E se os Estados Unidos invadirem a Venezuela?
Disparidade militar entre EUA e Venezuela é abissal: enquanto Washington tem as Forças Armadas mais poderosas do mundo, Caracas ocupa apenas a 50ª posição. Crédito: Amanda Botelho e Gabriella Lodi/Estadão
Gerando resumo
Desde que os Estados Unidos passaram a enviar navios de guerra para o Caribe como um modo de frear o narcotráfico na região e no Pacífico Oriental, há o temor de que a mobilização militar ordenada pelos EUA possa, na verdade, representar uma tentativa de forçar a saída de Nicolás Maduro do poder. Com a escalada de tensão, aumenta ainda a preocupação de que o conflito possa evoluir para um confronto direto entre os dois países, podendo abrir precedentes para intervenções em outros países da América Latina e impulsionar a instabilidade política na região.
Analistas ouvidos pelo Estadão consideram que um confronto direto entre Estados Unidos e Venezuela seria ruim para toda a América do Sul e ainda pior para os venezuelanos.
As consequências desse embate, segundo os analistas, poderiam ocasionar em um caos generalizado em todo o continente, gerando instabilidade política e econômica ainda maior na Venezuela, além de provocar a migração em massa da população a países vizinhos, incluindo o Brasil, assim como a expansão do narcotráfico em regiões fronteiriças.

Na Venezuela, os ataques às embarcações não estão repercutindo do mesmo modo em que a discussão tem ganhado o noticiário internacional, em especial pela preocupação dos países vizinhos sobre a evolução da escalada da tensão. Martínez*, morador local ouvido pelo Estadão que por motivos de segurança preferiu não se identificar, disse que a população venezuelana não debate o assunto e oculta suas opiniões sobre a problemática por haver um “enorme medo de represálias”.
Em coincidência com os ataques americanos às embarcações venezuelanas, o morador diz que a situação econômica do país é muito difícil e está se deteriorando de uma maneira “monstruosa”. “Estamos entrando novamente em um período de hiperinflação e nós perdemos uma boa parte de nossa capacidade de compra”, afirmou.
Na opinião dele, essa conjuntura pode estourar uma onda de protestos sociais no país. “Não sentimos que os ataques polarizaram o debate na Venezuela, mas no fundo há um silêncio expectante esperando que algo aconteça. Caso algo aconteça, possivelmente estaremos nos manifestando, porque 80% do país quer uma mudança política”, destacou.
Martínez considera que o conflito entre os dois países continuará se escalando, não com uma ação definitiva, mas de forma progressiva.
“Nós temos aqui uma escalada progressiva de um conflito que busca dissuadir a outra parte de continuar no rumo que está, e obrigá-la, por assim dizer, a dobrar o volante e evitar uma espécie de colisão frontal que seria letal para quem tem o ‘menor carro’ com menores chances de defesa”.
O venezuelano espera que haja alguma ação racional, seja de dentro do governo Maduro ou entre os que o apoiam e têm acesso direto ao presidente para que não haja um conflito direto entre Estados Unidos e Venezuela, como é temido.
Acusações do governo americano
Washington acusa o governo venezuelano de liderar um cartel de drogas e, desde agosto, lançou uma operação antidrogas no Caribe e no Pacífico, cuja legalidade também tem sido questionada internacionalmente. Segundo Washington, essa força militar tem como objetivo frear o narcotráfico.
O governo americano ainda alertou que realizaria ataques terrestres e autorizou operações da Agência Central de Inteligência (CIA) na Venezuela. As autoridades venezuelanas dizem ter capturado criminosos ligados à CIA e afirmam ter desmantelado “operações de falsa bandeira” que buscavam justificar um ataque em território venezuelano. Na sexta-feira, 31, porém, o presidente Donald Trump disse não planejar ataques à Venezuela.
Nas últimas semanas, pelo menos 62 pessoas morreram no Caribe e no Pacífico em ataques armados realizados por Washington contra embarcações que, segundo o governo americano, pertenceriam ao tráfico de drogas. No entanto, parentes das vítimas afirmam que algumas delas eram apenas pescadores.
Ao relatar as reações de Maduro a ataques como as ofensivas realizadas pelos EUA, Martínez conta que o presidente reage assim como fazem os sequestradores em uma situação de sequestro. “A Venezuela responde ameaçando, tantos líderes políticos como sociais, que irão efetuar maiores represálias contra atores vinculados ou que simpatizam com a oposição, tentando espantá-los com as consequências que teriam com o avançar do cenário, sobretudo para aqueles que estão dentro do país”, afirmou.
