Além de uma intervenção americana que poderá moldar o destino do programa nuclear do Irã, dois fatores ajudarão a decidir a duração da guerra entre Israel e o Irã: a reserva de interceptadores de mísseis de Israel e o estoque de mísseis de longo alcance do Irã.
Desde que o Irã começou a retaliar contra os ataques israelenses na semana passada, o sistema de defesa aérea de Israel — considerado o mais avançado do mundo — tem interceptado a maioria dos mísseis balísticos iranianos, dando mais tempo para a Força Aérea de Israel atacar alvos no Irã sem sofrer grandes perdas em casa.

Agora, com a guerra se arrastando, Israel está disparando interceptadores mais rápido do que consegue produzi-los. Isso levantou questionamentos dentro do sistema de segurança israelense sobre se o país ficará sem mísseis de defesa aérea antes que o Irã esgote seu arsenal balístico, de acordo com oito autoridades, atuais e antigas.
Segundo as autoridades ouvidas, o Exército de Israel já precisou começar a racionar o uso de interceptadores, dando prioridade à defesa de áreas densamente povoadas e de infraestruturas estratégicas. A maioria dos entrevistados falou sob condição de anonimato para poder se expressar com mais liberdade.
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“Interceptadores não são grãos de arroz”, disse o general de brigada Ran Kochav, que comandou o sistema de defesa aérea de Israel até 2021 e ainda atua na reserva. “O número é finito.”
“Se um míssil estiver prestes a atingir as refinarias de Haifa, está claro que é mais importante interceptá-lo do que outro que vai cair no deserto do Negev”, afirmou o general Kochav. Racionar os interceptadores israelenses é “um desafio”, acrescentou. “A gente consegue, mas é um desafio.”
Questionado sobre os limites de seu arsenal de interceptadores, o Exército israelense respondeu em uma breve nota que está “preparado e pronto para lidar com qualquer cenário, operando de forma defensiva e ofensiva para eliminar as ameaças contra os civis israelenses.”
No início da guerra, alguns oficiais israelenses estimaram que o Irã possuía cerca de 2 mil mísseis balísticos. De acordo com autoridades israelenses, entre um terço e a metade desse arsenal já foi utilizado — seja porque o Irã os lançou contra Israel, seja porque Israel atacou os depósitos onde estavam armazenados. O Irã passou a disparar bem menos mísseis em seus ataques mais recentes, possivelmente ciente do risco de ficar sem munição. A missão iraniana na ONU não respondeu a um pedido de comentário.
Ao mesmo tempo, Israel também está consumindo rapidamente seus interceptadores. Até a manhã de quarta-feira, o Irã havia disparado aproximadamente 400 mísseis; cerca de 40 deles conseguiram driblar o sistema de defesa aérea de Israel e atingiram bairros israelenses, segundo as Forças de Defesa de Israel. Os 360 restantes foram interceptados ou monitorados até caírem em áreas desabitadas ou no mar, informou o Exército. Alguns dos mísseis iranianos podem ter sido atingidos mais de uma vez, e o número total de interceptadores utilizados não está claro.
Nenhum oficial israelense revelou quantos interceptadores ainda restam à disposição do país. A divulgação de um segredo tão sensível poderia dar ao Irã uma vantagem militar.
A resposta afetará a capacidade de Israel de sustentar uma guerra de desgaste de longo prazo. A natureza da guerra será, em parte, decidida pela decisão do presidente Trump de se juntar a Israel no ataque à instalação de enriquecimento nuclear do Irã em Fordo, no norte do Irã, ou pela decisão do Irã de abandonar seu programa de enriquecimento para impedir tal intervenção.
Mas o desfecho da guerra também dependerá de quanto tempo ambos os lados conseguirão suportar os danos às suas economias, além do impacto sobre o moral nacional causado pelo crescente número de mortes entre civis.
