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Governo da Ucrânia deseja que Zelenski seja convidado por Lula à cúpula do G-20 no Rio

Autoridades ucranianas esperam vinda do presidente apesar de possível presença de Putin; Itamaraty diz que possibilidade de convite ao ucraniano não está descartada

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Foto do author Carolina Marins
Por Carolina Marins
Atualização:

ENVIADA ESPECIAL A KIEV* - A Ucrânia manifestou nesta quinta-feira, 23, a esperança de que o presidente Volodmir Zelenski seja convidado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a cúpula do G-20, a ser realizada em novembro no Rio de Janeiro. O Brasil, porém, já deu sinais de que convidará Vladimir Putin, apesar do mandado de prisão contra o líder russo expedido pelo Tribunal Penal Internacional, do qual o Brasil é signatário.

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A afirmação foi feita pela vice-ministra de Relações Exteriores da Ucrânia, Irina Borovets, durante encontro com uma delegação de jornalistas latino-americanos da qual o Estadão faz parte. Membros do governo também querem planejar uma cúpula Celac-Ucrânia, bem como estar presentes em reuniões com líderes do Mercosul, realizar encontros bilaterais com presidentes da América Latina e expandir a presença diplomática do país na região.

“Há muitas organizações que são do nosso interesse na região. Gostaríamos de participar, por exemplo, da reunião de líderes do Mercosul. Celac também. Sabemos que Putin será convidado, mas ainda gostaríamos de trabalhar em algum nível para que haja um convite ao nosso presidente para o G-20 em seu país. Especialmente porque o tema será segurança alimentar, que é um dos nossos principais tópicos em nossas condições de paz”, afirmou Borovets em resposta a um questionamento do Estadão.

O presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski Foto: Roman Pilipey/AFP

“Temos muita ansiedade de que o nosso presidente tenha a oportunidade de falar na região, seja em uma cúpula, seja por reuniões bilaterais”, completou.

Ao Estadão, fontes do Itamaraty disseram que a reunião do G-20 ainda está em fase de organização e nenhum convite foi emitido, portanto, uma possibilidade de convite ao ucraniano não está descartada.

O Brasil, porém, tenta viabilizar a vinda do presidente da Rússia ao Rio de Janeiro. No ano passado, o TPI emitiu um mandado de prisão contra Putin pelo suposto sequestro de crianças ucranianas. Pela regra do Estatuto de Roma que rege o TPI, países signatários devem cumprir os mandados caso o acusado viaje ao seu território.

Mas o governo Lula tem tentado por meio de um parecer jurídico defender o descumprimento de ordens de prisão do TPI contra chefes de Estado que não fazem parte do estatuto, o que seria o caso da Rússia. Em um impasse semelhante na reunião do Brics na África do Sul ano passado, Putin desistiu da viagem.

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Em conversa com jornalistas brasileiros em Kiev em abril, Zelenski afirmou que convidar Putin seria “um grande erro”. Em um sinal de intensificação dos esforços ucranianos em se aproximar do Brasil e dos países da América Latina, Borovets disse que deve visitar Brasília em meados de junho, antecipando uma possível viagem do ministro de Relações Exteriores Dmitro Kuleba.

Cúpula de Paz

Antes, existe grandes expectativas por parte do governo ucraniano de um encontro de Zelenski com Lula na Suíça. A Ucrânia realizará nos dias 15 e 16 de junho uma Cúpula de Paz na Suíça, onde pretende reunir o maior número possível de países a fim de iniciar conversações para elaborar um plano de paz.

Para os ucranianos, a presença de Lula seria fundamental para impulsionar o apoio a Kiev na América Latina, onde há resistências. Lula, porém, já sinalizou que não pretende comparecer à reunião, mas o Brasil ainda deve enviar uma delegação, segundo os ucranianos.

“Eu ainda tenho esperanças de que o Lula vá, embora isso ainda não seja suficiente para construir uma relação que poderíamos ter”, disse a vice-ministra. “Recebemos sinais de que a participação não será a um nível presidencial, talvez ministerial, mas ainda assim será muito importante ter a presença do Brasil. Mas seria ótimo ter o presidente Lula, seria muito bom para a cúpula e para o futuro da guerra, pois países da região poderiam seguir o exemplo.”

Negociação com a Rússia

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A intenção ucraniana não é transformar esta cúpula em um processo de negociação de paz, tanto que o convite não foi estendido para Rússia, mas sim reunir o maior número possível de países em apoio à Ucrânia, que levará dez pontos principais de discussão para o início de uma conversação de paz.