Por outro lado, o morador relata que Maduro também costuma realizar exibições e shows militares para demonstrar que “o povo está armado”. Segundo Martínez, Maduro utiliza ainda as redes sociais com publicações de pessoas da terceira idade manipulando armas para dizer que elas defenderão o governo.
“Na realidade, o que eles [membros do governo] buscam com essas iniciativas é transmitir essas ameaças internamente, assim como nós vivemos na Venezuela. Em contrapartida, eles querem enviar uma mensagem aos Estados Unidos de que, embora esses senhores não tenham a capacidade de enfrentar as tropas e as armas que os EUA manejam, serão uma espécie de escudo humano para o governo”, concluiu Martínez.
América do Sul em alerta
Para a professora de Relações Internacionais da FAAP e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais (NUPRI) da USP, Marsílea Gombata, ao ampliar os ataques a embarcações venezuelanas e também acusar o presidente da Colômbia Gustavo Petro de estar envolvido com o narcotráfico internacional, o presidente Trump coloca toda a região em alerta, indicando ainda uma possibilidade de conflito militar, mesmo que ainda distante de uma operação por terra.
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A situação, na visão da analista, desencadeia uma piora da crise múltipla na qual a Venezuela está mergulhada, com o aumento do fluxo migratório de venezuelanos para o Brasil, assim como ocorreu entre 2017 e 2020, período considerado como de pico da onda de imigração populacional. “Uma operação militar na Venezuela é algo que Maduro definitivamente não deseja, assim como líderes da região como Lula e também Petro”.
“A maior preocupação seria como a rede de narcotráfico da Venezuela ia se adaptar a esse cenário [de um provável confronto direto], principalmente o Tren de Aragua, que é o mais famoso. Como que eles iriam fugir, para onde, e com quem eles iriam se aliar em outros territórios”, observa Flávia Loss, professora de Relações Internacionais do Instituto Mauá de Tecnologia.
Com atuação também no Chile, Flávia ressalta que o Tren de Aragua ainda não chegou no Brasil, mas como o risco de confronto armado entre Estados Unidos e Venezuela é “enorme”, a possibilidade dessa rede de narcotráfico fugir para o País também é alta, visto que as fronteiras do Brasil com a Venezuela são muito porosas na avaliação da professora.
‘Mudança de regime’
Embora Washington justifique os ataques como um modo de combater o narcotráfico, a Venezuela pondera que a principal motivação dos americanos seja, de fato, pressionar Maduro e tirá-lo do poder. O secretário de Estado de Trump, Marco Rubio, que também atua como conselheiro de segurança nacional do presidente dos EUA, chegou a chamar Maduro de ‘ilegítimo’.
Desde o primeiro mandato de Trump, os americanos usam como estratégia uma pressão máxima contra a Venezuela, inclusive com o anúncio de sanções contra o setor petrolífero anunciadas em 2019. A estratégia de Washington, no entanto, não funcionou, e apesar das sanções, Maduro permaneceu no poder até o momento.
Pedro Costa Júnior, doutor em Ciência Política na USP e analista de Relações Internacionais, acredita que o que está acontecendo agora é uma operação de mudança de regime. “Eles [Estados Unidos] vão sufocando o governo, o regime. Eles querem tirar o Maduro do poder e colocar a María Corina Machado”, destacou.
Para o analista, o conflito é claro e um dos principais motivadores é o petróleo. A Venezuela é o país que possui a maior reserva de petróleo no mundo, seguida da Arábia Saudita. Pelo interesse americano no ativo, o cientista político considera que faz sentido essa atual investida de Washington no país, principalmente para colocar no poder um governo aliado, como seria caso a ganhadora do Nobel da Paz chegasse à presidência.
A situação, em seu ponto de vista, poderia de fato eclodir em uma desestabilização para a América do Sul como um todo, considerada uma região até então pacífica. “Hoje é a Venezuela. E amanhã, quem vai ser? Isso geraria consequências terríveis”, disse.
Benigno Alarcon, fundador do Centro de Estudos Políticos e pesquisador da UCAB (Universidad Católica Andrés Bello), por outro lado, acredita que o tema ‘Venezuela’ seja muito particular e que não possa abrir precedentes para que a mesma situação ocorra com outros países da região.
“O cenário que se passa na Venezuela é muito particular, então não vejo uma situação de instabilidade por confrontações militares na América Latina, em que os Estados Unidos irão mudar governos por força ou atacar outros países. Há um tempo os EUA estão tentando fazer mudanças de regime através de diferentes formas, com a negociação, a pressão econômica”. /Com AFP.