Israel conta com pelo menos sete tipos diferentes de defesa aérea. A maioria desses sistemas é automatizada e utiliza radares para detectar mísseis inimigos, oferecendo aos oficiais sugestões sobre como interceptá-los. Em alguns casos, os militares têm apenas segundos para reagir a disparos de curto alcance, enquanto em outros, dispõem de alguns minutos para decidir como responder a ataques de longo alcance. Em certas situações, os sistemas automatizados não fornecem nenhuma recomendação, deixando a decisão inteiramente nas mãos dos oficiais, explicou o general Kochav.
O sistema Arrow intercepta mísseis de longo alcance em altitudes elevadas; o sistema David’s Sling os intercepta em altitudes mais baixas; enquanto o Iron Dome neutraliza foguetes de curto alcance — geralmente disparados da Faixa de Gaza — ou fragmentos de mísseis já interceptados por outros sistemas de defesa.
Os Estados Unidos forneceram pelo menos dois sistemas de defesa adicionais, alguns dos quais são disparados de navios no Mar Mediterrâneo. Israel também está testando uma nova tecnologia de feixe de laser, ainda relativamente pouco testada. Por fim, caças são mobilizados para abater drones de movimento mais lento.
Alguns israelenses acreditam que chegou a hora de encerrar a guerra antes que as defesas do país sejam colocadas à prova de maneira mais severa. Pelo menos 24 civis já foram mortos pelos ataques iranianos, e mais de 800 ficaram feridos. Infraestruturas estratégicas, como refinarias de petróleo no norte de Israel, foram atingidas, assim como residências civis. Um hospital no sul de Israel foi atingido na manhã de quinta-feira.
Já elevado para os padrões israelenses, o número de mortos pode aumentar drasticamente se o Exército for forçado a restringir o uso geral de interceptadores para garantir a proteção de longo prazo de alguns poucos locais estratégicos — como o reator nuclear de Dimona, no sul de Israel, ou o quartel-general militar em Tel Aviv.
“Agora que Israel conseguiu atingir a maioria dos alvos nucleares no Irã, o país tem uma janela de dois ou três dias para declarar vitória e encerrar a guerra,” disse Zohar Palti, ex-alto oficial do Mossad, a agência de inteligência israelense.
“Ao planejar a defesa de Israel para guerras futuras, ninguém imaginou um cenário em que estaríamos lutando em tantas frentes e defendendo o país contra tantas ondas de mísseis balísticos,” disse Palti, que por anos esteve envolvido no planejamento defensivo de Israel.
Outros, no entanto, estão confiantes de que Israel conseguirá resolver o problema destruindo a maior parte dos lançadores de mísseis do Irã, impedindo as forças iranianas de utilizarem os estoques que ainda possuem. Segundo dois oficiais israelenses, o Irã conta com lançadores fixos e móveis espalhados por seu território. Alguns de seus mísseis estão armazenados em instalações subterrâneas, mais difíceis de destruir, enquanto outros estão em depósitos acima do solo.
As Forças de Defesa de Israel afirmam já ter destruído mais de um terço desses lançadores. Autoridades e especialistas dizem que isso já limitou a quantidade de mísseis que o Irã consegue disparar em um único ataque. Autoridades americanas afirmaram que os ataques de Israel contra os lançadores dizimaram a capacidade do Irã de lançar seus mísseis e enfraqueceram sua habilidade de realizar ofensivas em larga escala.
“A verdadeira questão é o número de lançadores, mais do que o número de mísseis,” afirmou Asaf Cohen, ex-comandante israelense que liderou o departamento do Irã na direção de inteligência militar do país.
“Quanto mais deles forem atingidos, mais difícil será para o Irã lançar ofensivas em massa,” acrescentou Cohen. “Se eles perceberem que têm um problema de capacidade de lançamento, vão mudar de tática para o assédio contínuo: um ou dois mísseis de vez em quando, mirando duas áreas diferentes ao mesmo tempo.”







