas, fez mais para moldar a diplomacia do país que adotou do que quase qualquer outra pessoa no século 20.

Aos seus 95 anos, era difícil imaginar que aquele curvado combatente da Guerra Fria, cujos murmúrios e forte sotaque com frequência imitados tornavam difícil compreendê-lo, poderia ter incitado tamanhas paixões ao longo de décadas.

Mas ainda que o tom de Kissinger tenha se abrandado durante a velhice, como quase tudo a respeito dele, essa posição foi altamente calculada. Ele sabia que muitos de seus colegas de ensino médio e faculdade participaram, quando ele esteve no poder, de protestos que o classificavam como um criminoso de guerra.

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A verdade, evidentemente, era mais complicada, e emerge de uma série de sacrifícios, contrapartidas e concessões, tanto pessoais quanto profissionais, que forjaram as maneiras que as pessoas pensam sobre Kissinger: como um homem que fez vistas grossas enquanto ditadores matavam milhares; ou que salvou o mundo da calamidade nuclear. Os incêndios que ele iniciou arderam por décadas. Isso me arrebatou toda vez que entrevistei seus amigos, inimigos ou amigos que se tornaram seus inimigos.

Kissinger fala sobre a Guerra do Vietnã quando ainda servia na Casa Branca Foto: Anonymous

Muita reportagem

Mas era claro que, não importasse o juízo que as pessoas tivessem dele — enquanto arquiteto do poder americano no pós-2.ª Guerra ou um apologista indiferente dos maiores ditadores do mundo — escrever sobre sua vida exigiria muita reportagem.

Isso significava entrevistar várias vezes Kissinger, indivíduos que trabalharam como ele, pessoas que brigaram com ele, quem admirava sua visão e quem desprezava suas táticas. E ele não tinha parado de trabalhar: aos 95 anos, Kissinger conseguia ficar até as 23h numa mesa de jantar falando a respeito de tudo, desde as lacunas de entendimento a respeito do mundo de Donald Trump até as maneiras pelas quais a inteligência artificial seria capaz de desestabilizar as grandes potências e tornar mais provável que elas usem seus arsenais nucleares.

Já que não pude cobrir Kissinger quando ele esteve no governo — eu tinha 16 anos quando ele deixou o Departamento de Estado — ser pautado para escrever seu obituário foi uma oportunidade tanto para aprender quanto para analisar seu papel na criação da ordem mundial do pós-2.ª Guerra, que tem sido desafiada por adversários dos EUA.

Eu tive um material bruto excelente: um extenso e estudadamente imparcial rascunho de obituário escrito por Michael Kaufman, um ex-correspondente no exterior e ex-editor do Times morto em 2010.

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Um novo olhar

Mas o tempo tinha acometido aquele texto, e editores consideraram que o legado de Kissinger precisava de um olhar atualizado. A competição com a Rússia estava virando um confronto aberto e, mesmo antes da invasão à Ucrânia, Kissinger vinha expressando alertas premonitórios a respeito da direção de Vladimir Putin.

A China tinha ascendido a uma velocidade que nem mesmo o homem que arquitetou a abertura americana a Pequim tinha imaginado — e a relação que ele cultivou por tantos anos estava em declínio acentuado. Rússia e China estavam desenvolvendo uma parceria, exatamente o que ele tentou evitar no início dos anos 70.

O próprio Kissinger tinha passado a pensar a respeito de novos desafios: aos 95 anos, o homem que seis décadas antes tinha escrito um dos primeiros livros populares sobre como as armas nucleares estavam reformulando o equilíbrio de poder no mundo iniciou uma série de artigos a respeito das maneiras que a inteligência artificial ameaça fazer o mesmo atualmente. Eu discordei de seus argumentos, mas depois pensei, ‘Quantos nonagenários estão escrevendo sobre as implicações globais do ChatGPT?’.

Eis a contradição de Henry Kissinger. Poucos usaram o poder nacional bruto mais cruamente ou pensaram sobre ele com mais sutileza.

Kissinger escreveu memórias volumosas pela mesma razão que Churchill: ele quis ser o primeiro a definir seu próprio papel da maneira mais positiva possível, omitindo quase todos os momentos mais infames.