“Essa não é uma cúpula para começar a negociação com a Rússia. Essa é uma cúpula pensada para nos preparar para começar a negociar com a Rússia, porque não podemos ir sozinhos negociar”, afirmou o Conselheiro do gabinete de Zelenki, Oleksandr Bevz.

“Primeiro queremos levar os nossos dez pontos com todos os países que vão participar. Depois disso, Rússia entra no jogo. Se tivermos algo a dizer à Rússia, tem que ser juntos como países, porque a Ucrânia não pode se garantir sozinha. Queremos ver a Rússia na mesa de negociação, mas precisamos do escudo da comunidade internacional”, completou.

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Nos dez pontos mencionados pelo conselheiro estão: segurança nuclear (em meio à ocupação russa à usina de Zaporizhzhia), segurança energética (em meio aos ataques russos a infraestruturas críticas da Ucrânia), segurança alimentar (devido às dificuldades de exportação de grãos pelo porto de Odessa), aspecto humano, retorno das crianças deportadas, intervenção russa nos territórios, retirada de tropas russas, restauração, garantias de segurança e uma confirmação legal do fim da guerra.

Lula e Zelenski durante encontro em Nova York em setembro de 2023 Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República

‘Amigos de Moscou’

Os pontos, porém, ainda são um rascunho e o documento final que será levado à reunião ainda está em preparação, segundo Bevz. Ainda de acordo com ele, o governo ucraniano levará em consideração neste documento as preocupações dos países latino-americanos, embora não tenha especificado quais.

“Nós entendemos as preocupações do Brasil e estamos agora tentando responder a essas preocupações, porque para nós é muito importante que o Brasil se envolva”, disse. A intenção é ter especialmente Brasil, China, Índia e África do Sul na cúpula, países que, em suas palavras, são escutados por Moscou.

Sabemos que a Rússia escuta algumas capitais. Talvez Pequim, Brasília, Pretória e Deli. Mas não estamos pedindo para serem mediadores, porque não há nada para mediar neste momento particular.

Oleksandr Bevz, conselheiro do gabinete de Volodmir Zelenski

“Esperamos que estes países estejam conosco para pensar juntos o plano que vamos elaborar. Essas capitais, que tem acesso à Moscou podem servir muito neste momento”, completou. Para envolver mais estes países, o governo ucraniano pretende dar ênfase aos pontos de segurança alimentar - que será o tema do G-20 no Rio -, nuclear e energética.

Cúpula Celac-Ucrânia

Outro ponto destacado pelo gabinete presidencial ucraniano é o desejo de realizar uma cúpula entre os países da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) e a Ucrânia. No ano passado, a Ucrânia tentou participar do encontro entre a Celac e a União Europeia, mas não obteve sucesso.

“Estamos planejando contato com todos os países este ano, um de grande importância seria celebrar uma cúpula Ucrânia e Celac em um dos países da região”, afirmou o chefe adjunto do departamento de política externa do gabinete da presidência, Andrii Nadzhos.

“Estamos determinando o lugar e data. Isso para nós é muito importante porque em 2023, na cúpula Celac e UE em Bruxelas, a Ucrânia queria ter a oportunidade de participar, mas sem êxito. Vamos repetir este ano essa tarefa”, continou.

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Outra ideia é expandir acordos bilaterais com países da região, bem como aumentar a presença diplomática da Ucrânia com abertura de embaixadas na Colômbia, Panamá, Paraguai, Guiana e Uruguai. “Mas isso ainda são planos. A ideia a envolver os países da Celac no tema da Ucrânia em temas como alimentos e reabilitação de veteranos ucranianos”.

Este esforço ucraniano de se aproximar da América Latina e realizar uma cúpula de paz ocorre em um dos momentos mais vulneráveis da Ucrânia nesta guerra. A Rússia abriu uma nova frente de batalha na região de Kharkiv, a segunda maior do país, o que expõe as frentes do sul e do leste. Moscou também tem feito exercícios com armas nucleares táticas, em um sinal ao Ocidente. Enquanto isso, Zelenski está em uma cruzada para convencer os Estados Unidos a permitirem o uso de suas armas para atacar o território russo.

*A repórter viajou a convite da Fundação Gabo, que tem um projeto para incentivar reportagens em cobertura de conflitos internacionais, em parceria com a organização Ukraine Crisis Media Center, da Ucrânia

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