Seu erro foi viver o suficiente para que tantos de seus antigos memorandos e cabos diplomáticos deixassem de ser classificados como secretos, incluindo aqueles que relevaram seus atos mais nefastos. Mas é impossível não admirar a maneira que Kissinger continuou pensando constantemente a respeito de desafios não presentes no mundo que ele conheceu originalmente.

Meu objetivo ao conversar com ele era atraí-lo para fora tanto do passado quanto do futuro. Alguns dias eu era mais bem-sucedido que em outros.

Uma sequência de conversas

Em 2012, Richard Solomon, um dos ex-assessores de Kissinger e então presidente do Instituto dos Estados Unidos para a Paz, pediu-me para entrevistar o ex-secretário de Estado em um grande evento público. Kissinger respondeu minhas perguntas falando sobre todos os pontos de sua agenda, defendendo todas as decisões e desviando de todas as críticas.

Kissinger foi muito mais revelador do que na ocasião em que eu desempenhei o mesmo papel em 2018, no Centro Internacional para Acadêmicos Woodrow Wilson, conforme ele discorreu a respeito de seu cálculo de explorar a visão de Mao para a China e sobre como ele teria lidado com as complexidades muito maiores do momento.

Durante esse processo eu não me tornei amigo de Kissinger; nós conhecíamos os papéis um do outro nessa estranha coreografia, e eu mantive a distância profissional. Mas enquanto escrevia e reescrevia seu obituário, certas singularidades não me saíam da cabeça.

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Kissinger cresceu na Alemanha pré-2.ª Guerra, numa cidade a apenas 65 quilômetros de onde a família do meu pai tinha fugido em meados do século 19. Durante uma viagem de reportagem à Alemanha, eu fui conhecer o prédio de apartamentos em que Kissinger foi criado e caminhei pelo parque onde ele jogava futebol. (No dia da minha visita, o lugar estava repleto de refugiados sírios.)

E a primeira vez que eu ouvi a respeito de Kissinger foi numa história contada por minha avó Dorothy Samuels. Acontece que, logo após os Kissingers buscarem refúgio em Nova York, minha avó contratava com frequência Paula Kissinger, futura mãe do secretário de Estado, para serviços de bufê de pequenos jantares na Rua 88 Leste. Conforme trabalhava na cozinha, Paula Kissinger falava a respeito do brilhantismo de seu filho mais novo, que na época frequentava a Escola de Ensino Médio George Washington.

“Nós apenas assentíamos com a cabeça, pensando que ela era como toda mãe orgulhosa”, recordou-se Samuels anos depois. “Mas ela estava certa.”

Décadas depois, quando tive aulas de ciência política com alguns ex-colegas de Kissinger na academia, eu rapidamente descobri dois campos: indivíduos que admiram a maneira que ele manipulou o poder americano e indivíduos que o desprezam. Havia pouco meio-termo. “Nós sempre devemos ser gentis ao falar dos mortos”, disse-me um deles quando o entrevistei para o obituário, “exceto neste caso”.

Um papo revelador

Uma das minhas entrevistas privadas com Kissinger mais reveladoras ocorreu em 2017, em Kent, Connecticut, onde ele mantinha um segundo lar. Ambos compareceríamos a uma conferência, e ele concordou em gastar uma hora comigo num fim de uma tarde de verão. Meu filho Ned, iniciando o 3.º ano da faculdade, estava comigo, e Kissinger o convidou para se juntar à conversa.

Kissinger começou a falar com Ned primeiramente a respeito do cão que ele havia escondido por um semestre inteiro dentro de seu quarto no dormitório de Harvard e então sobre como lidou com Richard Nixon nos dias finais de sua presidência. Então Vietnã — com alguns dos comentários mais reveladores que eu já ouvi dele a respeito de erros no entendimento americano sobre a raiz do conflito. Ned fez algumas perguntas, e foi como se décadas tivessem derretido: o professor Kissinger tinha voltado à sala de aula, mesclando anedotas com observações geopolíticas.

Eu calei a boca e anotei. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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